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Campina Grande - PB

Que é isto, a crônica?

22/08/2016 às 12:22

Fonte: Da Redação

jose-marioPor José Mário da Silva*

A crônica é um gênero anfíbio da literatura. Tem a alma do jornalismo e o espírito da arte literária, e faz da tensão permanente entre esses territórios, o seu peculiaríssimo jeito de ser e de não ser, simultaneamente. Com a precisão analítica e a força poética que lhe norteiam os pronunciamentos críticos, Eduardo Portella afirma que a crônica é tanto imediatismo circunstancial quanto apelo à transcendência. É tanto o aqui e agora, perecíveis, quanto o lá e o mais além, o infinito de todas as ultrapassagens semióticas. A crônica é o entrelugar da linguagem, a assumida (des)classificação da palavra em seu aventureiro e libertário mergulho no caudaloso oceano da existência.

Humilde como o mendigo e opulenta como o monarca, ela nunca hesitou, mesmo quando enxotada por uma teoria literária tão elitista quanto inconsistente em suas duvidosas conceituações, em exibir os segredos e credenciais do seu retumbante êxito público: a incontornável literariedade de que impregnam as suas sempre anticanônicas formulações. Para Machado de Assis, exímio cultor do gênero em tela, “o cronista é como um colibri, beija um assunto aqui, outro ali”. Ainda com o Bruxo do Cosme Velho, aprendemos que “a crônica é um animal urbano, ainda não domesticado; e que os cronistas são os beneditinos da história mínima”.

Distante da historicidade portadora de sopro épico, inerente ao cronicário regiocêntrico da Renascença, a crônica literária moderna alimenta-se das migalhas do cotidiano, das aparentemente imprestáveis sobras do real, “da vida ao rés do chão”, conforme a lúcida e poética expressão adotada por Antonio Candido. A crônica, segundo doutrina a ensaísta paraibana Elizabeth Marinheiro, “repropõe normalmente os conceitos do real. Sugere uma discussão sobre as normas da mimese, enquanto categoria central da arte. Da observação à invenção. Da imitação à desrealização. De sua subordinação ao empírico ou de sua disponibilidade para o imaginário, o processo mimético tenderá sempre para a ambiguidade”. Sinuosa e serpentinática, lúdica e poética, enamorando-se de todos os gêneros, mas não assinando pactos de compromisso dogmático com nenhum deles, senão consigo mesma e com a sua maneira adoravelmente malandra de ser, a crônica opera em constante curto-circuito da linguagem, em cujas zonas fronteiriças e transdialéticas, a vida, como preconiza Cecília Meireles em imortal verso, “a vida só é possível reinventada”.

É por tudo isso que tenho uma enorme dificuldade em conferir o solene título de cronista a qualquer pessoa que põe na face branca do papel, as suas supostas impressões acerca do multifário espetáculo do que na falta de melhor rótulo chamamos de realidade. Impressões que, lição basilar da arte literária, precisam se transformar em expressão linguística inteiriça, amálgama de som e sentido, forma simbólica geradora de multiplicadas possibilidades de significação. Fora desse patamar, longe desse polissêmico estatuto de configuração estética da linguagem, o que há são meros escrevinhadores do óbvio, para os quais, dominantemente pragmática e sem beleza de espécie alguma, a palavra empregada jamais alcança aquela superior condição de “um milagre da linguagem”, de acordo com o acertado dizer do poeta/crítico Antonio Morais de Carvalho.

(*) Docente da UFCG/Ensaísta, membro da Academia Paraibana de Letras

 

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