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Campina Grande - PB

Quero uma fogueira

Comerciante mata quatro bandidos, após reagir a assalto em Cacimba de Dentro - image data on https://paraibaonline.com.br27/06/2016 às 22:52

Fonte: Da Redação

Por Ailton Elisiário

Nesta noite de São João eu desejei uma fogueira na porta de minha morada. Queria relembrar meus tempos de infância e juventude, em que ao redor de uma fogueira soltava fogos e balões, sob os olhares atentos dos meus saudosos pais. Mesmo quando eles já não estavam comigo, convidados que foram pelo bom Deus a ingressarem na vida eterna, eu continuava reunido com meus irmãos em torno de uma fogueira, agora a olhar atento os filhos e sobrinhos soltarem fogos e balões, como assim nós fazíamos.

Há um bom tempo, porém, que não fazemos mais isto. O asfalto nas ruas, o meio ambiente, a camada de ozônio, os ambientalistas, os curadores do meio ambiente, a violência urbana, todos esses fatores se encarregaram de quebrar a tradição junina das fogueiras nas cidades. Embora praticada na zona rural, nos sítios e fazendas, nos arredores das cidades, poucos ainda se arriscam a manter a tradição nas ruas não asfaltadas da periferia urbana.

Vemos hoje as fogueiras nas fotografias do passado, nas construções virtuais da internet, nas decorações dos locais de folguedos, nos programas de televisão, nos filmes antigos, nas nossas próprias lembranças. O progresso transformou a tradição da fogueira. Com isto, acendemos as nossas fogueiras nas histórias que contamos aos nossos netos, que não mais as conhecerão nem acenderão as suas próprias.

Meus irmãos desta vez não se dispuseram a acender suas fogueiras. Cada um deles tinha suas próprias razões. Os amigos estavam mais para ir aos forrós que permanecer em suas casas. Vi que o ar da cidade não estava tão denso, em face do espaço aéreo não haver sido tomado fortemente pela fumaça das fogueiras. O meu olfato e a minha visão não se ressentiam do odor e da névoa produzida pela queima dos galhos secos das árvores guardadas para elas.

Não obstante essas dificuldades eu consegui minha fogueira. Meu sobrinho montou na área livre do interior de sua casa uma fogueira típica, onde ao seu redor pudemos todos recordar as histórias dos nossos familiares. Deliciei-me com cada particularidade daquela fogueira, – as labaredas fortes e brilhantes ascendendo serpenteando ao céu, o soar do estrepitar da madeira ardendo na força do fogo, o dourado contemplativo das brasas fumegantes espargindo quietude, a nuvem de fumaça invadindo tênue o lugar do aconchego, o calor esquentando o corpo e as imagens trancadas no baú das saudades, – até que as lágrimas do choro contido começando a deslizar pelos cantos dos olhos foram desmanchadas pelo gesto rápido e discreto das minhas mãos, fazendo-as passar despercebidas.

Minha fogueira queimou. Como tantas outras que foram queimadas, ela reacendeu nas lembranças o fogo do passado, da criança inocente, do jovem esperançoso, do adulto responsável. Reacendeu o fogo do presente, renovando as forças para a continuidade da luta em busca da realização dos sonhos. Reacendeu o fogo do futuro, para alumiar dias de amor e concórdia, de paz entre os homens. A fogueira tem para mim valores simbólicos. Por isso, sempre quero uma fogueira para me aquecer juntamente com os meus e ao seu redor jamais deixar de sonhar.

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