Fechar

Fechar

Psicopatia na Política e no Poder

Léo da Silva Alves. Publicado em 14 de maio de 2017.

*Por: Léo da Silva Alves

Dizem que a política é podre. Não é verdade. Podre é o caráter daqueles que não a dignificam.

Recentes episódios a envolver protagonistas da política nacional autorizam, como oportuno, retomar o debate sobre o reflexo da psicopatia na política e no poder. Não se trata de diagnóstico de psiquiatra, mas de uma aferição sob a ótica de professor de direito, com magistério voltado a questões de medicina legal e psicologia forense. Esse é um tema que tem conexão com a ciência jurídica, porque o direito não é uma sala hermética: é um grande salão, que abre suas portas para recepcionar todos os saberes. E sociologia, medicina e psicologia são sempre convidadas de honra nesse amplo espaço de conhecimento e debate.

Comenta-se que a política é podre. Não é verdade. Podre é o caráter daqueles que não a dignificam. Política é a arte de bem servir o povo; sem política, há conflitos; dos conflitos, vem a guerra. E político é aquele que tem sensibilidade, não para angariar votos a qualquer preço, mas para perceber as alegrias e as dores da sua gente.

Ao se relacionar psicopatia com política e poder, não se está a afirmar que todo poder seja necessariamente corrompido e que a política seja, sem exceção, um espaço do qual as pessoas honestas devem se afastar. Não! Pessoas íntegras estão em todos os lugares, assim como psicopatas que, pela natureza daninha, buscam esses cenários para tirar proveito. Exatamente por isso é importante conhecer esse perfil, para que ele não domine o ambiente do bem.

Sendo a política autêntica a arte de servir o povo, ela é algo que os doentes morais, os narcisistas destrutivos e os psicopatas institucionais não conseguem praticar – isso porque a natureza não os favorece. Eles fazem parte de um universo de 4% da população mundial com desvios de personalidade.

Em breves tintas, tenha-se em conta quem é o indivíduo psicopata. A sociedade costuma associar esse desequilibrado aos autores de crimes brutais ou aos famosos serial killers. Esses são raros. Não se conhece mais de 50 ou 60 criminosos dessa índole em todo o país, mas somente o Brasil deve ter dois milhões de psicopatas em outras categorias E um deles pode ser nosso vizinho ou pessoa da nossa relação mais íntima.

Há três níveis de psicopatia:

  • Elevado – é o criminoso sádico, aquele que mata. O prazer está exatamente no sofrimento alheio. E, nesse quadrado, aparecem o Maníaco do Parque em São Paulo, um alucinado em Goiás que matou catorze inocentes; e assim se avança para Uday Hussein al-Tikriti, filho de Saddan Hussein. Esse moço, morto aos 39 anos de idade, entre tantas brutalidades, em um banquete oferecido à primeira dama do Egito pessoalmente assassinou o provador de comidas por pura diversão. Esse é o perfil do psicopata no nível mais elevado.

  • Na outra extremidade emerge o psicopata leve. Geralmente é uma pessoa simpática, conhecida no meio policial como o clássico “171”. Não é violento. É um vigarista que vive de pequenos golpes: o golpe do vigário, o golpe do bilhete premiado; o golpe do filho inválido, para arrancar uma ajuda de dez reais de uma alma bondosa. E – não será difícil considerar – até o empregado que mente costumeiramente; inventa doença da mulher, acidente com a sogra, a morte do cunhado etc. Tudo para faltar ou deixar o serviço antes do horário. E assim ele leva a vida acreditando que é a pessoa mais esperta do mundo.

  • Por fim, dentro do objeto destes apontamentos, há o psicopata em nível moderado. Apesar da moderação, é o que mais impacto causa no segmento social. Esse indivíduo, presente em grande número, é aquele que vive do deslumbramento, da busca incessante de dinheiro e poder. Em altos escalões da República, às vezes em ministérios, em cargos de diretoria em empresas públicas e bancos oficiais, por exemplo, não é raro encontrar um e outro. Ele não tem interesse em prejudicar Fulano; não é esse o foco. O foco desse psicopata é lograr para si o máximo de serventia. No entanto se for indispensável passar com um rolo compressor sobre a cabeça de uma pessoa, ele avança, sem remorso. É desprovido que se chama “freio inibitório”.

Esses psicopatas, portanto, estão instalados nas grandes organizações, sejam públicas ou privadas. Buscam o topo; tramam o tempo todo. São indivíduos invariavelmente inteligentes e charmosos. Sobretudo, hábeis manipuladores.

Nos estudos acadêmicos de psiquiatria e medicina legal, o psicopata moderado apresenta pelo menos algumas das seguintes características:

– Aparência sedutora e boa articulação, mas lhe falta confiabilidade. O que ele diz, não escreve; se ele escreve, não assina; se ele assina, jura que a assinatura é falsa.

– Possui desprezo para com a verdade. O psicopata mente de forma contumaz. E é curioso: logo esquece a mentira. Ele é bom de mentira, mas ruim de memória, isso porque memorizar algo depende de emoções.

– Também se identifica a falta de remorso ou culpa. Para o psicopata, a culpa é sempre dos outros. À sua ótica, ele é um perseguido. Por isso não é raro uma personalidade, acuada com acusações objetivas e provas contundentes, insistir que tudo não passa de perseguição política. E, nessa linha, cria inimigos imaginários, como “eles”, os “adversários”, os “inimigos do povo”, algo abstrato, mas que apresentado com requintes de encenação, faz com que ingênuos acreditem na ladainha.

– O psicopata nunca se arrepende. Quando o faz, não é pelo dano que causou: é pelas consequências que está a experimentar. Alguém na chamada República de Curitiba deve estar arrependido, não pelo dinheiro que tirou da educação e da saúde de milhões de brasileiros, mas por estar confinado (com outros três presos) em uma cela de 16m2 e não poder desfrutar do palacete ou da cobertura que comprou com o produto da corrupção.

– O psicopata tem uma autoavaliação superestimada. Ele é o bom, é o melhor, quiçá o único. Não aprende com os erros e não melhora com a experiência. Não é como o vinho, que fica melhor com o tempo. Por isso os psicopatas têm condutas repetidas. Praticam uma fraude aqui e são apanhados; daqui a um mês ou daqui a três anos, estão a refazer a mesma coisa. No episódio do Mensalão teve gente investigada, indiciada, denunciada, processada, condenada e presa. E essas pessoas continuaram a praticar os mesmos delitos no caso que ficou conhecido como Petrolão. Pode algo assim? Para o psicopata é normal.

Hugo Marietan, médico-psiquiatra argentino e professor na Universidade de Buenos Aires, em entrevista ao jornal La Nación, fez a relação entre a psicopatologia e os políticos do seu País. Disse o psiquiatra: “Uma característica básica do psicopata é que ele é um mentiroso, mas não é um mentiroso qualquer. É um artista. Mente com a palavra, mente com o corpo. Atua.”.

É verdade. O psicopata pode, inclusive, fingir sensibilidade. Até chora. Comove. Não tendo sentimentos próprios, ele mostra extraordinária habilidade para mexer com o sentimento dos outros. E as pessoas acreditam nele uma, duas, e muitas vezes, porque ele tem um extraordinário poder de convencimento.

O argentino afirma: “Outra característica é a manipulação que faz das pessoas. Em torno do dirigente psicopata se movem pessoas que querem satisfazê-lo. São indivíduos subjugados”; e diz o psiquiatra que inclusive pessoas de bom nível intelectual ficam adormecidas, como por encanto.

É pacífico que o líder psicopata não avalia os cidadãos como titulares de direitos, mas os considera como coisas, porque ele sempre trabalha para si, ainda que em seu discurso diga tudo ao contrário. É arenga comum, nesse meio, alguém falar que só está na atividade política por amor ao povo, mas que aquilo lhe representa enorme sacrifício pessoal, ou lorotas desse tipo. Faz parte do jogo. O psicopata vê os indivíduos como simples instrumentos. Todos à volta existem para a satisfação dele, e alguns o fazem como se estivessem sob o efeito de hipnose.

Quando o psicopata trata bem, não é um exercício de carinho: é parte do seu jogo de comprar vontades, de neutralizar consciências, o que faz com desenvoltura.

Perceba-se ainda o seguinte: um dirigente qualquer tem noção de temporalidade; sabe que deve cumprir a sua função durante um tempo, porque a vida é um círculo, a roda gira e a fila anda. Uma pessoa normal, portanto, executa a missão e vai embora. Olha as flores do seu jardim; viaja com a sua companheira de tantos anos; dedica-se aos netos; põe-se a ler, para manter a inteligência viva. O psicopata, não. Uma vez que está acima, ninguém pode tirá-lo e ele almeja cada vez mais. Arrasta o poder até o túmulo. Nem a doença o afasta, porque do leito de hospital ele manipula seguidores ou lidera comparsas.

Isto não quer dizer, logicamente, que todos os políticos ou todos os líderes sejam psicopatas, mas sim que o poder é um ambiente onde eles se movem como peixes na água. Como o psicopata busca deslumbramento e poder, ele vê na política uma forma natural de tirar proveito da fragilidade e das necessidades das pessoas. E ali coloca em ação as suas principais habilidades: a mentira e a capacidade de manipular.

A origem

Com o breve traçado sobre quem é o psicopata, resta apontar o que pode ser a psicopatia. Alguns acreditam que o mal surge na infância, mas a tendência que prevalece é que esse padrão comportamental está no DNA. A pessoa nasce com esse contorno de personalidade. Para a neurociência, trata-se de um transtorno que tem a sua origem no cérebro, em um dano no córtex pré-frontal.

Há também sinalizadores de influência da amígdala. Não se confunda com as amígdalas palatinas, que são tecidos que protegem a faringe: a amígdala em referência se localiza no cérebro, é composta de uma massa cinzenta com cerca de dois centímetros de diâmetros e ali está o centro regulador do comportamento agressivo e das respostas emocionais, impulsivas. E o córtex pré-frontal, por sua vez, é a parte do cérebro responsável pelos sentimentos.

Essas duas estruturas no cérebro, que regulam o comportamento social e a emoção, parece não se comunicarem como deveriam – é a explicação mais aceita, com base em imagens de ressonância magnética. Sendo algo fisiológico, não adianta punir ou ameaçar um psicopata. Ele nasce e morre com a mesma disposição. Por isso, especialmente na política, é preciso ter a sensibilidade para não ser vítima ou instrumento dessas personalidades doentias, dessas criaturas que fazem parte de um padrão anômalo e que tantas desgraças causam ao povo e ao País.

*Léo da Silva Alves é jurista especializado em responsabilidade de agentes públicos, professor convidado em Escolas de Magistratura, Escolas de Governo e Academias de Polícia. Advogado em Brasília, autor de 45 livros e conferencista com atuação na América do Sul, Europa e África. (leoalves@terra.com.br)

Os artigos postados no Paraibaonline expressam essencialmente os pensamentos, valores e conceitos de seus autores, não representando, necessariamente, a linha editorial do portal, mas como estímulo e exercício da pluralidade de opiniões.

Léo da Silva Alves

Jurista, autor de 45 livros sobre ética e responsabilidade de agentes públicos.

falecom@fhc.com.br

Simple Share Buttons

2018 - Paraiba Online - Todos os direitos reservados.

BeeCube