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Roberto Coura: Fragmentos

Noaldo Ribeiro. Publicado em 4 de setembro de 2021 às 19:38

Soube do óbito de Roberto Coura através de Branco – gajo mimado e errante, preso a cruel dúvida entre seguir o estilo vegano ou de carnívoro inveterado. Talvez por conta desse dilema, seja acometido de certo déficit de atenção. 

Assim, para a confirmação da má notícia, consultei as redes sociais de Arly Arnaud, amiga, que acompanhou, notadamente nos momentos mais difíceis, o fotógrafo que pôs em evidência a feira de Campina Grande, atualmente agraciada com o título de patrimônio imaterial brasileiro.

A morte de Coura me instigou a me manifestar de alguma forma. Deparei-me com duas opções: discorrer sobre o Roberto introspectivo, tímido e, ao mesmo tempo, excêntrico, festeiro, irreverente e, por vezes, extravagante, além de amante, bem mais dos Rolling Stones de que dos Beatles. Desisti deste caminho, teria que narrar às derrapagens de sua velha Brasília, não raro, mais veloz que uma Ferrari.

Escolhi, então, falar sobre o lado profissional de Coura – sua indomável inclinação em transformar as suas lentes numa extensão do seu olhar.

Lembrei-me que há três anos, costumávamos nos encontrar no Calçadão. Tomávamos um cafezinho, pretexto para, logo após, acendermos um cigarro em homenagem a Keith Richards – hábitos infantis, comparados aos dos loucos anos 80, do século passado, onde a preferência era chope, em quantidade nada modesta, normalmente no Chopinho (bem atrás do Teatro Severino Cabral) e a cerveja quente, nos botecos da Rodoviária Velha.  

Nas nossas conversas, uma pauta era recorrente. Coura queria fazer uma exposição, catando na sua longa produção, majoritariamente em preto e branco, o que lhe parecia mais significativo, inclusive sob o ponto de vista afetivo.

O próprio Roberto escolheu cada foto, bem como o título da exposição: Fragmentos. A mim, coube a tarefa de escrever a apresentação que comporia o folder.

Enfim, não tivemos fôlego para levar o projeto até o fim. Resta apenas à lembrança e a boa memória de Coura, seja como homem, seja como artista, que na última terça, 31\09\2021, ultrapassou a linha de chegada da aventura de viver.

Segue, finalmente, o texto da exposição frustrada, agora convertida num registro, a mais, de sua marcante obra:  

A mostra Fragmentos, de Roberto Coura, é uma visita ao passado, sem nostalgia ou saudosismo. É um parto de vinte e oito anos de trabalho, talhado em branco e preto, traduzindo cenas do cotidiano, só perceptíveis ao olhar sensível do artista.  

Fragmentos é uma antologia de Coura, ora capturando a diversidade da Feira Central de Campina Grande, verdadeira síntese da cultura nordestina, ora emoldurando folguedos e manifestações de culturas populares. Noutro patamar, suas lentes enquadram a agudeza da vida de populações desapossadas, em territórios urbanos hostis e, num plano mais ameno, maravilhosos retratos sem poses ensaiadas, mas de beleza singular. 

O foco de Fragmentos é, então, o homem comum. Daí, flagrantes singelos, porém expressivos, caso do velho músico de banda, daquelas que induz “a moça feia a debruçar-se, sorridentemente, na janela”. De carga igualmente significativa, o fotógrafo lambe-lambe cata clientes em pleno centro da cidade, principalmente os vindos do interior e dos bolsões periféricos. Movido pela mesma vertente, uma bela imagem de habitações sub-humanas, mas envolto a um contundente clima melancólico.

Dignos de análogos registros são os festejos de momo, com seus bois, mascarados solitários e o inevitável rebuliço do entrudo, o chamado mela-mela, com muita água, talco e maisena (mais maisena que talco). As populares festas de rua apresentam o charme do “croupiê” brejeiro, num continuo chamamento aos passantes, valendo-se do conhecido bordão: “Façam o jogo senhores! façam o jogo senhores!”.       

Nessa antologia, fazer referência a Feira de Campina Grande é mais que uma obrigação. Os utensílios em barro, a vendedora de verduras e o vai e vem da feira de carne são apenas algumas das peças que levaram Roberto Pontual, reconhecido crítico de arte a declarar: “Na Paraíba, mais precisamente no Museu de Arte de Campina Grande, que eu vi, em 1979, uma das melhores exposições a que tive acesso nos últimos dois anos, a do jovem fotógrafo paraibano Roberto Coura, sobre a feira tradicional da mesma cidade”. Um pouco além da crítica especializada, grife-se a gigante repercussão desse documentário icnográfico no meio artístico e na própria população campinense.

Fragmentos, esses relatos imagéticos, de suporte socioantropológico, como admite o próprio Roberto, cedem lugar para a exibição de retratos de rostos encantadores, a dura labuta dos engenhos, enfim o rosto machucado dos homens “ordinários”, socialmente invisíveis.

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