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Porque um dia em Campina choveu saudade

Ribamildo Bezerra. Publicado em 16 de julho de 2016 às 10:17

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* Por Ribamildo Bezerra

Se Gene Kelly vivo estivesse e pudesse mais uma vez Cantar na Chuva não haveria melhor local do que Campina Grande. Pensava nisso enquanto tamborilava os dedos na direção do carro, diante de um tráfego lento, a coroar a Avenida Floriano Peixoto com pérolas vermelhas, luminosidade que se intercalava de forma compassada a cada novo freio entre os automóveis.

Mesmo às onze e meia da manhã, Campina parecia um fim de tarde, tamanho o denso lençol nebuloso que insistia em cobrir a cidade.

Sentia-se um flaneur, uma pessoa que degusta a cidade, um estrangeiro em seu próprio habitat, como já definiu Charles Baudelaire. Se despia naquele instante da paixão que sentia pela Rainha da Borborema. Era consciente muito além do glamour daquele mês junino, dos problemas que escoavam no ralo da responsabilidade civil e pública; da presença já vulgarizada da insegurança nas ruas, roubos já sem força de crédito e registro nas Delegacias, homicídios que mais servem para o acréscimo frio de uma estatística crescente que só aponta o quanto a vida tem se banalizado ultimamente. E agora uma crise hídrica, há muito sinalizada, na triste desproporção de uma região que cresce, a consumir água de um açude assoreado pela irresponsabilidade política em sua sede tacanha do poder pelo poder. Como na história, sempre houve exceções, e elas sempre fizeram a diferença, ainda que pouca, Campina continuará Grande porque se faz menor dentre tantas estrelas.

A buzina do carro atrás, de pronto o retirou daquele estágio de torpor. Avançava poucos metros, a chuva intensificava, voltava a se embaçar apaixonadamente no aconchego coletivo que tomava conta da população naquele instante. Nos abrigos das esquinas e das praças, as pessoas iam esquecendo-se do tempo, esperando a chuva passar e nesse meio período vão falando sobre si mesmas sem pudor algum, conhecendo mais umas sobre as outras.

Era tão mágico aquilo, que uma cena a mais viria brindar, aquele momento. Dois ‘soldados’, duas frentes de ‘batalha’, comungando um só guarda-chuva. Dois torcedores, um do Treze Futebol Clube, outro do Campinense, unidos pela solidariedade evidente por cada metro quadrado daquele cenário.

Há sete anos afastado do seu ninho, fazia um tour obrigatório por Campina, e se via materializado afetivamente a cada esquina da cidade. Mesmo contando história de outro grande centro com suas belas praias e bom humor, distante 627,0km, 8 h 34 min, nunca perdeu o Planalto da Borborema de vista.

Do Capitólio e do Babilônia, a saudosa memória dos dois cinemas centrais. De quando era guiado por seu pai pelas mãos para as matinês, e de cara era recebido por seu Lívio Wanderley, com seu indefectível paletó, que nunca soube definir ao certo se era marron ou cinza. A parada na banca de revista antes de cada sessão, tinha como objetivo duplo, rever o amigo Gilson e pegar a Veja da semana. Dalí para as sessões ‘bacurau’, onde adorava desfrutar já na maioridade do bate-papo, onde o filme se estendia entre análises e críticas junto aos amigos, dividindo a conhecida pizza de prato, pelas mãos do afro pizzaiolo campinense ‘Jipão,’ no Cantinho Lanches de Gilson, com direito a uma Coca litro de garrafa, e dinheiro para o último ônibus da linha 111.

Reviu o Teatro Municipal Severino Cabral, e lembrou o orgulho que sentiu ao ler estampado no Diário da Borborema, o elogio proferido, lá para o final da década de 80, da atriz Elizabeth Savalla, “Uma das melhores acústicas para um teatro no país”. Não entendia por que nunca se fez daquela ‘embocadura de flauta’ arquitetônica uma universidade para atores, dando a dignidade acadêmica necessária para tantos talentos na cidade, que hoje vivem “emprestados” a vários ramos, órfãos do seu próprio palco. Nomes sempre latentes vinham na memória: Hermano José, Álvaro Fernandes, Eneida Agra Maracajá, Evandro Barros. Gente que o forjou no ofício de contar histórias.

Seu voo, marcado para 15h30min, no João Suassuna, era o lembrete de que nada naquele instante poderia ser desperdiçado. Sentia o gosto prévio da saudade. Não possuía mais laços parentescos com Campina. A morte o deixava como coadjuvante na cidade que soube lhe criar, mas que também possuía o seu lado madrasta. Guardava no cheiro da camisa o perfume do flerte remanescido do passado, sua companhia na noite anterior, naquele hotel, que já teve um dia Roberto Carlos como hóspede. Sempre ao fim de cada encontro se despedia com a frase jargão ‘nada que não dure uma eterna Saudade’. Campina era assim, lembrança nas mentes alheias…mas não preservava memórias. Achava este o lado escuro da lua. No almoço, na 13 de Maio, o cheiro de chuva no asfalto, apetecia ainda mais a vontade de sorver aquele vinho tinto. Na mesa ao lado reconheceu seu professor e orientador sobre a tese acadêmica que o “catapultou” para o estado vizinho do Ceará, o histórico da imprensa campinense. Rendeu frutos em outras agremiações acadêmicas. Sentiu orgulho e gratidão. Seu trabalho tinha função social. Registros. Memórias. O telefone sob a mesa, a duas horas do voo. A ligação do aeroporto, viagem cancelada pelo mau tempo. Mau? Riu irônico. Mais um dia em Campina, ou um dia a mais na sua vida. Pensou em ligar para ela, preferiu não…para certos sentimentos ‘nada que não dure uma eterna saudade’.

A chuva insiste em cair e a magia toma conta da cidade. Gene, Campina é só poesia em dias assim, pensou.

*Jornalista

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Ribamildo Bezerra

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