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Roubalheira com força

Ailton Elisiário. Publicado em 13 de fevereiro de 2017.

Por: Ailton Elisiário

No preciso ano de 1655 em Portugal, o Padre Antônio Vieira pregando em Lisboa denunciou no Sermão do Bom Ladrão como o reino lusitano estava corroído. Tratou da roubalheira que era comum entre os agentes do governo e que se dava de diversas formas que ele pôde bem classificar.

Disse ele: “Tanto que lá chegam, começam a furtar pelo modo indicativo, porque a primeira informação que pedem aos práticos é que lhes apontem e mostrem os caminhos por onde podem abarcar tudo. Furtam pelo modo imperativo, porque, como têm o mero e misto império, todos eles aplicam despoticamente às execuções da rapina. Furtam pelo modo mandativo, porque aceitam quanto lhes mandam, e, para que mandem todos, os que não mandam não são aceitos”.

E continuou: “Furtam pelo modo optativo, porque desejam quanto lhes parece bem e, gabando as coisas desejadas aos donos delas, por cortesia, sem vontade, as fazem suas. Furtam pelo modo conjuntivo, porque ajuntam o seu pouco cabedal com o daqueles que manejam muito, e basta só que ajuntem a sua graça, para serem quando menos meeiros na ganância. Furtam pelo modo potencial, porque, sem pretexto, nem cerimônia, usam de potência. Furtam pelo modo permissivo, porque permitem que outros furtem, e estes compram as permissões. Furtam pelo modo infinitivo, porque não tem o fim o furtar com o fim do governo, e sempre lá deixam raízes em que se vão continuando os furtos”.

Quatro séculos depois se descobre que esse triste quadro se reproduz em terra brasileira. A Lava Jato, a maior operação de anticorrupção jamais vista no mundo dá conta que estamos a viver o furto em todas aquelas direções e dimensões. Como lá no Século XVII o Reino de Portugal estava podre, cá está podre no Século XXI a República do Brasil.

Um esquema de corrupção perpetrado pelo PT e coonestado pelo PMDB fez surgir o petrolão. O consórcio PT/PMDB surgiu no Governo Lula, manteve-se no Governo Dilma e permanece no Governo Temer. Uma sofisticada organização criminosa que pagava altas propinas a funcionários e políticos para direcionarem contratos da Petrobrás para as empresas de um cartel igualmente criminoso de empresas, por mais danosos que fossem aos cofres da estatal. As empresas Odebrecht, OSX, Mendes Júnior e outras integram esse cartel.

O Procurador Geral da República Rodrigo Janot denunciou que esses partidos políticos “modularam um desenho de um grupo criminoso organizado único, amplo e complexo, com uma miríade de atores que se interligam em uma estrutura com vínculos horizontais, em modelo cooperativista, em que os integrantes agem em comunhão de esforços e objetivos, e outra em uma estrutura mais verticalizada e hierarquizada, com centros estratégicos, de comando, controle e tomadas de decisões mais relevantes”.

Porém, manobras políticas demonstram que PT e PMDB com o concurso de outros partidos convergem no esforço de fazer fracassar a Operação Lava Jato. Até agora poucos foram condenados e dentre eles nenhum político. Empresários, funcionários, doleiros, encontram-se atrás das grades e ainda sem a devolução de tudo que foi objeto da rapina. Falta muita gente e de grande costado.

A Operação Lava Jato enfrenta permanentes ameaças. Parlamentares trabalham no sentido de anistiar a si próprios dos crimes de corrupção praticados buscando aprovar leis que os salvem, governantes tentam nomear suspeitos denunciados para ocuparem cargos públicos concedendo-lhes foro judicial privilegiado, partidos buscam ficar isentos de punição pela rejeição ou não apresentação de suas contas eleitorais, a força tarefa da Polícia Federal passa por desmonte para se dificultar os inquéritos, o STF é contaminado com indicações para ministros de pessoas que já serviram aos grupos e partidos envolvidos, entre tantas outras manobras espúrias.

Mas, a Lava Jato não pode fenecer. PT, PMDB, PSDB, PP e outros partidos mais estão no mesmo barco com tantas menções de seus integrantes no mega esquema de corrupção. Navegar é preciso e para isto já passa da hora de novas mobilizações populares. O povo tem que ir às ruas, manter-se alerta, acompanhar o processo investigativo e exigir que os criminosos sejam punidos. É bom lembrar de que o poder emana do povo e deve ser exercido para o povo. Princípio constitucional que jamais deverá ser olvidado.

Os artigos postados no Paraibaonline expressam essencialmente os pensamentos, valores e conceitos de seus autores, não representando, necessariamente, a linha editorial do portal, mas como estímulo e exercício da pluralidade de opiniões.

Ailton Elisiário

O autor é economista, advogado, professor da Universidade Estadual da Paraíba e membro da Academia de Letras de Campina Grande.

falecom@fhc.com.br

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