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Roberto Cavalcanti: Sessentona

Roberto Cavalcanti. Publicado em 16 de dezembro de 2019 às 19:30

Hoje, 15 de dezembro, não poderia como brasileiro e, principalmente, como nordestino, deixar passar em branco data tão significativa. Neste dia, em 1959, foi criada a SUDENE (Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste). À época, subordinada diretamente ao Presidente da República, administrativamente autônoma e sediada na cidade do Recife. É, portanto, minha conterrânea.

Considerava-se Nordeste a região abrangida pelos Estados do Maranhão, Piauí, Ceará, Rio Grande do Norte, Pernambuco, Alagoas, Sergipe, Bahia e a nossa querida e sofrida Paraíba. Abrigaria também a zona de Minas Gerais compreendida no polígono das secas e, posteriormente, o norte do Estado do Espírito Santo.

O Diário Oficial da União trazia em sua edição de 16-12-59, na página 26.185 (publicação oficial), o texto do decreto datado de 15-12-59, que vinha assinado pelo Presidente Juscelino Kubitschek (1956-1961) e ministros.

A origem de sua criação foi fruto de uma constatação histórica de que nossa região já era identificada como aquela que, periodicamente, estava exposta ao avassalador efeito das secas.

Na literatura, de 1926 aos anos 1930, o Movimento Regionalista já apresentava as condições de vida dos nordestinos nas suas representações sobre a seca, a pobreza e as estruturas perversas e resistentes aos novos tempos, como o coronelismo.

Na década em questão, 1950, há registro de duas grandes secas. A primeira delas em 1952, em razão da sua brutalidade, inspirou a canção “Vozes da Seca”, de autoria de Luiz Gonzaga e Zé Dantas, com a qual protestam em verso por uma ação mais efetiva dos políticos para o Nordeste.

“Seu doutô os nordestinos
Têm muita gratidão
Pelo auxílio dos sulistas
Nesta seca do Sertão

Mas doutô umas esmola
A um homem qui é são
Ou lhe mata de vergonha
Ou vicia o cidadão”…

E por aí sai afirmando que há época “pois doutô dos 20 estados, temos oito sem chuvê. Veja bem, quase a metade do Brasil tá sem cumê.”

A Paraíba contribuiu na criação da SUDENE com a iluminação e inspiração do economista, pensador e “homem público”, o pombalense Celso Monteiro Furtado (1920-2004). Com Raul Prebisch, fez parte da Comissão Econômica para a América Latina (Cepal), exercendo grande influência nessa parte do continente com suas ideias sobre o desenvolvimento e o subdesenvolvimento que divergiam das doutrinas econômicas dominantes. Foi Celso Furtado o seu primeiro Superintendente e o centro genético de tudo.

Temos que resgatar as origens com a criação do GTDN em 1956 (Grupo de Trabalho para Desenvolvimento do Nordeste). O primeiro Encontro dos Bispos do Nordeste, realizado neste ano, em Campina Grande, mais uma vez, marcava a nossa Paraíba pioneira no pensamento de soluções para a região Nordeste.

O tempo passa e assisto aos bons e difíceis momentos daquela instituição. De GTDN passou a ser CODENO (Conselho de Desenvolvimento do Nordeste, 1958); sucedido por SUDENE (1959); ADENE (Agência do Desenvolvimento do Nordeste, 2001); voltando a ser denominada SUDENE, em 2002.

Nada mudou em seu obsessivo sonho de transformar o Nordeste. Seu principal objetivo perdura até os presentes dias: “Encontrar soluções que permitissem a progressiva diminuição das desigualdades verificadas entre as regiões econômicas do Brasil”.

Foi construída uma falsa imagem, há algum tempo, por uma mídia sulista comprometida, de que o referido órgão seria uma instituição que não realizava os fins a que se propunha. Por conta disso, teve, por determinado período, a sua extinção decretada pelo então presidente Fernando Henrique Cardoso. Recriada finalmente em 2002.
Hoje sou testemunha viva de que todo esse processo que proporcionou ao Nordeste ter uma outra posição na economia do Brasil chama-se SUDENE.

Sem a SUDENE, posso afirmar com total isenção e vivência junto àquela instituição, nosso Nordeste não seria o mesmo. Acosto-me às comemorações dessa data alusiva aos seus ricos e proveitosos 60 anos.
Rebato, de forma veemente, qualquer crítica a ela feita ao longo de todo esse tempo em que construiu um novo Nordeste.

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Empresário e diretor da CNI.

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