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Quebrando o ‘galho da bananeira’

Josemir Camilo. Publicado em 11 de janeiro de 2018 às 8:28

Por Josemir Camilo de Melo (*)

Criei um hábito de passar o fim de ano, e isto inclui o natal, lendo um livro, em especial, romances. Este ano a voracidade parece ter aumentado, li dois. Primeiro, o excelente épico da jovem ganense, Yaa Gyasi, “O Caminho de Casa” (Rocco, 2017); o segundo, “Os Pescadores”, do nigeriano, Chigozie Obioma (Globo/Livros, 2016) e, ainda, comecei um terceiro, entrado o ano: “Barroco Tropical”, do angolano, José Eduardo Agualusa. Como se vê, me centrei na literatura africana. Li, como estudo, e tomei notas, mas nada me surpreendeu quanto à tradução de Obioma que, em parte, penso, comprometeu a trama do jovem escritor.

Escrito, a meu ver, no estilo do realismo (e não pretendo enveredar pela análise literária) o autor prende o leitor com sua trama bem orquestrada, em que pistas do enredo são lançadas, anteriormente, para serem encaixados em tempo literário oportuno. Quase um trailer, o romance é bem conduzido oferecendo ao leitor aspectos culturais do seu país. O autor faz referência a vários traços da cultura nacional e étnica, como duas divindades (en passant) Iyemoja (Yemojá, divindade das águas do mar – Iemanjá?) e Osha (Osá – um dos odus de Ifá, conjunto de signos em forma de poema); ou alguém usando um agbada (abadá). Para conferir, usei o dicionário de José Beniste, “Dicionário Yorubá”. O livro mostra o cadinho linguístico da Nigéria, país que não deveria existir na fala do narrador/autor: “O Pai (…) reclamou do monstro que os britânicos tinham criado ao transformar a Nigéria num país!” (p. 32). Mostra uma nação trilíngue e dialetal, em que os personagens centrais falam Igbo, uns figurantes falam Iorubá e, formalmente, todos da elite e classe média falam inglês. Cita, ainda, o tipo religioso ‘mallan’, o hauçá mulçumano. Diferente de Chimamanda Adichie (de quem já comentei, aqui, o livro “Meio sol Amarelo”), o tipo étnico ‘hausa’ (como está no livro) não aparece, a não ser como uma figura na rua, mas, às vezes, o narrador se refere aos do Norte. Retoma, um pouco, o conflito de Biafra, e mostra a volúpia do poderio militar dos ditadores de plantão.

No entanto, seu estilo de usar, pouco, a vírgula compromete o entendimento, como se registra à página 133, quando diz: “Vi o carro dele entrando em casa pelo círculo formado ao enxugar a camada de vapor…”; ou esta outra pérola de confusão: “Encontrara a vizinha que achou o corpo de Boja no poço quando levava o pastor até a porta (p. 235). Ainda este: “Ficamos um tempo em silêncio, meus pensamentos viajando no tempo, como se estivesse (sic) descendo uma encosta íngreme de patinete” (p.180).

Associe-se isto a um tradutor pouco acurado que nos proporcione algo assim: “(…) começaram a abrir a cova depressa, apressando o desaparecimento …” (p. 140); ou algo mais hilário: “(…) o louco ficou apoplético, enlouquecido…” (p. 225).

Daí, o título ‘Quebrando o galho da bananeira’ e adiantando: foi o tradutor que criou galhos em bananeiras. Toda esta insatisfação com a tradução (traição?) pode ser um pouco de irritação, já que não li a edição original, em inglês. Mas, por que esta preocupação com uma suposta tradução inadequada? Porque, para mim, e creio que é consenso, a leitura deve ser inteiriça para que se apreenda o enredo, a trama. Qualquer obstáculo, como gralhas e gafes, regência, vocabulário, datas, vírgulas [a falta de] que deforme o signo/significante/significado corta a ‘viagem’ do leitor ingênuo (ou talvez, dele, nem corte, mas, sim, do leitor crítico). E não é só um desses desvios de atenção/tensão do leitor, mas, quando acontecem um ou dois em cada capítulo, começa a assomar um comportamento de belicosidade contra o autor, embora devamos ter cuidado, se é estrangeiro, pois é bem capaz de o ‘erro’ ser da tradução.

Outro ponto, em que bato muito, é a questão da cor e da etnia, para ver como os tradutor(a)es traduziram ‘black’. Considero isto um ponto crucial para a educação étnico racial. Como ocorre, com frequência, a tradução vacila entre cor e etnia, a ponto de aparecer “carvão negro”, “objetos negros”, “nuvem negra”, “fumaça negra” (mas, aparece, também: “fumaça preta”) e até um traço de discurso racista: “bandeira negra do medo” (tudo que é negativo é negro?). Volto a defender que ‘negro/a’ deve ser usado só com relação ao grupo étnico, ao povo; fora disto é cor, preta/o, escuro/a. A estrada é longa.

A tradução nos deixa sem saber ao certo, quanto à religiosidade dos protagonistas: confunde as igrejas, diz que há um pastor e fala em missa, a igreja é ‘Cristã Apostólica’. Em outro ponto, o autor escreve mesmo (em inglês?) Madonna, para a imagem de Nossa Senhora, profanada por um louco? Ou se trata de efeito literário? Além de sintaxe menos adequada: “Subiu a mão até o rosto” (ou [e]levou a mão?). Mas o que mais pesa contra o tradutor (?) é a alteração genética na botânica, ao criar “galho de bananeira”. Também poderia ser mais preciso quando diz que a mulher carrega uma “moringa presa na rodilha…”; não é presa, é apoiada num rodilha de pano (a não ser que a rodilha seja fixa na moringa, a ponto de ficar apoiada, esta, no chão ou nalgum móvel, onde se a coloca). Outro lapso da tradução é “queixada de barata”. Provavelmente, o autor escreveu jaw, podia ser mandíbula, mas queixada?! É de cair o queixo! E não se tem a quem se queixar!

(*) Professor, historiador, presidente da ALCG

Os artigos postados no Paraibaonline expressam essencialmente os pensamentos, valores e conceitos de seus autores, não representando, necessariamente, a linha editorial do portal, mas como estímulo e exercício da pluralidade de opiniões.

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Josemir Camilo

* PhD em História pela UFPE, professor aposentado da UFPB, membro do Instituto Histórico de Campina Grande.

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