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Rei do Amor

Padre José Assis Pereira. Publicado em 25 de novembro de 2017 às 16:57

Por Padre José Assis Pereira

 A Igreja celebra hoje a Solenidade de Jesus Cristo Rei do Universo, festa criada pelo papa Pio XI em 1925 e situada como fronteira de tempos e espaços – do Tempo Comum para o Advento que marca um novo ano litúrgico – que marca o final e princípio. Termina o Ciclo A e iniciaremos o ciclo B, do Evangelho de São Marcos no próximo domingo dia 03 de dezembro. Chegaremos, pois, ao tempo de esperança e alegria, a espera alegre da nova vinda do Cristo Salvador.

A realeza de Cristo surpreende. Não é de poder, mas sim mansidão. Não é de mando, e sim de serviço. Não é de luxo, nem de ostentação, e sim de pobreza e humildade. Daí, pois a singularidade desta celebração. A linguagem religiosa do simbolismo da realeza se traduz na primazia espiritual de Jesus e novidade dos valores evangélicos no mundo.   

Neste último Domingo do Ano Litúrgico a narração profética do Juízo Final marca o ponto de convergência do discurso escatológico, o último dos cinco grandes discursos, descritos por São Mateus no seu Evangelho (cf. Mt 24,1-25,46).

A impressionante descrição do Juízo Final (cf, Mt 25, 31-46) guarda coerência com as perícopes anteriores que lemos nos dois domingos precedentes e que contêm advertências firmes para o final dos tempos. Definitivamente, Jesus nos deu uma série de advertências através da parábola das dez jovens que esperam o noivo e com os três empregados que esperam o seu senhor e tiveram que administrar convenientemente os talentos dados por seu senhor; assim, pois, vigiemos, pois o tempo se está consumando.

Mas a advertência de hoje tem efeitos de eternidade. Não é já, em si mesma, uma advertência e sim uma sentença definitiva. Acabou-se o tempo e agora só o juízo universal para iniciar o eterno. Não há retorno. Nem outra oportunidade.

Jesus, na narração profética do “Juízo Final”, reivindica para si o título de Rei-Pastor e a função de juiz universal. As imagens são simples, a linguagem é popular, mas a mensagem é extremamente importante: é a verdade sobre o nosso destino último e sobre o critério com o qual seremos avaliados, é a gramática da vida: “Tive fome e me destes de comer. Tive sede e me destes de beber. Era estrangeiro e me recebestes em casa. Estive nu e me vestistes, doente e cuidaste de mim, preso e fostes me visitar.” (vv. 35-36)

Portanto, o julgamento final será segundo as obras, não segundo o que dissemos crer. Assim são as obras as que distinguem e julgam as pessoas ao final, não as palavras nem o culto nem as orações. Ninguém será julgado por sua doutrina, pelas ideias que teve sobre religião, pelos dogmas nos quais creu. Qualquer outra descriminação ou distinção não vale nada e não permanecerá: nem a raça, nem o dinheiro, nem a cultura, nem as honras ou títulos…, colocam em verdade aos homens à esquerda ou à direita do Senhor. Mas as obras que podem salvar-nos são sempre obras de amor e misericórdia, porque a lei com a qual vamos ser julgados se resume no amor.

O cumprimento do mandamento do amor ou seu não cumprimento antecipa já no mundo o juízo final. O que ama a Cristo nos pobres e se solidariza com sua causa se introduz no Reino de Deus; porém o que não ama e explora seus semelhantes se exclui do Reino de Deus. Recordava-nos o Papa Francisco no Domingo passado, “Dia mundial do Pobre” na sua mensagem, acerca deste Domingo: “Na verdade, a realeza de Cristo aparece em todo o seu significado precisamente no Gólgota, quando o Inocente, pregado na cruz, pobre, nu e privado de tudo, encarna e revela a plenitude do amor de Deus. O seu completo abandono ao Pai, ao mesmo tempo que exprime a sua pobreza total, torna evidente a força deste Amor, que o ressuscita para uma vida nova no dia de Páscoa.” Então, citava o discípulo amado: “Filhinhos, não amemos de palavras nem de língua, mas por ações e em verdade” (1Jo 3,18).

O juízo universal será a manifestação e a proclamação da sentença definitiva, que se vai cumprindo já em nossas vidas segundo nossas obras com os mais necessitados. Os Padres da Igreja sempre nos ensinaram; “Não desprezes aos pobres que arrastam sua miséria como se fossem de nenhum valor. Considera quem são e reconhecerás a sua dignidade: eles são a presencialização do Salvador. De fato, Cristo, em sua bondade, transferiu-lhes a sua própria pessoa.” (São Gregório de Nissa, séc. IV). E Santo Agostinho (354-430) resume: “O Cristo triunfante no céu é mendigo na terra”.

Não devemos esquecer nosso compromisso prático com os pobres. Porque o amor a Deus, demonstrado no amor aos outros, é o maior sinal da soberania e realeza de Deus neste mundo e em nossa história. E é o que Jesus, no evangelho de hoje, nos mostra que nenhum sofrimento nos pode ser alheio ou estranho.

O contrário ao amor não é tanto o ódio; e sim a rejeição. Estamos nos acostumando a rejeitar e, por isso, utilizando a terminologia do Evangelho, não damos de comer nem de beber; não hospedamos nem vestimos; não cuidamos em situações de enfermidade ou visitamos no encarceramento… Todas estas atitudes de rejeição impedem que respondamos de uma forma evangélica, às exigências da justiça. Como consequência desta indiferença ou rejeição, os mais carentes sempre ficam relegados e, Jesus é radical neste assunto: o importante é ajudar a quem o necessite.

O amor não é uma ideia abstrata, um bom sentimento, uma palavra romântica ou carinhosa. São obras, são ações concretas: dar de comer, vestir, cuidar e visitar… E fazer tudo isso não necessariamente “por amor a Deus”. Basta que se faça por “amor ao ser humano”.

O amor ao próximo é verdadeiro quando comove o coração e impulsiona nossos pés; quando nos desperta da letargia da indiferença e nos sacode para atuar de forma favorável junto ao outro, buscando melhorar a qualidade de sua vida. Mas esta posição não nos pode situar em níveis ou graus, mas sim em uma comunhão íntima no sofrimento em plano de igualdade.

Jesus, no evangelho de hoje, nos apresentou um julgamento, mas não pensemos mal nem em termos de medo e condenação inquisitória. Ele tão somente nos está indicando que quem se aproxima e socorre os famintos e sedentos, os nus, imigrantes ou desabrigados, doentes ou presos, estão se aproximando e socorrendo ao Deus que se nos manifesta em Jesus Cristo. Por isso, só nos resta responder uma pergunta: Que será de nós ou, dito de outra forma, que nos ocorrerá se nos esquecemos dos pobres?

Os artigos postados no Paraibaonline expressam essencialmente os pensamentos, valores e conceitos de seus autores, não representando, necessariamente, a linha editorial do portal, mas como estímulo e exercício da pluralidade de opiniões.

Padre José Assis Pereira

* Padre José Assis Pereira Soares é párcoco da Paróquia Nossa Senhora de Fátima, no bairro da Palmeira.

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