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Rodrigo Mello: Ninguém enriquece só!

Rodrigo Mello. Publicado em 11 de novembro de 2020 às 19:03

Na coluna passada, ao tratar acerca da liberdade (uma condição fundamental à produção de riqueza), fiz um movimento no sentido de evidenciar que seu exercício parte de uma disposição íntima do psiquismo humano. Fundamentalmente, a riqueza de um indivíduo parte de sua decisão íntima, com o intuito de desenvolver-se economicamente. A livre iniciativa de produzir algo que seja importante e necessário ao outro é a base de toda a prosperidade econômica de um indivíduo e de uma sociedade, em qualquer parte do mundo.

Por isso, a ideia que norteará a coluna desta semana é a seguinte: a riqueza de um indivíduo baseia-se na sua capacidade de realizar benefícios ao outro – e, para tal realização, o sujeito necessita dispor de liberdade para agir e mover-se em direção a tal empreitada (algo que já tratamos nas duas últimas colunas, quando abordamos a importância da ambição e da liberdade no processo de enriquecimento). Outrossim, penso ser necessário evocar novamente a regra de ouro da ética ricoeuriana, caracterizada como sendo “uma vida boa com e para o outro em instituições justas”, para refletirmos sobre a psicologia de riqueza.

No livro “O Si-Mesmo como um Outro”, Ricoeur chama a atenção para a importância do conceito de ipseidade, como uma premissa inicial para a realização de uma vida boa. Para ele, é impossível viver uma vida boa se o indivíduo não for capaz de realizar as próprias disposições de sua vida e ser quem ele mesmo se dispõe a ser (o que conhecemos como sendo autenticidade). Além disso, Ricoeur continua sua digressão intelectual apontando para o fato de que para uma vida boa é necessário que o sujeito esteja disposto a realizar a si mesmo, mas, que esta realização seja com e para o outro.

Não basta que a vida seja boa somente para si mesmo! É necessário que ela seja vivida com e para o outro. Isso significa dizer que o bem viver – que podemos traduzir como a principal das riquezas – demanda a realização das disposições de si mesmo, mas, em uma condição na qual o outro também possa estar presente e fazer parte dessa obra. Ninguém enriquece só!!! De modo que podemos afirmar, categoricamente, que na riqueza não há espaço para o individualismo ou para o egocentrismo [característica própria da pobreza, da mesquinhez e da avareza].

A riqueza está para todos os que entendem ser uma economia opulenta um relevante espaço para a realização de qualquer pessoa que assim se disponha. Em um espaço de abundância, todos produzem meios e condições benéficas para que possam se realizar plenamente. Percebamos, por exemplo, que a generosidade é uma marca importante na vida de pessoas ricas e que convivem nesse espaço de desenvolvimento. Quem verdadeiramente é rico, deseja que esta condição e mentalidade se espalhe para tantos quanto desejem e sejam capazes de se realizar.

Um indivíduo verdadeiramente rico, cria riqueza em seu entrono, alcançando o outro e suas disposições para sua realização plena. A riqueza está na capacidade de realizar e criar benefícios para o outro, como afirmei logo no início! Mas, nesse caso… O que vem a ser um benefício? Poderíamos, inadvertidamente, confundir benefício com privilégio? Claro que não! Um rico não é um privilegiado, no sentido etimológico da palavra (privilegium – alguém que goza de uma espécie de lei privada ou para poucos).

Rico é alguém que, livremente, produz um bem de importante valor para si, mas – principalmente – para o outro (que lhe retribui com outro valor, igualmente bom e relevante). Assim, nesse movimento nasce o mercado: o espaço, por excelência, para as trocas de valores. Algo que, na próxima coluna, podemos discorrer um pouco mais sobre a ideia. Um forte abraço e até lá.

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Os artigos postados no Paraibaonline expressam essencialmente os pensamentos, valores e conceitos de seus autores, não representando, necessariamente, a linha editorial do portal, mas como estímulo e exercício da pluralidade de opiniões.

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Rodrigo Mello

Doutor em psicologia clínica. Com formação em Direitos Humanos, Psicologia Econômica, Educação Financeira e Arquitetura de Escolha, com 15 anos de experiência na psicoterapia, atuando na docência e elaboração de laudos perícias para fins judiciais.

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