...

Campina Grande - PB

Quem não está cansado?

08/07/2017 às 17:27

Fonte: Da Redação

Por Padre José Assis

Na passagem evangélica deste Domingo (cf. Mt 11,25-30) nos encontramos diante de um texto de um lirismo refrescante que nos permite entrever timidamente, é claro, na ponta dos pés, o clima íntimo da oração de Jesus: “Eu te louvo, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondeste estas coisas aos sábios e entendidos e as revelaste aos pequeninos.” (v. 25)

Como tantas vezes Jesus se dirige ao Pai, na intimidade da oração e partilha sua experiência de Deus com seus discípulos. Sem essa sua experiência é impossível compreender a trajetória humana de Jesus e qual foi sua força para falar do “Reino dos céus”, entendido como compromisso do Pai com a nova humanidade.

Ao dizer em sua oração que o Senhor “escondeu estas coisas aos sábios e entendidos”, quer Ele deixar bem claro que para encontrar esse Deus “oculto” na nossa forma de pensar, é importante a disposição interna que começa quando nos despojamos de nossos pré-conceitos, sobretudo da autossuficiência do que se crê possuidor da verdade.

É óbvio que Jesus não rejeita a “ciência”, mas alerta sobre a dificuldade daqueles que só se apoiam em seu saber, porque assim não escutam a Palavra nem se abrem efetivamente a ela com simplicidade. Há de escutá-la sem preconceitos.

Esta atitude é o caminho para chegar a entender uns valores que não nascem da especulação intelectual senão do coração sincero que busca a verdade, e isto se encontra mais facilmente entre as pessoas simples.

Jesus quer sublinhar que Deus sempre atuou assim na História da Salvação revelando-se aos humildes que se deixam guiar sem impor nenhuma resistência, buscando somente os planos de Deus, confiando no seu amor paterno.

Esta ideia está presente no Antigo Testamento e se desenvolve depois no Novo. A Igreja, desde sua origem, destacou o exemplo de Maria e seu cântico, o “Magnificat” vendo nela um modelo a seguir para os cristãos de todos os tempos,  precisamente por sua simplicidade e humildade ao acolher a Palavra de Deus.

Estas palavras de Jesus nos recordam os seus primeiros passos por sua terra, a Galileia, ensinando nas suas sinagogas, proclamando a boa notícia do Reino e curando toda doença e enfermidade do povo. Era lógico que se despertassem nele os sentimentos de compaixão. (cf. Mt, 4- 23)

Jesus sentia compaixão pelas multidões, porque estavam cansadas e oprimidas “como ovelhas sem pastor” (cf. Mt 9,35-36). Aquele olhar de Jesus parece alargar-se até hoje, até os nossos dias. Também hoje Ele olha para a gente oprimida, deprimida e sem sentido ou meta para a sua existência.

Multidões extenuadas, desanimadas, abandonadas…  O olhar de Cristo pousa sobre todas as pessoas, aliás, sobre cada um destes filhos e filhas do Pai que está nos céus: “Vinde a mim todos vós que estais cansados e fatigados sob o peso dos vossos fardos, e eu vos darei descanso. Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração, e vós encontrareis descanso. Pois o meu jugo é suave e o meu fardo é leve.” (vv. 28-30)

Quem não está cansado? De que está cansado o mundo? De quem ou do que estão as pessoas cansadas, indignadas ou decepcionadas? Por que está a sociedade e a humanidade tão decepcionadas? Onde está a resposta às nossas aspirações?

Hoje cansados, angustiados e oprimidos estão todos os que sofrem na vida por alguma razão, mas também pessoas frequentemente atormentadas entre a angústia e a esperança, abatidas pela sensação de seus limites, perturbadas e divididas no coração.

Entre outras coisas porque já não se sabe para onde ir, nem onde encontrar o verdadeiro descanso. Porque, o ritmo da vida que levamos no dia a dia é tão vertiginoso, que se converte em um jugo insuportável e solitário, que nos faz sentir que algo não funciona bem; que não vivemos dignamente, que a vida que levamos… não é vida.

Frequentemente nos sentimos possuídos pelo desanimo. Que fazer para ter um espírito alegre, criativo e esperançoso? Não é fácil viver em um mundo tão complexo e tão contraditório. Cada situação perversa deixa sua marca em nosso espírito.  Jesus nos diz: “Venham a mim todos os que estão cansados”, Ele nos faz um convite pessoal que nos alivia. E nos oferece um remédio que pode parecer surpreendente e que temos que entender.

O remédio é precisamente tomar seu “jugo”. O que é esse “jugo”, que em vez de pesar alivia, e em vez de esmagar conforta? O “jugo” de Cristo é a lei do amor, é o seu mandamento, que Ele deixou aos seus discípulos.

O verdadeiro remédio para o nosso cansaço e as feridas da humanidade, quer materiais, como a fome e as injustiças, quer psicológicas e morais causadas por um falso bem-estar, é uma regra de vida baseada no amor fraterno, que tem a sua fonte no amor de Deus.

Há muitas pessoas que buscam Jesus, mas alguns não têm em conta que o chamado “seguimento de Jesus” supõe carregar o seu “jugo”. Pois se não fosse assim tudo acabaria em uma espiritualidade sentimental, intimista, em uma atração passageira da sua pessoa, mas descomprometida,  sem uma projeção da comunidade, da família humana.

Por isso o seguimento tem que ser buscar e assumir “o projeto“ de Jesus, que em definitivo é a sua mesma vida e a sua entrega aos outros. Assim, se entende o: “Aprendei de mim que sou manso e humilde de coração”.

Cristo está nos convidando a uma difícil tarefa, sem avaliarmos previamente, o segredo é lançar-se a ela confiando somente em seu amor e assim a carga resultará leve e suave.

Veja também

Comentários

Simple Share Buttons