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Campina Grande - PB

Quem vai tirar os nossos medos

03/06/2017 às 17:34

Fonte: Da Redação

POR: Padre Assis 

No Pentecostes nasce a nova comunidade, que brota do Espírito do Ressuscitado. O “sopro” de Jesus sobre os discípulos, como Deus Pai Criador soprando sobre o corpo inerte de Adão dando-lhe vida, na criação, vivifica-os como membros do seu Corpo Místico.

Nasce aí a comunidade eclesial, sua Igreja. O medo que era como um freio que bloqueava a missão de testemunhar o Ressuscitado transforma-se, com a sua presença viva e real, e pela força do seu Espírito, em paz, alegria e missão. 

Pentecostes é a representação de como a Igreja, nasce da Páscoa-Pentecostes e se abre à universalidade da missão. Na verdade, o Espírito Santo sempre esteve presente e foi o autêntico construtor da Igreja, desde os primeiros dias em que Jesus já não mais estava com eles.

Pela Escritura sabemos o que é o Espírito de Cristo e que Jesus, como homem, possui a plenitude do Espírito de Deus. Este dirigia todas as suas obras e por isso nele aparecia a força divina.

No evangelho lemos que “Jesus foi levado pelo Espírito Santo” (Mt 4,1), que suas palavras estavam cheias de Espírito e que Ele ordenava à natureza, tanto morta como viva. Quando se preparava para abandonar este mundo, deixou aos apóstolos em herança o que ele possuía como seu tesouro mais precioso: a plenitude do Espírito.

Segundo santo Agostinho, isso se verificou já no momento de seu último suspiro na cruz. Naquele precioso instante se rasgou o véu do templo, para indicar o final da antiga aliança e o inicio da nova. Nasce a Igreja como se fosse uma nova criação. Durante a primeira criação, Deus havia insuflado o espírito sobre a matéria morta e assim havia começado a vida na terra.

No momento da morte de Cristo, Ele infunde aos homens um espirito novo, e assim começa a nova vida sobrenatural. Sua força e energia se manifestaram em Pentecostes.

Existe, portanto, uma semelhança entre o ser humano que vive e a Igreja. O ser humano é um ser vivente porque possui alma, que Deus lhe deu desde o inicio. Se ela se separa do corpo, o ser humano morre e seu corpo se desintegra. Semelhante sorte também é a da Igreja se o Espírito Santo a abandonasse, pois o Espírito Santo é a alma da Igreja.

Não podemos entender o homem sem a alma, e sem o Espírito Santo não podemos compreender à Igreja. Ambas as realidades seguem sendo para nós um profundo mistério. A alma humana não se vê com os olhos, e muito menos pode o olho humano ver o Espírito Santo. O mesmo se pode dizer da Igreja, seu verdadeiro valor e sua dignidade são mistérios escondidos ao olhar externo e superficial.

No Evangelho deste Domingo (cf. Jo 20,19-23) João apresenta a realidade de tristeza, incompreensão e até de medo dos discípulos de Jesus. Falta o centro, o Ressuscitado e não há mais que “medo e portas fechadas” que não os deixam captarem o que há lá fora, que obstaculizam o encontro e não favorecem a confiança no ser humano.

Com as portas fechadas não podiam sair, escutar e sentir a dor e sofrimento que existe fora, não podiam atender aos que estavam privados da comunidade ou excluídos.

A presença do Ressuscitado na comunidade lhes transforma.  É uma experiência que os recria, os faz renascer. Jesus lhes infunde a maneira como eles podem crescer e continuar a ser seus seguidores, ser mais responsáveis e adultos. Como se Jesus quisesse dizer-lhes que não podem cair no infantilismo e no protecionismo.

Um novo ar entrou naquela casa, depois que as portas se abriram. Com o Espírito Santo entenderam as bem-aventuranças que os fez pessoas alegres, compassivas, misericordiosas, pacíficas, limpas…

Assim os que haviam pretendido os primeiros postos; os que não haviam entendido o sentido da cruz, do sofrimento, da entrega; os que criam em um messias político, pela força; os que tinham a Jesus como um milagreiro; os que não entendiam por que compartilhar com os pobres, sua vida se iluminou.

Os chamados que o abandonaram, os discípulos que o negaram, os que não o entenderam, os pobres e mais limitados da sociedade, voltam a senti-lo a seu lado como quando comiam com eles, mas agora cheios de seu Espírito e vida têm que atualizar suas palavras, seus gestos, suas atitudes.

Hoje é Pentecostes, nós atualizamos suas palavras e gestos. Comemoramos nosso nascimento como comunidade com Jesus em nosso meio.

Mas se isso não está só como doutrina pregada ou como experiência vivida que nos alimenta, quem nos abrirá as portas do diálogo, do encontro com os outros? Como podemos dizer que está conosco, se não temos alegria, se nos sentimos cansados ou nos auto-nutrimos de outras coisas, como doutrinas, leis, estruturas para defender-nos e não perder visibilidade? Quem nos proporcionará a paz e a alegria para anunciar bondade e esperança?

Quem vai tirar os medos da Igreja? O medo do novo. Não podemos pensar que somente com conservar o passado estamos sendo fiéis ao evangelho e garantindo nossa fidelidade, pois o instinto de conservação é sinal do medo.

Medos à criatividade teológica, às reformas litúrgicas e linguagens anacrônicas e atrasadas que não comunicam nem ajudam a celebrar nada. Medo de defender os direitos dos pobres diante das injustiças clamorosas. Medo às tensões e conflitos que implica ser fiéis ao evangelho: nos calamos, quando não nos devíamos, falamos para defender-nos e vivemos uma adesão rotineira e acomodada. No fundo, é medo de fazer o que Jesus fazia: acolher os pecadores misericordiosamente, reconciliar e não julgar nem condenar, romper correntes com o amor largo e assimétrico de Jesus.

Quem vai tirar os medos dos homens e mulheres de hoje? O desemprego, a pobreza, a velhice, a enfermidade, a solidão, o sofrimento, o fracasso, o desamor. Já não temos mais medos dos fantasmas e demônios, nem sequer dos pecados. A religião já não é o “bicho papão”, mas sim o que angustia são as realidades, as carências, os limites humanos e enfrentá-los sozinhos, mais ainda. Temos a solidão, apesar de que nos dizemos seres relacionáveis que as comunicações têm avançado.

Quanto mais meios temos para enfrentar a vida, mais medos temos. Há inquietação e preocupação com as mudanças tão rápidas que se dão em nossa sociedade, pelo individualismo, o pragmatismo e a falta de solidariedade. Há uma angustia disfarçada e dissimulada, que costuma estar ligada à falta de sentido da vida e o medo da dor, da morte, por essa dispersão e desorganização da vida.

Quem tirará os medos dos cristãos? Onde cresce o medo se perde de vista a Deus, se sufoca a bondade que tem nas pessoas e a vida se apaga e entristece. É importante não perder a confiança em Deus.

Se o Deus manifestado em Jesus ainda nos dá medo, não entendemos muita coisa. O Deus de Jesus nos tira o medo de Deus com sua imagem tão humana e próxima.

Só o Espírito do Ressuscitado, iluminará nossa confusão, falta de entendimento, comunicação e entrega. Em um mundo contaminado e com alergias, necessitamos ar puro que nos ilumine por dentro e por fora; nos dê valor para testemunhá-lo, força para não silenciá-lo, respeitando; valor para acompanhar, tocar e curar as chagas dos que estão à nossa volta, escutar os seus gemidos; e que o mesmo Espírito nos conduza pelos caminhos de Cristo. Que nos ajude a abrir com essa chave as portas para uma nova evangelização.

 

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