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Saudades do Doutor Antonio Figueiredo

José Mário. Publicado em 9 de julho de 2016 às 9:29

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* José Mário da Silva

Morre o Doutor Antonio Figueiredo. Filho do legendário Acácio Figueiredo, Doutor Antonio carregou em sua personalidade a nobreza genealógica do clã familiar a que pertenceu, e o brilho congênito dos seus valores e virtudes rigorosamente pessoais. Fidalguia encarnada, Doutor Antonio Figueiredo era, de igual modo, sinônimo de diálogo franco e sumamente edificante. Diálogo do qual desfrutei inúmeras vezes quando, acolhedoramente, em várias ocasiões, ele me recebeu em sua aprazível residência.

Culto e afeito ao enriquecedor hábito da leitura, no qual se consumiu e consumou ao longo de quase nove décadas de vida, o ser/fazer do Doutor Antonio Figueiredo ancorava fundamentalmente no código memorialístico, que sabia valorizar o vivido; preservar o fluir da história, que escorre no pluridimensional solo do cotidiano; e, por fim, salvá-lo da deslembrança radical a que frequentemente os submete a nossa injustificável vocação para o exercício da amnésia histórica.

Despojado de vaidades e egoísmos, certa feita o Doutor Antonio Figueiredo convidou-me para ir a sua casa. Queria doar um rico material jornalístico vinculado à realidade de Campina Grande. Tratava-se de multiplicados escritos de um periódico fundado pelo seu pai, o Doutor Acácio Figueiredo. No final das contas, o fecundo repertório da vida cultural e política de nossa terra e de nossa gente findou sendo doado para a Unidade Acadêmica de História da Universidade Federal de Campina Grande, passando a funcionar como inafastável fonte de pesquisa para tantos quantos anelam conhecer, mais verticalmente, as cenas e os cenários da Campina Grande do ontem. Ontem, que é suporte para o hoje e plataforma para a construção do amanhã.

Sem nostalgias estacionárias, Doutor Antonio Figueiredo soube cultivar uma perspectiva unitária do tempo, sem as clivagens reducionistas, nem as cisões empobrecedoras.

Doutor Antonio Figueiredo, sendo homem público exemplar, não o foi menos digno de apreciação em sua conduta no sagrado território da família, essa célula mãe da sociedade hoje tão vilipendiada. Aqui evocamos, dentre outros, os testemunhos da senhora Fátima, sua esposa, e de Antonio, Acácio e Júlia, seus filhos. Testemunhos esses com os quais o diagnóstico de quem efetivamente foi o Doutor Antonio Figueiredo ganha singular uniformidade de percepção e vivência íntima: esposo exemplar e pai paradigmático na difícil arte/ciência de conduzir uma família, notadamente nos loucos tempos em que vivemos.

Doutor Antonio Figueiredo parte e deixa-nos a todos os que tivemos o privilégio de conviver com ele, envoltos pela dolorosa bruma da saudade, esse tocante sentimento que nos fere quando está longe de nós quem gostaríamos que perto estivesse o tempo todo. Doutor Antonio Figueiredo foi, sobretudo, um cidadão para quem a ética fez-se uma cláusula pétrea de um ser cercado de caráter por todos os lados.

Para o filósofo norte-americano Emerson, “o homem é apenas metade de si mesmo, a outra metade é a sua expressão”. Para além daquela que se plasma na argamassa concreta da linguagem transformada em texto, a expressão do Doutor Antonio Figueiredo consubstanciou-se no conúbio harmonioso entre o seu pensar/sentir/agir na paisagem campinense, seu berço, pasárgada e campa, agora que, em obediência aos soberanos desígnios da Providência divina, ele se evadiu da contingencialidade temporal, a fim de habitar no misterioso e real território da eternidade.

* Membro da Academia Paraibana de Letras

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José Mário

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