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Que país é esse?

Arlindo Pereira de Almeida. Publicado em 12 de junho de 2019 às 10:36

No mundo da economia, comparação significa avaliar os pontos de referência, as semelhanças e diferenças, as vantagens e desvantagens do modo como produzimos a comercializamos bens e serviços. E isso vem ocorrendo desde a antiguidade, com mais força a partir das grandes navegações. No final da Idade Média, o mundo conhecido pelos europeus resumia-se ao leste da Ásia, África do Norte e Índias. O mercado de especiarias era exercido por comerciantes de Veneza ou Gênova, que detinham o monopólio de produtos vindos da Índia. Portugal e Espanha procuraram e encontraram o caminho alternativo para acesso ao Oriente.

A expressão em inglês benchmarking, significando inicialmente ponto de referência para comparações entre empresas, produtos e serviços, foi ampliado para o contexto internacional, passando a ser usado, hoje, também para aferir a competitividade dos países. Em outras palavras, leva um país ou suas empresas com projeção internacional a procurar se inteirar do que faz o concorrente e como melhor aproveitar as oportunidades do mercado, inovando, melhorando a produtividade e oferecendo produtos mais baratos. Só para ter uma ideia dos números envolvidos, o comércio internacional movimentou recursos da ordem de US$ 45 trilhões em 2017, ou 2,3 vezes o PIB dos Estados Unidos. Desse total o Brasil participou com US$ 472 bilhões, ou 1,05%.

No mundo contemporâneo esse principio se acentua com os processos econômico e político de globalização, em que a integração e as ligações entre países são cada vez maiores, cada um buscando maiores parcelas da riqueza gerada e de ter maior influência a nível planetário. Por isso mesmo, é fundamental acompanhar, avaliar, fazer comparações permanentes quanto aos demais atores nesse cenário global, antecipando-se às tendências. Nesse contexto procura-se trabalhar as vantagens competitivas de um país, isto é, produzir com mais qualidade, a preços mais baixos e, por isso, ganhando mercado. O Japão e a China são exemplos de quem observou o que se produzia no mundo. Inicialmente copiaram, mas ao mesmo tempo desenvolveram inovações e hoje tem grandes participações no mercado global.

Nesse sentido, talvez seja um bom exercício traçar paralelos entre o Brasil e outras nações de porte semelhante ou maior, através da análise comparativa, para o que fonte importante é o Atlas Mundial de Dados, que é rico em estatísticas sobre todos os países do mundo.

Procuramos estabelecer comparações do Brasil com um país desenvolvido (Japão), e dois outros componentes dos chamados BRICs (Índia e China).  Não só na economia, mas também em diversos outros aspectos sociais. BRIC é uma sigla que se refere a BrasilRússiaÍndia e China e África do Sul, que se destacam no cenário mundial como países em desenvolvimento.

Aqui os indicadores escolhidos para esta sucinta avaliação.

Apesar do enorme potencial do Brasil, os números são pouco satisfatórios.

1º – nosso PIB per capita está abaixo da média mundial – US$ 10,239 ante US$ 10,749, sendo, porém, 4,9 vezes superior à da Índia (US$ 2,036);

2º – nossa taxa de desemprego é 4,73 vezes a da Índia, 5,12 vezes a do Japão e 2,56 vezes a da Rússia;

3º – Nossa malha ferroviária é 2,26 menor que a da Índia, porém nosso território é 2,81 vezes maior.

4º – Nosso comércio exterior (compras e vendas) é inferior ao dos demais países;

5º – O preço do óleo diesel é mais caro que nos outros países, embora Índia e Japão tenham produção inexpressiva, dependendo de importações;

6º – Em 2016 foram registrados 61.283 homicídios no Brasil, ante 42.678 na Índia, que tem uma população 6,4 maior; No Japão foram registrados 11 homicídios com arma de fogo, contra 34.678 no Brasil;

E, finalmente,

7º – No Brasil havia 4,8% das pessoas com renda de até R$ 228,00/mês. Na Índia 21,1%, no Japão 0,2% e na Rússia 0%

7º – Nossos gastos com educação e saúde, em porcentagem do PIB, foram respectivamente 6,24% e 11,8%, maiores que dos outros países. Será que nesses países a educação e a saúde são piores do que no Brasil?

O desafio que se nos oferece é muito grande. Falta entendimento quanto a um projeto nacional de desenvolvimento com equidade, da exploração sustentável de nossas raríssimas riquezas, do investimento no homem.

Um observador menos avisado, olhando para o que ocorre no Brasil, nos dias de hoje e há muito tempo, ficará imaginando que são dois países distintos, em planetas diferentes, tal a quantidade de desacertos e desencontros verificados quotidianamente.

Terminamos perguntando como a banda de rock Legião Urbana:

“Nas favelas, no Senado
Sujeira pra todo lado
Ninguém respeita a Constituição
Mas todos acreditam no futuro da nação

Que país é esse? Que país é esse? Que país é esse?”

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Arlindo Pereira de Almeida

Economista.

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