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Relembrando Raymundo Asfóra

José Mário. Publicado em 12 de março de 2017.

*Por: José Mário da Silva

Em histórica entrevista concedida ao professor e intelectual Moaci Alves Carneiro, em nítida postura confessional afirmou ser “mais um fruto do acaso que de sua vontade”. O recorte conceitual adotado acerca de si mesmo, portador de nítido cariz existencial, vinculava-se a indeslindáveis componentes políticos.

Por injunções partidárias do momento histórico em que estava inserido e dos interesses do grupo a que pertencia, e no qual pontificava como uma estrela matizada por singular brilho, ele abdicou de uma reeleição tranquila para a Câmara Federal e passou a integrar, como altaneira voz de Campina Grande, a chapa majoritária do Partido do Movimento Democrático Brasileiro, na condição de candidato a vice-governador do Estado da Paraíba, cargo para o qual foi eleito pelo consagrador voto do povo paraibano.

Cargo cuja posse nem chegou a se consumar, dado que, dias antes da sua posse, em circunstâncias tingidas do mais alto grau de dramaticidade, foi encontrado morto com um tiro na cabeça, no idílico espaço de sua granja Uirapuru.

A personagem protagonista desta crônica assumidamente comprometida com uma tonalidade nostálgica e evocativa atende pelo emblemático e respeitado código onomástico chamado Raymundo Yasbek Asfóra, cuja ausência de três décadas completadas no último dia seis do mês em curso, ainda é sentida em cada geografia de Campina Grande e da Paraíba, notadamente nas cenas e cenários da Rainha da Borborema, nas quais o seu vulto físico e a sua luminosidade intelectual constituíam-se, diria a semiótica peirciana, em índice, ícone e símbolo dos nossos valores mais nobres e perduráveis.

Contra a falaciosa ideologia, segundo a qual determinadas expoências da história de uma dada sociedade dispensam apresentações, disfarce insuportável do silêncio que roça o esquecimento injustificável e também iníquo, é que a palavra rememorativa pede passagem para sinalizar que a vida e a obra de Raymundo Asfóra, nos múltiplos territórios em que exibiu suas variadas modalidades manifestativas, aguardam ainda um olhar epistemológico que, consorciando arte e ciência, seja minimamente capaz de recompor as vastas latitudes configuradoras do ser/fazer de Raymundo Asfóra na seara jurídico/poético/político/cultural de nossa cidade e de nosso Estado.

Que as novas gerações de estudantes campinenses, ainda não narcotizadas pelo falso ouro da incultura generalizada, tomem a sério a ingente e urgente tarefa de estudar, à luz dos vários ângulos oferecidos, o legado deixado por Raymundo Asfóra.

O tribuno norteado pela rigorosa escorreição gramatical e alto poder imagístico na elaboração de inesquecíveis sentenças. O poeta portador de talhe clássico na impecável seleção vocabular, acumpliciada a uma mundividência moderna e pejada de inescondível substancialidade humana. O jurista imbatível nas memoráveis refregas do tribunal do júri. O político dotado de visão ampla acerca dos complexos problemas nacionais.

O boêmio incorrigível, cúmplice da noite e amante inveterado das poéticas incuravelmente neorromânticas. Eis aqui, em lacunosa síntese, as multiplicadas faces que intentei cartografar, relembrando Raymundo Asfóra, no exato mês em que decorrem trinta anos do seu definitivo desaparecimento.

Contudo, a rememoração pretendida não se inscreve na clave semântica da nostalgia estacionária e paralisante Em direção diametralmente oposta, quer ser um olhar transtemporal, que, ao evocar o passado, sinaliza para o presente e vislumbra o futuro. Recua no tempo para avançar no tempo; e melhor vivê-lo, ao compreendê-lo em sua fascinante e complexa maneira de ser.

Mais do que ter feito a história de Campina Grande, Raymundo Asfóra é Campina Grande em sua imperecível história. Como o filósofo Emerson aprendemos que o “o homem é apenas metade de si mesmo, a outra metade é a sua expressão”.

A expressão produzida por Raymundo Asfóra nos horizontes campinenses não se apagará jamais, antes ficará como um signo polissêmico e como um renovado convite para permanentes releituras.

*Docente da UFCG/ Membro da Academia Paraibana de Letras

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José Mário

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