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Quaresma, tempo de Conversão

Padre José Assis Pereira. Publicado em 17 de fevereiro de 2018 às 11:40

Por Padre José Assis Pereira

O Evangelho de São Marcos (cf. Mc 1,12-15) neste Primeiro Domingo da Quaresma nos apresenta uma versão abreviada, mais muito densa, das tentações sofridas por Cristo. Diferente de Mateus e Lucas, Marcos não diz nada sobre o conteúdo dessas tentações: limita-se apenas a dizer que: “O Espírito levou Jesus para o deserto. E ele ficou no deserto durante quarenta dias, e ali foi tentado por satanás.” (vv. 12-13)

Este episódio está carregado de símbolos que necessitam ser decodificados, para entender melhor a mensagem. O mesmo Espírito que desceu sobre Jesus no batismo (cf. Mc 1,10), é o que o conduz ao deserto para ser tentado antes de iniciar sua missão. O “deserto” é na teologia de Israel, o lugar privilegiado da experiência do encontro com Deus; foi no deserto que o povo experimentou o amor e a solicitude do Senhor e foi no deserto que Deus propôs a Israel uma aliança. Pela boca do profeta Oséias, Deus mesmo disse que seduzirá a sua amada, quer dizer, o seu povo eleito, levá-la-á ao deserto e lhe falará ao coração. Contudo, o deserto é também o lugar da “tentação”; Foi no deserto que Israel sentiu várias vezes, a tentação de abandonar o Senhor e seu plano e seguir outros caminhos.

Igualmente o número “quarenta” é simbólico e dá origem à palavra “quaresma”, está associado na Bíblia a experiências espirituais intensas: Os quarenta dias do dilúvio; historicamente Israel viveu no deserto quarenta anos até chegar à terra prometida; os quarenta dias que Moisés permaneceu no monte Sinai diante de Deus para receber as tábuas da lei; os quarenta dias que o profeta Elias caminhou antes de chegar ao monte Horeb. Na sua catequese Marcos fala então da semelhança do povo de Deus com o tempo que Jesus necessitou para preparar seu anúncio do reino.

Esta experiência deste tempo no deserto parece reescrever os primeiros capítulos do Gênesis, como se nos quisesse sugerir que com Jesus a história se escreve de novo e de maneira positiva. Jesus marca um novo começo. Como no paraíso, também no deserto há harmonia entre o homem e a natureza: No deserto Jesus “vivia entre os animais selvagens, e os anjos o serviam.” (v. 13) Isso parece indicar que durante o tempo em que Jesus esteve no deserto não viu e não teve contato com pessoas, mas com feras, anjos e demônios.

O pensamento dos mestres daquele tempo era que, quando o Messias chegasse, nasceria um mundo harmonioso, sem violência e sem conflitos, onde até animais ferozes viveriam em paz com as pessoas, como havia profetizado Isaías. Seria o regresso à

harmonia e ao plano original de Deus para o ser humano e para o mundo.

Em Jesus não há ruptura entre o céu e terra. Ele é o verdadeiro “Adão” que não sucumbe à tentação da serpente e vive em harmonia com a criação, não hostil mais submetida. Os seres julgados inferiores ao homem, os “animais selvagens”, lhes estão sujeitos e os superiores, “os anjos”, estão ao seu serviço.

Mas, como no Gênesis, também satanás intervém para tentar arruinar tudo, para introduzir a ruptura, para tratar de separar Jesus do Pai. Ainda que nada possa arrancar dele a serena certeza de que o Pai o ama e nunca o abandona. Jesus como novo Adão, vai confrontar-se com “o tentador”. Toda vida humana passará pela prova da tentação. A tentação é a possibilidade sempre presente de abrir as portas a forças que se opõem ao projeto fraterno de Deus.

O primeiro Adão foi tentado quando desfrutava da abundância do paraíso; Jesus foi tentado quando permanecia na austeridade do deserto. O primeiro Adão caiu, arrastando atrás de si toda humanidade; Jesus venceu, salvando a todos os que se unem a Ele. Satanás saiu derrotado. Desta vitória de Jesus depende nossa salvação.

No inicio desta Quaresma todos os cristãos estamos convidados a acompanhar espiritualmente Jesus no deserto. Retirar-se ao deserto significa enfrentar-se a sós consigo mesmo e naturalmente fazer uma revisão crítica de nosso modo de ser, reorientar nossa vida, superar as tentações do “homem velho”: egoísmo, ambições, ânsia de poder e de domínio, soberba.

Do deserto Jesus sai para começar sua missão evangelizadora. As palavras com as quais, segundo Marcos, Jesus inaugura o seu ministério público são: “O tempo já se completou e o reino de Deus está próximo. Convertei-vos e crede no Evangelho!” (v. 15) O evangelho de Marcos propõe um cristianismo mais radical, mais conforme as origens. É um evangelho exigente: quer acabar com as desculpas de que “sempre fizemos assim”, “o que todos fazem”, “amanhã o farei”… Jesus espera e pede a conversão que deveria começar por dar uma volta em nosso modo de viver habitualmente a nossa fé. Quase todos nós a vivemos em um contexto que favorece a posturas acomodadas. Habituamo-nos a nos proteger com a escusa de que “somos assim” e “não é possível mudar nada”. Mas o evangelho quer nos sacudir, quer nos provocar a nos desinstalar.

Portanto, a quem Jesus chama a conversão? Esta questão merece ser examinada, não será que inclusive nós, os próprios sacerdotes, estejamos pensando que a conversão não nos pertence, nem que temos necessidade alguma dela? “Com efeito, é tempo de começar o julgamento pela casa de Deus. Ora, se ele começa por nós, qual será o fim dos que se recusam a crer na Boa Nova de Deus?” (1Pd 4,17)

Converter-se significa transformar mentalidade e comportamentos, assumir uma nova atitude, reformular valores que orientam a própria vida. É reequacionar a vida, de modo a que Deus passe a estar no centro da nossa existência e ocupe sempre o primeiro lugar.

Converter-se, foi dito com profunda verdade, “é descentralizar-se de si, para centrar-se em Deus” (T. Chardin) isto é, não sermos indiferentes a Deus, nem aos irmãos e colocá-lo naquele centro de convergência dos pensamentos, sentimentos e intenções que é ocupado em geral, pelo nosso “eu”. “Eu penso assim”, “o meu projeto”, “é assim que eu gosto”, “é assim que eu julgo” etc.

Na perspectiva de Jesus, não é possível que esse mundo novo, harmonioso, de amor e de paz se torne uma realidade, sem que renunciemos ao nosso fechamento ou autossuficiência e passemos a escutar a Deus e as suas propostas. Conversão e adesão ao projeto de Jesus, conversão e fé são faces de uma mesma moeda, não se podem separar na construção de uma mulher ou de um homem com uma postura inteiramente nova. Aí sim, teremos um mundo novo, o reino.

Enfim, a conversão é antes de tudo uma obra da graça de Deus que reconduz nossos corações a Ele. Mas esta graça tem que ser acolhida para que se dê uma verdadeira conversão. Ninguém pode converter-se por própria iniciativa. No livro das lamentações lemos estas palavras: “converte-nos a Ti, Senhor, e nos converteremos” (Lm 5,21). Deus dá-nos a força de começar de novo.

A conversão é uma tarefa de toda nossa vida. Jamais poderemos sentar-nos a descansar dizendo a nós mesmos que já nos convertemos. Cada manhã temos que retomar o caminho da conversão, temos que reorientar nossa direção até Deus. A fé também é, em primeiro lugar, um dom. Tem muitos aspectos. Um deles é a adesão total a Deus, é entregar-se de coração a Deus; é confiar nele; é aceitar seus planos, seus critérios, seus tempos,… é acolher sua Palavra, pô-la em prática, é fazer sua vontade.

A Quaresma pode ser um tempo decisivo para voltar para Deus, para avançar na conversão e para fortalecer nossa fé, especialmente num mundo em que é crescente a indiferença a Deus e a falta de fé.

Os artigos postados no Paraibaonline expressam essencialmente os pensamentos, valores e conceitos de seus autores, não representando, necessariamente, a linha editorial do portal, mas como estímulo e exercício da pluralidade de opiniões.

Padre José Assis Pereira

* Padre José Assis Pereira Soares é párcoco da Paróquia Nossa Senhora de Fátima, no bairro da Palmeira.

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