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Roberto Cavalcanti: A realidade em 06/03/2020

Roberto Cavalcanti. Publicado em 10 de março de 2020 às 19:32

A cápsula do tempo está destravada.

Estamos, aqui e agora, contemplando o Brasil de 2020 – respondendo a hiperbólica projeção feita há quatro anos, no olho do furacão de um dos fenômenos mais surpreendentes da República, eternizada por Lava Jato.

Reproduzo, agora, a essência da questão lançada para o futuro que chegou hoje:

A Lava Jato produzirá antídoto eficiente para que o Brasil de 2020 esteja vacinado contra o vício da ladroagem, da bandalheira e da vantagem que sobreviveu 500 anos, inoculado na alma nacional?

Antes de elaborar uma resposta ao Roberto de 2016, uma confissão: Sim, eu tinha esperanças. Uma fé sustentada no ineditismo de uma operação jamais empreendida nas terras descobertas por Cabral.

Mas até o mais crédulo dos brasileiros, enviesado por um otimismo agudo, seria obrigado a admitir que a vacina ou pecou na dosagem ou nos efeitos colaterais.

Pois o Brasil de 2020, definitivamente, não é (ainda) uma nação imune ao vírus da corrupção – uma versão institucionalizada com potencial contaminante análogo ou superior à ameaça do momento, o Coronavírus. Enraizado nas entranhas brasileiras. Sofrendo mutações para neutralizar tentativas de antídotos.

Então 06/03/2020 frustra irremediavelmente 06/03/2016?

Também não.

Estou seguro quando afirmo que se não matou, a Lava Jato inflamou os tecidos putrificados da corrupção. Especialmente quando insere no contexto jurídico nacional o instrumento da delação, através do qual os esquemas têm sido descortinados.

O Brasil de 2020 sabe que o cúmplice de hoje é o potencial algoz de amanhã. E suas confissões sepultam a tese do crime perfeito e a certeza da impunidade.

Deixamos de ser a nação dos intocáveis.

Ninguém – independente do tamanho de sua fortuna ou do lastro de seu poder – está fora do alcance da lei. E já fomos, até bem pouco tempo, a pátria dos inimputáveis.

Em que outro período da história testemunhamos um ex-presidente da República e um ex-governador da Paraíba serem presos?

Nem em momentos de excepcionalidade, a exemplo da revolução, assistimos cortejo tão poderoso marchando para o cárcere – e isso é prova pragmática e definitiva de que, sim, muita coisa mudou no panorama nacional ao longo dos últimos quatro anos.

Pois a Lava Jato também provocou efeito cascata em todos os entes federativos, viabilizando operações que produziram efeitos inimagináveis em todo o País.

Portanto, o sentimento que prospera no destravamento dessa cápsula é de que não fomos tão longe quanto poderíamos, mas avançamos.

E estamos no meio do caminho de uma jornada sem volta.

Que encontrará as próximas gerações mais preparadas para resistir à inoculação dessa virose histórica.

A erradicação virá a partir da formação de um pacto nacional, forjado na consciência plural de que precisamos construir uma nova cultura enquanto nação.

Uma nova consciência que terá tolerância zero com o incorreto. E não normalizará as hipocrisias nossas de cada dia. Como aquela do sujeito que acaba de fazer discurso anticorrupção e na esquina oferece propina ao guarda para se livrar da multa por estacionamento irregular.

Não é tarefa fácil. Mas também não é missão impossível.

Muitos países ao redor do mundo dão testemunhos inequívocos de que é possível aparar os tentáculos vorazes da corrupção.

Verdade que no meio do caminho desse processo teremos que enfrentar pedras colossais. A maior delas é constituída pelo conluio de saqueadores poderosos. Brasileiros que vilipendiam o Brasil. E que se posicionam estrategicamente para criar instrumentos de neutralização das tentativas de combate à corrupção.

Fizeram isso com a Lava Jato.

Seguirão fazendo contra tudo que tomar forma de ameaça a seus privilégios – os ilegais e os travestidos de legalidade, mas desprovidos de moralidade.

Numa eterna queda de braços que, não raro, legaliza o ilícito. E dá resistência aos organismos corruptos.

Mas uma assepsia está em curso.

Não será concluída a jato. Mas lava a alma de brasileiros que desejam passar o País a limpo.

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Empresário e diretor da CNI.

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