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São João traz a alegria

Padre José Assis Pereira. Publicado em 23 de junho de 2018 às 11:49

Estamos em plena festa de são João Batista, um dos personagens mais enigmáticos e atraentes da Sagrada Escritura e um dos santos mais populares que marca nossa religiosidade, cultura e realidade nordestina.

A festa é um dado antropológico profundamente importante, é que a festa é este tempo que interrompe e altera a rotina, o cotidiano, o convencional e traz dinâmicas novas para a nossa vida. Festejar e celebrar aparece como palavras sinônimas. Elas indicam essa ruptura do tempo profano, da monotonia do comum, a fim de celebrar algum acontecimento com alegria. A festa consiste na celebração, reunião comunitária, recordação, presença prazerosa, espaços lúdicos e humanos, gratuidade e ritos simbólicos.

A festa é fundamental na experiência cristã, celebramos porque cremos que a vida é radicalmente bela e boa e porque não nos resignamos aos elementos negativos que empanam a beleza e a bondade do mundo. Nessa perspectiva a festa é: Imaginação, utopia de um mundo melhor; Expressão dos valores que a rotina cotidiana nem sempre nos permite viver: liberdade, alegria, fraternidade; Protesto contra tudo o que se opõe à vivência desses valores.

O cristão tem que viver e celebrar a festa, proclamar a festa, pois ela além de ser um redutor de tensões, é um elemento integrador e dá inspirações novas. Infelizmente muitas vezes olhamos para a festa de modo desconfiado como sendo uma coisa contaminada, afastada da pureza cristã. É verdade que tem certos excessos, certas contaminações, mas que não são tão más assim. Pode acontecer até que a proposta cristã não chegue a tocar certas realidades da vida concreta que a nossa fé tem que tocar, pois o cristianismo é tensional é uma proposta que desafia a vida a desinstalar-se e encher-se de vida, e tocar a festa.

Mas onde está a figura de São João envolto nessa atmosfera festiva e de alegria? Quem é João Batista? Por que o austero profeta do deserto inspira tanta alegria. Sem duvida, a primeira coisa que diz o Evangelho ao falar de João, antes de seu nascimento é de alegria. O anjo diz a Zacarias seu pai que seu filho “será para ele motivo de grande alegria e muitos hão de alegrar-se com o seu nascimento” (cf. Lc 1,5-17). E quanto a sua mãe, Isabel, no sexto mês de sua gravidez em seu encontro com a Virgem Maria testemunha que “ao ouvir à sua saudação, a criança estremeceu de alegria em seu ventre” (cf. Lc 1, 39-45).

“João é o seu nome… O que virá a ser esse menino? De fato, a mão do Senhor estava com ele.” (cf. Lc 1,57-66.80) Este menino trouxe no seu nascimento o mistério mais belo da vida que não é fruto do acaso, mas que está envolvida pelo mistério da sabedoria de Deus que constrói com ternura, que conhece com amor esmerado, que forma com maestria no ventre materno, que nos propõe grandes coisas.

Este menino é a tradução da admirável grandeza de Deus que ultrapassa a lógica meramente humana para desafiar as nossas limitações de idade avançada, a infertilidade e os nossos cálculos tão efêmeros. É, pois a surpresa admirável da vida, da esperança, é a beleza de Deus no mistério da pessoa humana.

Este menino traz a alegria aos seus pais, aos seus vizinhos, aos seus parentes e a tantos outros que sabem descobrir que onde há vida há tudo. A vida é por si alegria. É mistério de novidade em cada pessoa que é única e irrepetível. Este menino se chamara João, novidade de um nome que de si é surpresa e revelação da graça, a abrir caminho à grande surpresa e maravilha que é Cristo Jesus.

O nome João significa “Deus é misericordioso”. No mundo judeu o nome de uma pessoa queria indicar o destino e a missão com que essa pessoa veio ao mundo. Todas as pessoas pensavam serem enviadas ao mundo por Deus com uma missão. Não nascemos para nada, nascemos para cumprir a missão que Deus nos encomendou. Nesse sentido podemos dizer que nossa missão é nossa vocação. Deus nos chamou à vida para algo.

Como sabemos, a missão de João, sua vocação, foi de ser percursor de Jesus, do Messias, e ele cumpriu sua missão com fidelidade e entrega. Todos nós nascemos também com uma missão debaixo do braço. Descobrir e ser fiel a esta missão é uma tarefa importantíssima. Não é necessário pensar que nossa missão ou vocação com a qual Deus nos trouxe ao mundo teria que ser algo grandioso ou socialmente importante, é suficiente que seja importante para nós e boa para os outros.

“O que virá a ser esse menino?” Somos desafiados a descobrir que somos todos como João, um milagre, fruto do milagre da vida. Compreender que todos  temos uma missão maravilhosa:  O que Deus quer de mim? Em cada vida Deus se revela numa intervenção maravilhosa, sermos um sinal, um dom para os outros, ser instrumentos de Deus, mas não com arrogância e sim com humildade, chamados a ser preparadores de terrenos, abrir caminhos, ser apenas voz, mas com a consciência de João: “Eu não sou o Messias, mas sou enviado diante dele.” (Jo 3,28) Estou a serviço do Senhor, sem a arrogância dos que se acham donos da verdade, com a atitude apenas de apontar para o Messias e não para o próprio dedo.

Nesta solenidade somos interpelados a sentirmos a maravilha da aventura da vida. Uma aventura maravilhosa, com dificuldades e obstáculos, mas que é uma realidade tão profunda e tão bela e tratando de imitar João descobrir que nascemos com a missão de facilitar aos outros o acesso a Cristo. Ser mensageiros de vida e da alegria do evangelho de Jesus. Esta seria uma boa maneira de celebrar com dignidade a festa do nascimento de São João Batista.

Os artigos postados no Paraibaonline expressam essencialmente os pensamentos, valores e conceitos de seus autores, não representando, necessariamente, a linha editorial do portal, mas como estímulo e exercício da pluralidade de opiniões.

Padre José Assis Pereira

* Padre José Assis Pereira Soares é párcoco da Paróquia Nossa Senhora de Fátima, no bairro da Palmeira.

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