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Campina Grande - PB

Porque escolhi o PMDB

09/12/2016 às 22:19

Fonte: Da Redação

foto: arquivo pessoal

Léo da Silva Alves

 

Pode soar estranho, em pleno escarcéu institucional, imaginar-se como oportuna ou sensata a adesão a uma legenda aparentemente encardida. Mas torno público: ingressei nos quadros do PMDB neste mês de dezembro, quando a sigla completou 36 anos, e o fiz à margem de qualquer relação com o governo. Apesar do terreno que se apresenta alagadiço, firmei-me na avaliação da história, no estudo do programa e na visão de que o partido pode ser a base do desenvolvimento nacional, independentemente do atual contexto e apesar dos que, por um ou outro pecado, desonram não a legenda, mas a calça que entrajam ou a blusa que vestem.

Como toda opção, esta é uma escolha de controvérsias, mas “as ideias não são metais que se fundem”, disse Gaspar Silveira Martins, o tribuno do Império. Não ostento o monopólio da verdade, nem o domínio dos maiores saberes. Percebo, sim, que a fragilizada democracia brasileira cobra ações – certas ou equivocadas, desde que providas de boa vontade.

Faço apontamentos, com reminiscências e prospecções. O Partido do Movimento Democrático Brasileiro chegou ao poder duas vezes, em ambas por meios travessos. Assumiu a Presidência da República em 1985, com José Sarney, diante da repentina enfermidade e morte do presidente Tancredo Neves, eleito indiretamente pelo Congresso Nacional, e, recentemente, com Michel Temer, em face da cassação do mandato da presidente Dilma Rousseff. Não conheceu, todavia, a glória de ser diretamente escolhido para ser protagonista na magistratura da nação. Desde 1998, sequer tem candidato próprio.

O PMDB experimenta, na verdade, uma situação ambígua: a depender do ângulo de análise, é um gigante ou um pigmeu. A sua grandeza vem de memoráveis lutas, marcadas por episódios e personagens dignos de registros nos livros de ouro da história; e a isso se agrega a fenomenal capilaridade, estando presente em todo o território nacional. É o maior partido político do país, com quase 2,5 milhões de filiados; governa Estados que representam mais de 30% do Produto Interno Bruto; tem o maior número de prefeitos, vereadores e deputados estaduais e possui a maior representação no Congresso Nacional. Apequenou-se, no entanto, pela leniência ética, na medida em que deixou que a lama da corrupção também entrasse nos seus umbrais. Não foi o único: 44% dos partidos políticos com registro no Tribunal Superior Eleitoral têm gente das suas hostes com as digitais nos escândalos que vieram à tona com o Mensalão e que se arrastam até hoje, com sucessivas operações policiais.

É interessante, todavia, que se separem pessoas e legendas; que não sejam confundidas peripécias individuais e ideais programáticos. Condutas perniciosas de alguns não são necessariamente representativas de uma entidade com projeção nacional. Desprezem-se, dessa forma, os que se apropriaram de cargos e mandatos para se misturarem aos vendilhões do templo, para constituírem fortunas particulares em desarmonia com a miserabilidade de milhões de irmãos. Esses são pobres diabos; espíritos sem luz, beócios que ainda não entenderam que o poder acaba quando a porta da cadeia é aberta ou quando o caixão é fechado à beira da sepultura. Os partidos políticos, como todos os segmentos da sociedade, têm na sua composição 4% de indivíduos nesse perfil, que a psiquiatria indica como débeis de caráter. Como a tendência natural dos indivíduos acometidos dessa personalidade disforme é se concentrar na cúpula, porque vivem de deslumbramento, a sociedade tem a percepção de que o percentual é mais significativo. Não o é. A maioria somos nós.

As novas gerações, desiludidas no desabrochar da vida, têm o direito à memória do que foi o PMDB, como têm direito à informação das suas propostas que continuam viáveis, de relevo para o Brasil – e que não são necessariamente as mesmas do governo ora exercido em seu nome.

Registre-se, nessa linha, que se está a falar de um movimento que iniciou informalmente com a sigla MDB em 4 de dezembro de 1965, para fazer contraponto à ditadura militar que se instalara no Brasil. Como tal, foi o único abrigo para os pensamentos libertários ou divergentes que ficaram marginalizados pela extinção compulsória dos seus respectivos partidos. Nos seus quadros, desfilaram vultos que dignificariam o patrimônio moral de qualquer país, a se exemplificar: Ulysses Guimarães, Tancredo Neves, Paulo Brossard, André Franco Montoro e Teotônio Vilela.  Pedro Simon, remanescente dessa escola de brio, aplaudido em pé, despediu-se do Senado Federal aos 84 anos de idade depois de três décadas de honrados mandatos. Esse é o nível a ser preservado; esse é o perfil de pessoas públicas que o Brasil precisa resgatar.

As brasileiras e os brasileiros, compreensivelmente descrentes dos partidos e da política convencional, podem – e devem – cobrar que as legendas cumpram os compromissos firmados e registrados no Tribunal Superior Eleitoral. Os partidos são custeados pelo Fundo Partidário, que é fundamentalmente dinheiro do contribuinte, dividido todos os meses entre as diversas siglas. No que tange especificamente ao PMDB, cumpre-me apresentar referências do estatuto e do programa do partido:

  • A afirmação da “forte relação que existe entre a realização das aspirações populares e a existência do Estado democrático”;
  • A promessa de que o “PMDB quer organizar e representar uma ampla base social: a grande massa trabalhadora urbana e rural, os quadros técnicos e profissionais liberais, os empregados dos escritórios e das empresas, os servidores públicos, os empresários e proprietários da cidade e do campo”;
  • A lição sobre “a importância do realismo, da verdade e da honestidade no jogo político democrático”;
  • A assertiva de que “o PMDB não pretende, em absoluto, manter o Estado tal e qual ele se encontra, servindo aos interesses de uma minoria, marcado pela ineficiência das ações governamentais, pela irracionalidade administrativa”;
  • A compreensão de que “o povo é o sujeito, o fundamento e o fim de todas as instituições e das medidas econômicas, sociais e políticas. Não pode ser considerado mero objeto, coisa ou instrumento da economia, do Estado”;
  • A sinalização de que o “PMDB continuará movendo implacável combate à corrupção (…) apoiará também as iniciativas da comunidade em resguardo do erário e do interesse público”.

Não há distância entre o PMDB e aquilo que o Brasil precisa; a diferença reside na atuação de pessoas, o que é substancialmente distinto. Recusem-se neste – e em qualquer partido político – os que não louvam a deferência da representação popular e ignoram, por completo, as diretrizes que deveriam seguir. E que, com o mesmo ímpeto, abram-se as portas para novas alternativas. Em um universo de 140 milhões de brasileiros aptos a votar e a serem votados, seguramente há a prevalência de gente capaz e honesta.

A cidadania não pode ser reduzida ao número de CPF e ao registro na Justiça Eleitoral. Os cidadãos, em uma sociedade verdadeiramente democrática, são os protagonistas da história do seu país. Por essas razões, decidi carregar não o peso morto da invalidez moral de alguns, mas a dignidade de uma bandeira que ainda poderá ser posta, sem se ter vergonha, ao lado do pavilhão nacional.

*Jurista radicado em Brasília, autor de 45 livros e conferencista com trabalhos na América do Sul, Europa e África.

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