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Retratos da infância

Jurani Clementino. Publicado em 12 de outubro de 2016 às 10:52

Jurani

Por Jurani Clementino

Quero dizer algo sobre meu único retrato feito quando criança. Coisa besta, desnecessária, mas me darei o direito de falar. Era uma manhã de sexta-feira. Final dos anos 1980. Meu pai selou o cavalo e me jogou em cima. Pegamos a estrada de barro. Ele a pé, tangendo um bode que havia vendido a um marchante da cidade, e eu, montado no cavalo. Duas horas depois, tendo percorrido três léguas (18 km) chegamos à cidade. Todo esse esforço pra “bater um retrato”. Um dos poucos registros da minha infância. Acho que o único.

Era assim que meu pai fazia: toda vez que um dos sete filhos completava nove anos, ele mandava “tirar um retrato”. Na rua. Foto de estúdio. Tudo profissional. Era um acontecimento na vida da gente. Quanta magia da modernidade. Que emoção se ver fielmente retratado num pedaço de papel. Igualzinho. Cagado e cuspido. A magia da fotografia ali revelada. Bem na nossa frente. Inexplicável. Mas nem adiantava tanto deslumbramento. Era uma foto, e só. Era um único retrato, feito aos nove anos, pra registrar toda uma infância. Toda a minha meninice estava resumida ali. Naquele pedaço de papel.

Nunca soube explicar porque dos nove anos. Acredito que era essa idade intermediária entre a infância e a adolescência. Você estava exatamente nesse meio do caminho. Era o bastante. Como não se repetia aquele feito, era preciso caprichar. Penteado, roupa, sorriso… Tudo que você tinha de melhor estava ali. Naturalmente, tudo muito tímido. Desajeitado. Acabrunhado. A primeira pose em frente uma câmera. Tudo tinha que caber naquela fotografia, ou melhor, naquele retrato. Infância de menino pobre. Infância de menino com seis irmãos. Infância vivida, mas não registrada. Infância guardada na memória. Memória de menino.

Infância comum aos meus amigos da época. Tempos de sonhos limitados. Desejos racionados. Infância vivida com os mínimos sociais possíveis. Mínimos econômicos que só me deram direito a uma foto. Uma única foto daquele período. Pra ser feliz. Pra guardar pra sempre. Pra agradecer a Deus. Podia não ter nenhuma. Podia nem ter tido infância. Feliz dia das crianças.

Campina grande – 12 de outubro de 2016

Os artigos postados no Paraibaonline expressam essencialmente os pensamentos, valores e conceitos de seus autores, não representando, necessariamente, a linha editorial do portal, mas como estímulo e exercício da pluralidade de opiniões.

Jurani Clementino

Jornalista, Doutor em Ciências Sociais, Escritor e Professor Universitário. Autor de: Forró no Sítio (Crônicas, 2018) e Zé Clementino: o ´matuto que devolveu o trono ao rei. (biografia, 2013).

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