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Quaresma, dias de deserto

Padre José Assis Pereira. Publicado em 9 de março de 2019 às 13:46

“A Quaresma do Filho de Deus consistiu em entrar no deserto.” (Papa Francisco)

Há lugares que deixam marcas. Lugares que associamos a momentos de felicidade vividos ali, a encontros, pessoas, sentimentos ou sensações positivas. E há outros espaços que nos evocam experiências não tão boas. Esses lugares, de uma ou outra forma, se convertem em reveladores, adquirem vida e significado próprio, e ocupam um papel definitivo em nosso caminho. Voltamos a eles com frequência, tanto se o que vivemos ali foi agradável como se resultou doloroso. Em todo caso sempre supôs uma mudança, uma oportunidade de crescimento e superação que merece ser recordada.

Em todas as culturas o “deserto”, espaço físico onde se toca visivelmente a solidão, tem um papel importante. É o lugar das grandes decisões, de onde não se esquece e marca com uma impressão profunda.

No Antigo Testamento, podemos perceber que o deserto é um lugar de escuta. Em meio ao Sinai, Deus falou a Moisés; por quarenta anos, uma geração inteira se constitui como povo que tem a certeza de ser escolhido e conduzido por um Deus bom e providente que lhes deu uma “Lei”. Nesse espaço de silêncio e escuta, o presente se abre a um futuro dando-lhe um sentido definitivo. Tudo o que aconteça será interpretado a partir dessa experiência decisiva. A ideia de pessoa, de povo eleito e de Deus adquirem para sempre a marca do que se experimentou no deserto.

Na tradição bíblico-judaica nem sempre é o deserto, entendido geográfica e fisicamente, com suas rochas, suas areias áridas, suas extensões ingentes e nuas onde tudo morre, que impõe a reflexão e a sensação do nada do ser humano, forçado a buscar com suplicante fadiga algum oásis, onde a vida ofereça algo de verde ou algum riacho nascente.

No árido, Israel congregou a todos no tabernáculo, local da habitação do próprio Deus entre seu povo. Guiados pela vontade divina, seus filhos mais diletos foram ao deserto. Para o deserto vão os filósofos, os chefes carismáticos de povos, como Abraão, Moisés, Davi; os profetas do antigo Israel, João Batista, o Messias e os “Padres do deserto”; os profetas de grandes religiões, como Buda, Confúcio, Maomé.

Vão ao deserto todos os que sentem o impacto psicológico moral e espiritual do mundo. Para lá foram despidos de tudo e todos, apenas para ouvirem suas vontades e mandatos divinos. O profeta Oséias resumiu isso quando escreveu: “Eis que eu a atrairei, e a levarei para o deserto, e lhe falarei ao coração”. (Os 2,14)

A concepção veterotestamentária do deserto não é em absoluto ascética. O deserto não é a fuga da tentação (nele se é mais tentado do que em qualquer outro lugar). Também a busca de local propício ao recolhimento é aspecto marginal. Jesus se retira para o deserto antes de tudo para escapar do messianismo demagógico que as multidões, sob a direção do diabo ‒ quer dizer, o que divide ou separa – pretendem impor-lhe enquanto as multidões e o diabo tentam fazer que Deus coincida seu plano com a vontade do homem, Jesus quer que o deserto seja o símbolo do espaço infinito que separa Deus do homem pecador. Esta distância só é superada através do lento caminho da fé.

O que primeiro se ressalta na perícope evangélica deste I Domingo da Quaresma (cf. Lc 4,1-13) é a ação do Espírito na vida de Jesus: “Jesus cheio do Espírito Santo, voltou para o Jordão, e no deserto, ele era guiado pelo Espírito. Ali foi tentado pelo diabo durante quarenta dias.” (vv. 1-2) Ele se deixou conduzir pelo Espírito a todas as partes, também ao deserto para preparar-se para sua missão. Como Ele, também nós, que temos recebido o mesmo Espírito em nosso batismo, temos que nos deixar conduzir em todo momento. A Quaresma é um tempo propício para escutar o Espírito, para atender a seus chamados, para examinar nossas resistências.

Jesus era um homem real e verdadeiro; por isso não só não devemos estranhar o fato de que Ele foi tentado, mas sim estranharíamos se não houvesse sido. Talvez o deserto para Jesus não foi apenas um lugar. Sua existência inteira se encheu de espaços de solidão e silêncio, de tentação  e questionamentos. Suas decisões se foram amadurecendo pouco a pouco. O deserto de Jesus crescia na profundidade da vida interior. E ali ia percebendo uma presença que lhe permitia avançar tomando decisões. Sentiu fome e era mais que comida o que desejava… Conheceu o mal, aguentou, perseverou. Lutou e se atreveu a caminhar por rotas desconhecidas. E completou o caminho, chegando à meta. No deserto, poderíamos dizer, Jesus se fez verdadeiro homem, verdadeiro Deus.

Todos nós, homens e mulheres, temos tentações ao longo de nossa vida e, como verdadeiros discípulos de Cristo, temos de lutar contra elas e, com a graça de Deus, vencê-las. Também para nós a vida é, em muitos momentos, um deserto, quando não vemos ao nosso lado a ninguém que esteja disposto a estender-nos uma mão e quando nosso presente e nosso futuro se apresentam cheios névoas e de escuridão.

As tentações estão dentro de nós mesmos e ao nosso redor. Levantamo-nos carregados de sonhos e debilidades, passamos o dia evitando obstáculos e dificuldades e chegamos à noite sem saber com consciência como amanheceremos o dia de amanhã. Tentações físicas, psicológicas, econômicas e sociais. É verdade que nem todos os dias são assim, mas também é verdade que são muitos os dias e os tempos nos quais as coisas não marcham como nós quiséramos que marchassem.

Ao olharmos dentro de nós mesmos, no mais profundo de nosso ser, encontramos debilidades e incertezas que não nos permitem crer-nos tão bons como nos veem nossos melhores amigos; se olhamos ao nosso redor vemos corrupção política, desigualdades econômicas insuportáveis, ambição e egoísmos a torto e a direito. Vale a pena seguir e prosseguir lutando para ajudar ao mundo a ser um pouco melhor, ou é preferível escutar o diabo, e dedicar-nos a comer e a beber, a mandar e a dominar, a buscar o aplauso fácil e a acomodação pessoal e social?

O diabo e os muitos demônios interiores e exteriores que povoam nosso espaço vital nos tentam a todas as horas. Que fazer? Imitemos a Jesus, Ele tem a certeza de que passe o que passar, haja o que houver, o Pai seguirá sendo seu único refúgio. Jesus não abandona esse refúgio por nada do mundo.

Jesus enfrentou a tentação agarrando-se fortemente ao Pai, centrando-se em sua Palavra. Jesus não entrou em diálogo com o tentador, se limitou a citar umas palavras do livro do Deuteronômio. Em sua passagem por essa terra o alimento primeiro de Jesus era fazer a vontade do Pai. Sem a Palavra que vem de Deus e que alimenta nosso espírito nos embrutecemos, nos desumanizamos. Os cristãos necessitamos alimentar-nos cada dia dessa Palavra, não só em momentos pontuais. Só Deus pode saciar todas nossas fomes.

Resulta assim lógico que Jesus recorra a Escritura para defender-se das tentações. Ante a tentação se fizeram realidade em Jesus as palavras de são Paulo (cf. Rm 10,8-13): “A palavra está perto de ti, em tua boca e em teu coração”. Do coração e dos lábios de Jesus brotou de modo espontâneo a Palavra oportuna que lhe ajudou a vencer a tentação.

“Não deixemos que passe em vão este tempo favorável! Peçamos a Deus que nos ajude a realizar um caminho de verdadeira conversão. Abandonemos o egoísmo, o olhar fixo em nós mesmos, e voltemo-nos para a Páscoa de Jesus; façamo-nos próximo dos irmãos e irmãs em dificuldade, partilhando com eles os nossos bens espirituais e materiais. Assim, acolhendo na nossa vida concreta a vitória de Cristo sobre o pecado e a morte, atrairemos também sobre a criação a sua força transformadora.” (Papa Francisco, mensagem para a Quaresma de 2019)

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