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Primeira Seccional Pen da Paraíba – Um marco de Campina Grande (Parte II)

José Mário. Publicado em 29 de abril de 2017 às 12:25

Por José Mário da Silva (*)

O Clube Pensamento/Estudo/Nacionalidade – Primeira Seccional PEN da Paraíba é uma das melhores realidades da vida cultural de Campina Grande nos tempos do agora. Um agora que, de maneira mais efetiva, há mais de quatro anos vem frutificando nos horizontes da Rainha da Borborema, notadamente no horizonte dos que querem pensar: pensar a vida, o real, a linguagem, o fascinante e complexo enigma da existência, objeto das candentes reflexões de Joseph Campbell em seu clássico livro O Poder do Mito.

Ancorado no porto da Informalidade em Busca do Conhecimento, substancializado pela perquirição de um saber lúcido, leve e lúdico, a Primeira Seccional PEN da Paraíba já se constitui numa inafastável referência das cenas e cenários de Campina Grande, com ressonâncias visíveis em outras geografias de nossa congênita paraibanidade.

Com pauta aberta para todas as linguagens que tecem, destecem e entretecem o cotidiano; sem nada exluir, antes acolhendo, nas asas da dialogicidade contumaz, o numeroso e multiplicado espetáculo do mundo, a Primeira Seccional PEN da Paraíba reencontrou-se com a comunidade campinense no último dia vinte e quatro do mês de abril do ano em curso. Música, Liderança e Literatura Popular protagonizaram a reflexão da ótima tarde/noite agenciada na aprazível ambiência da FIEP – Federação das Indústrias do Estado da Paraíba, fundamental parceira do ser/fazer da Primeira Seccional PEN da Paraíba.

Na parte introdutória do reflexivo encontro, Darcy Lélis, ao lado do talentoso músico Erivânio, brindou os presentes com a maviosa interpretação de dois clássicos da Música Popular Brasileira, emergidas da inteligência criadora de Ari Barroso e Lamartine Babo; e do paraibano Genival Macedo, respectivamente. “No rancho fundo bem pra lá do fim do mundo e Meu sublime torrão” constituíram-se no intertexto musical emblematizado pela mais alta qualidade estética, a que se acumpliciou, convém reiterar, a competência de uma interpretação segura e convincente de dois talentos de nossa sempre Grande Campina.

O jovem Mateus França, apoiado em Abraham Maslow, Hunter, dentre outros teóricos convocados para a sua argumentação, discorreu com muita propriedade sobre a natureza, os fundamentos e as implicações práticas, para a sociedade, de uma liderança genuína, a que é verdadeiramente vocacionada; por isso mesmo, disposta a se doar, irreservadamente, em favor da coletividade, da qual o líder brota e para cujos superiores interesses deve estar permanentemente voltado. Do contrário, o que teremos é o pântano tenebroso da inautenticidade insuportável, consubstanciada na famosa sentença proferida por Millôr Fernandes: “desconfie sempre do idealista que lucra com o seu ideal”. E há muitos por aí…

Refletindo, tecnicamente, sobre a liderança, com especialidade a que se gesta no vigoroso território da juventude, Mateus França estabeleceu pertinentes vínculos com a triste realidade política vivenciada por nosso país nestes tão dramáticos e desventurados tempos. Realidade essa matizada, dentre outros aspectos constitutivos, pela quase completa ausência de lideranças intelectualmente preparadas; moral e eticamente inatacáveis; e, por fim, verdadeiramente comprometidas com o bem comum e com um projeto de Brasil fincado nos parâmetros de uma cidadania digna, feita para o usufruto de todos, e não para o desfrute privilegiado de alguns.

Horácio de Almeida é a performatividade em ação, a escritura popular aderente a uma visão sarcástica do país dos desmandos chamado Brasil; tudo conduzido por uma tonalidade visceralmente paródica, risível, não raro roçante do escracho mais ostensivo, notadamente quando incursiona pelo código do erotismo mais picante. Nas mãos de Horácio de Almeida, a literatura popular caminha pelas sendas da imaginação mais delirante, pródiga em fazer da história oficial o palco privilegiado de todas as reinvenções possíveis.

Adeildo Pereira, Professora de Língua Portuguesa da Universidade Federal de Campina Grande e exímio músico, com apaixonada e assumida militância em prol do cultivo e da divulgação do choro, encarregou-se de dissertar sobre a Música; e o fez com singular competência. Distinguindo a música propriamente dita, encarada em sua ontológica materialidade sonora, da canção, arte híbrida consorciadora de sonoridade e letra, o Professor Adeildo Pereira mostrou-se versátil na abordagem que promoveu, suscitando em dado momento, em face dos posicionamentos epistemológicos adotados, saudável polêmica com alguns presentes.

Na parte final da sua exposição, o Professor Adeildo Pereira incursionou, mais detidamente, pelo território do choro, gênero musical do qual ele é tanto um primoroso intérprete quanto um incansável divulgador, sendo inclusive líder do Baú de Chorinho, Grupo Musical que a pouco e pouco vem escrevendo a sua história na História mais ampla do maravilhoso gênero musical intitulado choro. E, unindo teoria à prática, o Professor Adeildo Pereira, ao lado de dois excelentes instrumentistas, enlevou a plateia presente com uma linda execução do choro “Naquele Tempo”, uma das obras-primas do inesquecível mestre Pixinguinha que, se vivo estivesse, estaria completando cento e vinte anos de existência.

Refletindo, discutindo, debatendo, a Primeira Seccional PEN da Paraíba faz história e, mais do que isso, é história nos luminosos e pensantes signos de Campina Grande.

(*) Docente da UFCG, membro da Academia Paraibana de Letras

Os artigos postados no Paraibaonline expressam essencialmente os pensamentos, valores e conceitos de seus autores, não representando, necessariamente, a linha editorial do portal, mas como estímulo e exercício da pluralidade de opiniões.

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