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Rouba, maz faz

Arlindo Pereira de Almeida. Publicado em 15 de abril de 2018 às 21:43

Por todo o mundo, a questão da corrupção e da roubalheira se faz presente. Em alguns países, menos, em outros o excesso é a marca. É rara, mas há a presença do político que rouba, mas é competente e faz coisas de interesse da população.

Estudos revelam que esse entendimento é uma espécie de ópio de natureza psicológica, que adormece e vicia o cidadão. Por isso mesmo, não exerce ele a seletividade entre o certo e o errado na hora de votar.

Ou, o que é pior, vende o seu voto ao corrupto, que lhe paga com seu próprio dinheiro, pago através do tributo que lhe é surripiado.

Para uma parcela significativa da população, que tem plena consciência das coisas, é um prato de difícil digestão essa de votar em ladrão. Outros, porém, pensam apenas nos benefícios pessoais e imediatos, que já receberam ou pensam em receber futuramente. O pensamento destes é de que o seu candidato rouba, mas faz.

Análises realizadas por especialistas, mostram que a corrupção não constitui “privilégio” do Brasil. Eles “sugerem que os cidadãos reduzem a tensão psicológica associada a votar em um político corrupto, mas eficiente, minimizando a severidade do delito.

Quem faz muito pela população acaba contando com sua benevolência (misericórdia), que vê sua corrupção como menos grave.” É a chamada “redução da dissonância”, ou seja, a minimização do fato desagradável

O economista Eduardo Giannetti escreveu no brilhante trabalho Vícios privados, benefícios públicos?: “temos uma imagem bastante favorável de nós mesmos (autoimagem), ou seja, nos sentimos honestos, honrados e probos nos nossos discursos, mas isso nem sempre se converte em ação concreta. O resultado concreto do todo (do País), que conta com vários políticos corruptos reeleitos, não bate com as partes (as opiniões e os discursos dos eleitores).

O Brasil está cheio de exemplos de obras públicas que foram anunciadas com pompa e circunstância, muitas delas inconclusas e outras tantas extrapolando os orçamentos e, em quase todas, com péssima execução, que já se transformaram em sucata e outras estão em vias disso. A marca comum em quase todas elas é a corrupção. Vamos ver alguns exemplos?

  1. Obras da Petrobras. Refinaria Abreu e Lima – Orçamento inicial US$2,3 bi; investimento projetado agora US$ 13,4 bi. Custo do barril processado US$ 80; Custo do processamento em empreendimentos semelhantes, no mundo, US$ 30 em média. Não concluída.
  1. Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro – Com orçamento inicial de RS$ 15 bilhões, o orçamento para conclusão vai a R$120 bi. Não se sabe ainda quando será concluído, se é que será concluído algum dia, à falta de viabilidade econômica.

 

  1. Custo da copa do mundo – R$ 25,6 bi segundo Governo Federal

– R$ 8 bilhões ou 3x o valor estimado só em arenas. Estádios em péssimo estado.

  1. Ferrovia Transnordestina – O orçamento inicial era de R$ 4,5 bilhões. Até agora a obra já consumiu R$ 6,3 bilhões. O orçamento atual do projeto é de R$ 11,2 bilhões – o suficiente para construir 28 mil postos de saúde ou 12 mil Não concluída e paralisada na prática.
  1. Olimpíadas de 2016 – R$ 36,7 bilhões. Estima-se que o montante foi 50% acima do previsto. Instalações em péssimo estado de conservação.
  1. Transposição das águas do Rio São Francisco – Orçamento original R$ 6 bilhões, devendo custar o dobro Previsto para conclusão em 2010, ainda não foi concluída.

A isso, também, acrescente-se a roubalheira nos fundos de previdência das estatais, envolvendo recursos superiores de R$ 110 bilhões, ainda sob investigação. O que será dos empregados dessas empresas quando se aposentarem e tiverem diminuída a aposentadoria complementar que constituíram em anos e anos de contribuição? Somente na Petros, os empregados da Petrobras deverão aportar R$ 14 bilhões adicionais, em 18 anos, com percentuais que variam de acordo com o salário.

Os exemplos acima mostram uma realidade ainda maior do rouba, mas faz. Assistimos agora o rouba e não faz.

Isso no âmbito do Governo Federal. Será que os 27 estados e nos mais de 5.600 municípios será diferente? O noticiário mostra que não!

Para alguns pode parecer enfadonha, repetitiva, a frase do grande brasileiro Rui Barbosa “De tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça. De tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar-se da virtude, a rir-se da honra e a ter vergonha de ser honesto.”

A frase de Rui é atualíssima. Mas, não percamos a esperança de mudar o Brasil, de riscar do nosso caderno de civismo a vil assertiva do rouba, mas faz.

Quem se apropria dos recursos da sociedade em beneficio próprio deve pagar por isso, independentemente de sua posição social, da sua força política ou econômica.

Os artigos postados no Paraibaonline expressam essencialmente os pensamentos, valores e conceitos de seus autores, não representando, necessariamente, a linha editorial do portal, mas como estímulo e exercício da pluralidade de opiniões.

Arlindo Pereira de Almeida

Economista.

falecom@fhc.com.br

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