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Primeiros escritos

Ailton Elisiário. Publicado em 12 de setembro de 2016 às 23:52

Por Ailton Elisiário

Os escritores quando indagados sobre suas primeiras obras às vezes manifestam suas relações com elas, exprimindo seus sentimentos do passado vistos sob o julgamento do presente. Em geral, essas obras foram escritas senão quando da fase adolescente de suas vidas, de pouca vivência, pois em processo de formação, as foram em épocas mais avançadas da vida, embora com mais experiência, mas sem a prática literária capaz de burilar visões da realidade.

Há aqueles que confessam que jamais escreveria aqueles poemas ou prosas, fazendo questão até de esquecê-los, como se jamais os tivesse escrito. É o caso, por exemplo, de Coelho Neto, Príncipe dos Prosadores Brasileiros, que tendo escrito Rapsódias confessa que jamais o escreveria se tivesse de fazê-lo novamente, pois era pensamento de um jovem de apenas 15 anos de idade. Há aqueles que afirmam sempre revisitam seus escritos, como Sérgio Pinto, que em O Cristal dos Verões reproduziu poemas do seu primeiro livro Gestos Lúcidos, já que não tem por hábito relegar ao segundo plano o que escreve. E há aqueles que reescrevem os textos primeiros, aplicando-lhes modificações buscando melhorá-los em suas reapresentações.

Eu deslizo a pena sobre o papel desde a minha juventude. Hoje, a pena é um teclado e o papel a tela de um computador. Nas folhas ou na tela as ideias correm segundo o pensamento, traduzindo a visão do momento. Mas, não costumo me arrepender do que escrevi, rasgando a folha de papel escrita ou deletando o texto digitado. Às vezes, tomo o que escrevi e o coloco em outro texto, tal qual lá está ou mesmo modificado, conforme a necessidade.

Mas, o que é importante não é o que foi escrito e sim o conceito daquilo que ali se encontra descrito. E conceitos se alteram no tempo segundo as transformações da sociedade, que lhes dão novas conotações. É o caso de um texto da minha juventude que guardo em meus arquivos, para apontar-me a profunda mudança de época de minha vida, que não ouso sequer mostra-lo e muito menos divulga-lo. É que embora quando o escrevi aquele era o meu conceito e mais até, um conceito coletivo, o que seria possivelmente interpretado como injúria se hoje fosse publicado, passível que seria talvez de responder a processo judicial por isto.

Este sim, jamais ousaria dar-lhe publicidade, embora não me arrependa de tê-lo escrito, porque assim não era interpretado à época de sua elaboração. Apenas afirmo isto para demonstrar como quem escreve, ou mesmo fala, pode ser mal interpretado ou mesmo vítima de má fé, quando uma sua assertiva é retirada de um contexto específico para fazê-lo valer noutro contexto determinado, se lhe deturpando o pensamento.

Quem escreve, mormente o escritor, deve ter grande responsabilidade com o que escreve, não só pelo que possa transmitir, mas também pela utilização do que escreve em espaço inadequado ou sem as devidas ponderações. Quem escreve produz efeitos e efeitos têm consequências, portanto, se se deve ter cuidado no falar, muito mais ainda no escrever.

 

Os artigos postados no Paraibaonline expressam essencialmente os pensamentos, valores e conceitos de seus autores, não representando, necessariamente, a linha editorial do portal, mas como estímulo e exercício da pluralidade de opiniões.

Ailton Elisiário

O autor é economista, advogado, professor da Universidade Estadual da Paraíba e membro da Academia de Letras de Campina Grande.

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