Réquiem anunciado para Luzia

Josemir Camilo. Publicado em 5 de setembro de 2018 às 8:08

É difícil para um historiador, ou qualquer pessoa de estudos universitários, ficar distante desta tragédia anunciada pelo descaso dos poderes públicos. Por mais que se evite repetir chavões ou até tentar se afastar do incêndio que torrou nossas mentes, sempre voltamos a ele, ou melhor, ao patrimônio. Algumas pessoas assumem tanto o luto que lutam até contra cuidados menores. Mas, aí é que pode residir, também, tragédias menores. Mas, não devemos assumir o papel de cassandras, a não ser que seja o de uma grande e importante Cassandra, nossa melhor recorrência. Falo, em particular, da coordenadora do IPHAEP (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico da Paraíba), que tem prestigiado todos os cuidados e ações na proteção do patrimônio histórico e arquitetônico da Paraíba.

Quero trazer à baila (como prosaicamente, se diz) uma pequeníssima discussão sobre patrimônio, ocorrida em outro espaço, virtual, até. Enquanto todos chorávamos a perda da Casa da Memória e da História, uma foto particular nos legou uma fagulha de discussão. Refiro-me ao prédio do Instituto Histórico, Arqueológico e Geográfico de Goiana, do qual sou sócio correspondente. Ao ser divulgada uma foto do imóvel sede do Instituto, datado de 1865 em estilo neoclássico, casa que pertencera ao poeta e jurista Adelmar Tavares, cedida, agora, pela prefeitura de Goiana (a de Campina faria algo semelhante?), tombada pela FUNDARPE (o equivalente ao IPHAEP, daqui), me referi a um poste que fica a menos de dois metros em diagonal à quina do prédio, mas que, frontalmente, compromete, um pouco seu visual. Sugeri que, no futuro, este poste fosse retirado daquele lugar, incialmente, pelo visual; pretendia, também, comentar a questão de segurança. Um choque de um caminhão no poste, ele seria tombado pra cima da quina do prédio, mais que sesquicentenário, acarretando, no mínimo, grande danos materiais, sem falar no lado humano.

Infelizmente, a compreensão não foi geral e, até, pelo contrário, levada a desprezo. Ao que retruquei, que um patrimônio tombado tem sua área de preservação, seu entorno garantido, por lei, que pode atingir, para sua segurança e melhor visualização, entre 100 e 300 metros.

Em seguida, tentei explicar minha preocupação, pois como historiador e professor da UFPB/UFCG, é que tenho me envolvido, aqui, em Campina Grande, com assessorias ao patrimônio, desde 1999, tanto para a Curadoria do Patrimônio local, como para o IPHAEP. Então citei a última ação do IPHAEP, nesta semana, no centro histórico campinense, que é tombado desde 2004 (de cuja delimitação, também fiz parte ad hoc), em que uma loja foi obrigada a tirar uma enorme propaganda que fechava todo o primeiro andar, escondendo parcialmente a arquitetura em art déco. Lembrei, também, que o MP já mandou o Bompreço retirar uma estrutura de aço que dava pro lado dos armazéns da estação velha (onde funcionou a boate Maria Fumaça e é o sonho do Instituto Histórico de Campina Grande, para sua sede), conjunto tombado; bem como, mandou a prefeitura demolir duas barracas de alvenaria que estavam sendo construídas em frente (menos de 15 metros) dos galpões da antiga ‘gretueste’ – a estação e os galpões obtiveram tombamento temático, no começo deste milênio.

É importante, sim, a preservação do patrimônio em si, por belo ou antigo, mas não unicamente por isto, mas e principalmente, para manter uma identidade municipal diante da crescente onda de (pós)modernização capitalista, a globalização, em que todas as cidades parecerão ter o mesmo perfil. É preciso manter um núcleo, creio, deste passado que represente o que os nossos ancestrais conquistaram, como viveram, por que lutaram. Sem isto, seremos meras cidades-dormitórios, conglomerado de edifícios de concreto, aço e vidro, viadutos e asfaltos, a cara de um focinho de outro, sem nenhuma distinção, sem nenhum valor senão o de reproduzir, mecanicamente, mão de obra, em todos os níveis, sem cultura, sem vida.

Peço desculpas aos leitores por não encontrarem, aqui, a discussão sobre o fóssil humano mais antigo do Brasil, o crânio de Luzia, datado de cerca de 12 mil anos, provavelmente destruído pelo fogo, queda e tombamento de piso ou teto sobre o fóssil. Apenas pretendi abri a discussão com um alerta sobre nosso patrimônio cultural, que parece antecipar seu fim, como parecia ao gênio, quando compôs (para si?) seu réquiem.

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Josemir Camilo

* PhD em História pela UFPE, professor aposentado da UFPB, membro do Instituto Histórico de Campina Grande.

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