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Repensando a Paraíba

Arlindo Pereira de Almeida. Publicado em 24 de junho de 2018 às 22:17

No artigo anterior, chamei a atenção para a pobreza de ideias que preside o clima político às vésperas das mais importantes eleições após a redemocratização do país, desde o fim do regime militar implantado em 1964.

Já que os candidatos, em sua a grande maioria, não têm o menor pejo de ignorar os problemas, empenhados na eleição a qualquer preço – alguns, é verdade, apresentando arremedos de propostas – cabe aos cidadãos procurar, de alguma forma, enriquecer o debate, provocar respostas e extrair algo proveitoso daqueles que pretendem nos representar nos variados níveis de governo e nos parlamentos.

Uma coisa é certa. É conveniente, sem dúvida, a abordagem global do conjunto de problemas, dos imensos desafios postos para todos os brasileiros. Mas essa lógica deveria ser submetida à verdade contida na velha expressão “a força da corrente é igual à força do seu elo mais fraco”. De nada adianta fortalecer a grande corrente que é o desenvolvimento do país, sem mitigar os efeitos perversos a que submetidos os elos mais fracos, as unidades da Federação de menor desenvolvimento, dentre estes a nossa Paraíba.

O grande economista Celso Furtado, em palestra de 13 de junho de 1959, no auditório do Instituto Superior de Estudos Brasileiros, já aludia a duas evidências 1. “a autêntica constelação de sistemas econômicos que é o nosso País… e 2. que o desenvolvimento econômico, no mundo todo, tende a criar desigualdades.” Mostrava Celso que a participação do Nordeste no PIB nacional, antes da guerra, em 1939, que era de 30%, viu-se reduzida a 11% em 1959, vinte anos depois. Só para lembrar: Hoje a participação é de aproximadamente 14%. Crescemos para baixo.

A grande luta da vida de Furtado foi justamente combater esse estado de coisas e isso lhe custou muito caro. Foi dele a autoria do que se chamou de “Operação Nordeste”, que propunha mudanças na concepção do papel do governo nessas questões, na linha preconizada pelo inglês John Keynes, que confrontava o liberalismo e defendia a intervenção estatal na economia na correção de desigualdades econômicas , principalmente em áreas onde a iniciativa privada não tem capacidade ou não deseja atuar.

Da inspiração de Celso surgiu a SUDENE – Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste, ainda em 1959, no governo do Presidente Juscelino Kubistcheck, após o Encontro dos Bispos do Nordeste, em Campina Grande, onde se destacaram os eminentes membros da Igreja, D. Eugênio Sales e D. Hélder Câmara, em apoio à criação do órgão

Era incontestável e cristalino o argumento de que a SUDENE não poderia frutificar em breve período de tempo, em vista do acúmulo de questões a que fomos relegados . O grande temor do ilustre paraibano de Pombal, o que considerava mais grave, é que “a desigualdade econômica, quando alcança certo ponto, se institucionaliza”. E a desigualdade institucionalizada só é corrigida pela persistência dos mecanismos criados para superá-la.

Dentre tantos exemplos mundiais de constância nas ações governamentais, podemos citar duas intervenções no século XX: 1. O plano Marshall, criado em 1947, de ajuda à reconstrução da Europa, destruída durante a segunda guerra mundial, e 2. A criação da “Tennessee Valley Authority ( TVA ), corporação federal nos Estados Unidos, criada em 1933, para fornecer navegação , controle de enchentes , geração de eletricidade , fabricação de fertilizantes e desenvolvimento econômico no Vale do Tennessee . afetado pela Grande Depressão. A TVA foi concebida não apenas como provedora, mas também como uma agência regional de desenvolvimento econômico, para modernizar mais rapidamente a economia e a sociedade da região.”

O Plano Marshall foi bem sucedido. A TVA, instalada há 85 anos, ainda existe e funciona, mas a SUDENE, NÃO! Durou apenas 42 anos.

O temor de Furtado se concretizou. Nascida sob os melhores auspícios e tendo prestado inestimáveis contribuições à mudança da realidade, a SUDENE morreu, na prática, em 2001, durante o governo de Fernando Henrique Cardoso, a partir de denúncias de que estava favorecendo clientelas. Ao invés de tratarem da doença, mataram o paciente. Fecharam a SUDENE e nada criaram em seu lugar.

Trazendo para o plano local, hoje, o quadro de relativa debilidade da economia paraibana, mudando o que for necessário, representa uma carência comum ao Nordeste, cada estado com seus problemas. É preciso uma visão nova, que passemos de Estado problema para parceiro na questão que se propõe para ser resolvida.

Numa abordagem estratégica, seria indispensável contemplar quatro eixos ambiciosos, dentre outros pontos a ser considerados, como : 1o Retorno ao 4o lugar no ranking das economias da região; 2o Inserção competitiva no Brasil e no mundo, diminuindo a dependência externa; 3o Perseguir um PIB per capita igual ou maior que o valor per capita do Nordeste; e , 4o Corrigir as desigualdades dentro do Estado.

Na persecução seriam considerados alguns princípios , como:1. Identificação das ameaças e fraquezas, forças e oportunidades; 2. Escolher as alternativas de ação e hierarquizá-las, trabalhando de inicio as de maior impacto; 3. Adequar as propostas à disponibilidade de recursos; 4. Atrair parceiros privados para projetos de melhor perfil empresarial; 5. Instituir políticas de desenvolvimento descentralizado.

Para atingir esses propósitos, é necessário um conjunto de meios e planos, envolvendo o Governo do Estado, como condutor do processo, sua articulação com o Governo Federal e as Prefeituras, a participação indispensável das lideranças políticas e de empresas, não só as atraindo a se instalarem na Paraíba, mas também aquelas selecionadas para assumir projetos públicos com perfil de maior relação com a empresa privada. O assunto, obviamente, não se esgota aqui. Perseveremos nas cobranças.

Os artigos postados no Paraibaonline expressam essencialmente os pensamentos, valores e conceitos de seus autores, não representando, necessariamente, a linha editorial do portal, mas como estímulo e exercício da pluralidade de opiniões.

Arlindo Pereira de Almeida

Economista.

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