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Rafael Holanda: Tenho saudades

Rafael Holanda. Publicado em 28 de junho de 2021 às 9:20

Tenho saudades de um passado tão distante, do meu tempo de infância, onde corria de mato adentro sem lenço ou documento, sem medo de se ferir, pisando em gravetos e espinhos para encontrar as belas borboletas que viajam pelas plantas. Sem medo de ferimentos, pois tinha como para estancar o sangue, com a poeira da areia que enfeitava a minha estrada.

Era um craque nas molecagens, no rodar pião, futebol, academia, adivinhação, jogar xibiu, correr de rua abaixo com cavalo feito de madeira; viver a vida sem procurar definir o dia de amanhã.

Tenho saudades dos meus medos, quando o sol deitava no poente, na hora da Ave Maria, os gritos da rasga mortalha e as sensações da noite que fabricava os monstros dos meus sonhos.

Tenho saudades das bênçãos dadas aos meus pais, dos irmãos que me cercavam, da hora da Voz do Brasil que ecoava por toda casa através do radio de meu pai. Saudades das novelas que nos empolgavam, do direito de nascer, onde Albertinho Limonta contava as suas histórias e eu como pequeno fã acreditava.

Saudades da geladeira a querosene, sendo eu era o responsável em observar o nível do combustível para impedir que houvesse o descongelamento.

Saudades de minha rede, companheira indelével dos meus pavores, das pequenas gotas da chuva que passavam em cachoeira pelo telhado e entoava a verdadeira canção da paz e da madrugada. Do acordar molhado e com medo das gozações ia rapidamente a busca de um pano para limpar o solo e trocar o meu pijama.

Saudades do simples alimento que sustentava a vida, do cheiro do café torrado e pisado ao pilão, do pão sem fermento que esquentado com um pouco de creme nos levava a umbral de felicidade.

Saudades dos capitães feitos pela mão de minha mãe que após amassar o feijão com farinha mandava que se fizessem filas e cada irmão em número de sete recebiam em sua boca o que ainda lembro como manjar dos Deuses.

Tenho saudades de tudo que foi passado, das histórias da carochinha, das quermesses, do cordão vermelho e azul, dos carrosséis e das belas músicas que desmanchavam corações apaixonados de um mundo onde a maldade ainda não tinha nascido.

Tenho saudades de amigos que viveram comigo a simplicidade de uma vida, das professoras queridas, das tristezas contidas num coração que era feliz e não sabia.

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