Fechar

Fechar

Revisitando a pluridimensional poética de Augusto dos Anjos

José Mário. Publicado em 11 de agosto de 2018 às 12:27

 Para Antonio Carlos Secchin, refinado leitor do texto literário.

Quando do seu surgimento no cenário da literatura brasileira, que ocorreu há mais de cem anos, precisamente na cronologia de junho de mil novecentos e doze, o livro de Augusto dos Anjos intitulado Eu, afirma-se, foi recepcionado com desdém e pouco entusiasmo pelo Príncipe dos Poetas Brasileiros, como assim era chamado o todo-poderoso vate parnasiano Olavo Bilac.

O competente cronista de Vossa Insolência teria dito que a literatura brasileira estava muito bem sem o livro do paraibano, e continuaria muito bem sem ele, dado que ele não lograria a bênção de perpetuar-se no imaginário da poesia brasileira.

Verdade ou lenda, o fato concreto é que o tempo e a implacável aferição que ele exerce sobre todas as coisas encarregaram-se de mostrar o completo desacerto do equivocado vaticínio do criador de Caçador de Esmeraldas.

De lá para cá, transcorrido mais de um século da publicação do solitário e poderoso livro do escritor paraibano, inumeráveis foram as tentativas teórico-críticas de deslindamento, na medida do possível, das múltiplas estruturas de sentido e de significação mais efetivamente norteadoras do polissêmico universo estético engendrado pelo genial criador de “As Cismas do Destino”.

Das leituras de cunho biografista, exploradoras das relações estabelecidas entre a vida e a obra do escritor, até os enfoques de natureza imanentista, mais voltados para a linguagem em sua feição interna, o Eu augustiniano pontificou, todo o tempo e o tempo todo, como um impressionante desafio para a Teoria e a Crítica literária, em quaisquer que sejam as suas modalidades de manifestação.

Portadora de uma linguagem originalíssima, pródiga na mescla de multiplicadas dicções e tonalidades, o Eu de Augusto dos Anjos, de pronto, transpôs todas as tentativas de enquadramentos periodológicos mais desproblematizados, e, ato contínuo, impôs-se como uma estética visceralmente transgressora, capaz de transitar, sem adesões nem dogmatismos, por vários domínios, desembocando num estuário de possibilidades a que o mestre Eduardo Portella classificou como “uma poética das confluências”.

A certo formalismo de feição parnasiana, Augusto dos Anjos acumpliciou um olhar abismal sobre a condição humana, que repeliu, no cerne essencial de suas cogitações mais profundas, qualquer complacência com uma percepção meramente descritiva da realidade. E, tudo isso, acentue-se, temperado, vezes sem conta, por um realismo áspero, enamorado da tragédia e matizado por uma mundividência roçante do niilismo mais desesperado e doloroso, aqui, acolá sinalizador de eventuais possibilidades de transcendência e sublimação.

Poeta que cantou o verme e a inevitável decomposição da matéria, Augusto dos Anjos não engrossou as fileiras dos otimistas deslumbrados, e ingênuos também, apóstolos do positivismo novecentista, para quem a ciência, como bem pontuou Eduardo Portela em seus Fundamentos da Investigação Literária, foi encarada “como a única modalidade confiável de manifestação do conhecimento”.

Por outro lado, toda a indisfarçável negatividade ontológica que matiza a escritura poética de Augusto dos Anjos é contrabalançada pelas crenças que ele nutre no poder que tem a arte, a poesia com especialidade, de suprir o que no ser humano é sinônimo de incompletude, falência e derrota histórica.

Assim sendo, é por esse prisma portador de inabarcáveis confluências temáticas, retóricas, estilísticas, de diversos matizes, enfim, que podemos classificar Augusto dos Anjos como o poeta do tempo e da eternidade. Da morte e da vida. Da rutilante escuridão e da luminosidade mais extrema, quase cegante. Do cientificismo mais hermético e do coloquialismo mais acendrado, compondo, todo esse coro de assumidos e sedutores contrários, uma barroca coreografia de signos polivalentes, que não tem cessado de fascinar a ensaística nacional. Inefável ponto de interrogação, eis o estatuto estético inarredável do Eu de Augusto dos Anjos.

Os artigos postados no Paraibaonline expressam essencialmente os pensamentos, valores e conceitos de seus autores, não representando, necessariamente, a linha editorial do portal, mas como estímulo e exercício da pluralidade de opiniões.

José Mário

falecom@fhc.com.br

Simple Share Buttons

2018 - Paraiba Online - Todos os direitos reservados.

BeeCube