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Rabo de Cutia

Benedito Antonio Luciano. Publicado em 28 de dezembro de 2017 às 22:35

Por Benedito Antonio Luciano

O livro “Rabo de Cutia”, de autoria de João Damasco Braga, é uma espiral sem pontas. Composto por setenta e seis poemas dispostos em quatro seções intituladas: Desencontros (23); Caminhos (17); Encontros (12); e Horas varridas (24). “Rabo de Cutia” é uma obra densa, de maturidade intelectual e de grande sensibilidade poética e estética.

Segundo depoimento do autor, por ocasião do lançamento do livro, ocorrido em 13 de dezembro de 2017, no Museu de Arte Popular da Paraíba, em Campina Grande, a escolha do título partiu de um ditado popular repetido por sua mãe quando ele pedia para ela contar causos durante o dia:

– “Quem conta história de dia/ cria rabo de cutia!”.

Natural de Cajazeiras, cidade localizada no Sertão da Paraíba, João Damasco Braga, em “Rabo de Cutia”, deixa transparecer em alguns de seus poemas uma forte carga telúrica. Neles o autor revisita memórias de uma infância vivida, parte na cidade e parte na zona rural, caracterizada na capa do livro pela reprodução de uma tela pintada pelo seu pai, Antonio, na qual pode ser vista uma casa de tijolos aparentes, com varanda na parte frontal e uma janela na parte lateral.

Partindo das memórias infantes, a trajetória espiral avança, proporcionando ao poeta, “Encontros” e “Desencontros” em suas “Horas varridas” pelos “Caminhos” (“Tormentosos círculos”) percorridos por ele em sua “Travessia” pelo mundo afora.

Memórias da mãe, do pai, do “Rabo de cutia”, da agourenta “Rasga-mortalha”, de “João Doido”, dos “Bichos numa noite de São João”, de uma “loja de bicicletas/nos confins da Paraíba…”, do nostálgico Cine Éden (“todo cinema é Paradiso!”) e das cores no céu em um “Fim de tarde”.

Memórias maduras e caleidoscópicas de imagens captadas pela retina do poeta e refletidas nos fragmentos das múltiplas facetas especulares que constituem o universo da palavra poética.

Imagens pictóricas que nos remetem aos universos de Edgar Allan Poe e Vincent van Gogh, como no poema “Nevermore”: “Deixai, irrequietos corvos,/que este campo enfeitais,/que traduza a negrura/ que em bando contrastais/com esta luz que me inunda/a vida que se esvai/em êxtase e loucura./Em breve, me confundirei, enfim, com esta paisagem./Não vos incomodarei nunca mais.”

Para quem conhece o poema “The Raven” (O Corvo) de Edgar Allan Poe na versão original, em inglês, sabe que a palavra “Nevermore” está presente nos versos da linha final de várias estofes. E para quem conhece a tela “Wheatfield with crows” (Campo de trigo com corvos), pintada por Van Gogh, em 1890, há de estabelecer a correlação entre o “Nevermore” de João Damasco com as duas obras citadas.

Referência explícita ao pintor Van Gogh está presente na primeira estrofe do poema “Última dança”: “Incandescente Van Gogh,/céu de anil, cobalto./profundo azul da Prússia?/Plúmbeas nuvens,/misteriosa noite/-que cenário me assistirá quando /a Conselheira tocar meu ombro?”.

Imagens cinematográficas, como no poema “Marienbad” (“O ano passado em Marienbad”, filme de Alain Resnais, 1961), referência a personagens de história em quadrinhos, observações da natureza, preocupações físicas e filosóficas. Lembranças de pessoas e lugares, próximos e distantes, complementam a “Travessia” contextual de “Rabo de Cutia”, fazendo da obra um belo exemplar da arte de unir versos.

                                               O autor é professor do Departamento de Engenharia Elétrica da UFCG.

Os artigos postados no Paraibaonline expressam essencialmente os pensamentos, valores e conceitos de seus autores, não representando, necessariamente, a linha editorial do portal, mas como estímulo e exercício da pluralidade de opiniões.

Benedito Antonio Luciano

Professor doutor, titular do Departamento de Engenharia Elétrica da Universidade Federal de Campina Grande (UFCG).

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