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Recordações de Surubim

Ailton Elisiário. Publicado em 25 de outubro de 2016 às 10:43

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Por Ailton Elisiário (*)

Nesse feriado de outubro encetei uma viagem de volta à minha terra natal, a cidade da vaquejada, Surubim. Há anos perdidos no tempo que lá estive e fui ver como ela se encontrava. Queria renovar minhas recordações de menino que morava no Largo da Paz, número 188, hoje Rua Maria Barbosa, em frente ao Hospital São Luís. Acompanharam-me minha mulher, Socorro, que não conhecia a cidade e minha irmã, Teté, que também foi matar suas saudades. Foram 2 dias de muitas emoções, que subiam à tona nas lembranças do que lá vivemos.

De antemão já adianto que lá não tinha mais amigos ou parentes. Tendo saído de Surubim com 15 anos de idade em companhia dos meus pais, que vieram em 1959 para Campina Grande, trazidos por minha irmã que aqui já morava, várias vezes lá retornei ao longo dos meus anos de vida em Campina Grande. Os amigos da infância, que não foram muitos, pois, dos 15 anos lá 4 foram vividos em Limoeiro, estudando interno no Ginásio do Padre Nicolau Pimentel, ou se haviam mudado para outras localidades, a exemplo de Zé da Pipoca e de Marcelo Guerra, que se haviam transferido para Recife, ou  dos irmãos Maurício e Maurílio, que repousam no jardim celeste.

De meus parentes, pelo lado da minha mãe, tia Irenides e sua filha Marilena, minha prima, as últimas que lá ficaram, também fizeram a grande viagem. Márcio, de igual modo lá com elas e José Alberto residindo no Rio de Janeiro. E pelo lado do meu pai, nem tio Santo e tia Dondon, nem Liinha e nem Aurinete, todos no outro mundo, apenas aqui Aurisete, Jalda e Genival, que residem em Recife. Somente Gorete e Dida, que tia Irenides as havia criado como filhas e que, por isso, as tinha como primas, que não as encontrei, nem sequer a casa onde moravam, modificada com a venda para terceiros. Tia Irenides era casada com Dionísio Marques de Oliveira, funcionário do cartório, exímio saxofonista e criador de um “jazz band” na cidade.

Tive, porém, a alegria de poder encontrar com 86 anos de idade, aquela que ajudava a minha mãe nos afazeres da casa, que cuidava da gente como se fôssemos filhos dela, Joventina, viúva de Quincas apalazador, funcionário e grande amigo de meu pai. Foi uma enorme alegria tê-la encontrado, morando no mesmo lugar lá na Cabaceiras, alegre como sempre foi, embora alquebrada pela idade. Tinha muita vontade de vê-la e imaginava que ela pudesse não estar mais aqui, mas ela estava lá com o mesmo sorriso, com a mesma simpatia, com a mesma delicadeza, a relembrar as defesas que fazia dos castigos que nos impunha nosso pai pelas peraltices que praticávamos. Ri bastante quando ela me perguntou por Boca Rica, referindo-se ao meu irmão Hamilton, que àquela época – hoje não mais – tinha um dente de ouro.

Teté teve mais sorte que eu. Encontrou as 3 amigas de infância, Santa Guerra, Maria Amorim e Cecília Baé. Santa e Cecília, morando na mesma rua Benjamin Constant, a rua onde primeiro meus pais se fixaram quando lá chegaram, e Maria na Ladeira do Pitoco, agora asfaltada, também na mesma casa antiga. No início dessa ladeira existia a Cadeia Pública, que foi demolida para dar lugar ao Forum, e o próprio Largo da Paz desaparecido, no qual foi construído um centro cultural. Nossa casa bem próxima, porém, já não era a mesma, totalmente descaracterizada a sua frente, transformada em casa de comércio. De certo também internamente, mas, talvez ainda existindo o velho pé de juá frondoso no fim do quintal, onde eu brincava de bandido e mocinho com meus irmãos Adeilson e Adenilson, o amigo Maurício, a coleguinha Nina que era filha de seu Santo Menero e outros amiguinhos mais, inclusive Godeliever, a minha primeira namorada, de quem jamais tive notícias desde que de lá parti.

Se, porém, não vi os amigos da infância, fiz novos amigos. Edvaldo Clemente, Diretor de Cultura da Prefeitura Municipal, não só me esperava no Hotel Crystal no centro da cidade me dando apoio, como me apresentou a Fátima Almeida, Presidente da ALAS – Associação de Letras e Artes de Surubim e a Francisco Ivan Nóbrega de Oliveira, Professor na vizinha Vertente do Lério, ambos cordelistas de mão cheia, com os quais iniciamos uma boa amizade. Fátima me levou a recordar pelo seu cordel “Só Mesmo em Surubim”, as festas natalinas que me fizeram sentir o gosto dos confeitos, quando ela diz: “Quem quer maçã do amor/ ou castanha confeitada?/ Nas nossas festas de rua/ tinha retreta animada/ carrossel, roda gigante/ pastoril, gente elegante/ postal sonoro pra amada”. Já Francisco me lembrou da perda de Vertente no seu cordel “Vertente do Lério e sua História” dizendo: “A Surubim pertenceu/ dele foi seu distrito/ até os anos noventa/ quando vem o plebiscito/ pra sua gente votar/ e criar o município”.

Edvaldo, por sua vez, me fala entusiasmado dos seus projetos culturais para a cidade, como a “Minha Rua tem Memória”, a “Praça das Bandeiras”, o “Painel dos Papas”, as “Estátuas de Frei Damião e Padre Cícero”, para junto das quais lhe sugeri colocar a estátua de Monsenhor Luís Ferreira Lima, eterno benfeitor de Surubim, quer como sacerdote, quer como prefeito e deputado. Como afirma Antonio Farias Cabral no seu livro “Memórias da Terra do Boi Surubim”, Monsenhor Ferreira foi “o maior dos nossos taumaturgos”. Eu tinha enorme admiração pelo monsenhor, o qual me chamava de Pingo, por eu ser em tamanho o menor dos coroinhas na Igreja de São José. E foi ele que me fez chegar a Edvaldo, quando mexendo nos arquivos do padre encontrou a foto de minha primeira comunhão que minha mãe lhe presenteara. Sua publicação no blog “Minha Rua tem Memória” foi o que nos permitiu estabelecer contato e criarmos uma relação de amizade.

Apaixonado por fotografia, Edvaldo enriqueceu as dependências do Hotel Crystal com fotos históricas de Surubim e de 2 famosos filhos, Chacrinha e Maestro Capiba. São dois artistas de renome no cenário nacional, que projetaram a cidade de Surubim. Alegre também a boa conversa com o padre Inaldo Silva, que já era meu leitor quando esteve exercitando sua missão sacerdotal aqui em Campina Grande por 16 anos. São muitas as recordações e é impossível expô-las aqui de uma só vez. Terei de escrever mais, motivo pelo qual haverei de continuar trazendo-as em conta gotas.

(*) Professor, membro da ALCG

 

Os artigos postados no Paraibaonline expressam essencialmente os pensamentos, valores e conceitos de seus autores, não representando, necessariamente, a linha editorial do portal, mas como estímulo e exercício da pluralidade de opiniões.

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Ailton Elisiário

O autor é economista, advogado, professor da Universidade Estadual da Paraíba e membro da Academia de Letras de Campina Grande.

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