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Rede de tear

Jurani Clementino. Publicado em 4 de janeiro de 2019 às 9:52

Esses dias, dependurei uma rede de dormir, dessas bem sertanejas, entre dois armadores num pequeno espaço da varanda de meu apartamento, aqui em Campina Grande, e me lembrei de algumas coisas que considero interessantes. A primeira delas era a de que hoje não tem um lugar na minha casa pra armar uma rede e que todo ano a minha mãe me presenteava com um desses artefatos novinhos para descansar. Dessas redes bonitas de varanda, bem transadas. A segunda lembrança é a de que por muitos anos a única coisa que havia na sala de estar de meu apartamento, sempre pronta para o uso, era uma velha rede surrada, além de um desgastado tapete de palha de bananeiras. Não sei onde consegui aquele rustico tapete, mas durante anos ele ocupou o vazio daquela sala. Ele e a rede. E a terceira coisa que fiquei aqui imaginando é a de que nem todo mundo sabe dormir de rede.

Eu acho que a gente do sertão, por crescer praticamente dentro delas, não percebe esses desafios, mas pra quem não tem esse costume, dormir de rede é um tormento. Um desafio sobrenatural. Dói pescoço, costas, pernas. Dependendo do tamanho da pessoa, diz logo que a rede não cabe, que é rasa, que passou a noite com medo de cair, enfim. Tudo criação de quem nunca experimentou o prazer de dormir metade da vida nos fundos envelhecidos de uma boa rede de tear. Pra o sertanejo, rede é vida. Mas por ter uma relação com as tradições indígenas, dormir de rede, exige mesmo certos cuidados técnicos. Há quem prefira deitar atravessado, outros se jogar bem no meio, há quem ache melhor dormir meio que sentado, com as pernas mais baixas que a cabeça, ou mais alta, de lado, de bruços, emborcado …, Cada uma dessas posições, exige uma técnica especial que só se aprende praticando.

É a prática ou a necessidade que leva à perfeição. Dar um nó no punho de uma rede é trabalho pra especialista. Também não é todo mundo que aprende. Apreendi a fazer esses nós por necessidade. Quando a rede era longa para os espaços dos armadores, e não queríamos que ela ficasse tocando no chão, improvisava-se os tais laços. De rede se dorme nos alpendres, nos quartos, debaixo das árvores. Caçadores improvisavam suas redes no topo de árvores. Situações em que só elas conseguiam solucionar os problemas de uma longa noite na mata. As redes também eram usadas nos rituais de despedidas. Pra enterrar alguém muito pobre se usava um pedaço de madeira e nele se armava uma rede com o defunto dentro. Rede na hora de viver e na hora de morrer. Essa última experiência está retrata no clássico “Morte e Vida Severinas” de João Cabral de Melo Neto.

Quem diria que uma simples tradição de armar redes iria me fazer viajar por todo esse universo marcado por tradições e costumes absolutamente sertanejos!

Jurani Clementino

Campina Grande – domingo 02 de dezembro de 2018

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Jurani Clementino

Jornalista, Doutor em Ciências Sociais, Escritor e Professor Universitário. Autor de: Forró no Sítio (Crônicas, 2018) e Zé Clementino: o ´matuto que devolveu o trono ao rei. (biografia, 2013).

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