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Por uma ideologia para viver

Flávio Romero. Publicado em 30 de outubro de 2017 às 22:30

Por Flávio Romero

Será que a TV Globo agora acertou no enredo da nova telenovela que tem como focos temáticos a cobiça, a traição, a ambição, entre outros sentimentos humanos “nobres”?

Talvez, o “Ibope” seja bem maior e as violentas e ácidas críticas sejam bem menores do que as que foram direcionadas à telenovela que se findou, recentemente, e que trouxe à tona os dramas de uma pessoa transgênero, que fez um rito doloroso de passagem na afirmação da sua identidade.

Para iniciar, não quero apenas citar parte dos Versos Íntimos que tantas vezes me fizeram refletir sobre o sentido da vida ou sobre o irremediável destino que une todas as criaturas, face à finitude marcada por um futuro imprevisível. Mas, Augusto, sempre dos Anjos, pontua poeticamente a impressão que tenho de uma sociedade em que grande parcela se nutre em cultivar a intolerância, o preconceito e a discriminação. Vociferam, à semelhança de “feras”, contra princípios dos Direitos Humanos, historicamente conquistados, inclusive pelo sangue de tantos homens e de tantas mulheres, nos diversos recantos do mundo: “O Homem, que, nesta terra miserável, mora entre feras, sente inevitável necessidade de também ser fera”.

Não se trata de combater ideias. Não se trata de fundamentar princípios. Não se trata de se contrapor aos que “agridem os valores morais” e as “tradições religiosas”, pondo em perigo os fundamentos agregadores das famílias brasileiras. A questão é bem mais complexa. É a onda da intolerância, tentando fazer com que muitos, inclusive pela desesperança nascida da realidade política, econômica e social do país, sintam a “inevitável necessidade de também ser fera”. No mundo das “feras”, sobrevivem os “mais” fortes. É disso que se trata: esmagar os “fracos” – brasileiros e brasileiras que foram por séculos, submetidos à exclusão e a invisibilidade social. Brasileiros e brasileiras que foram (e ainda são) vítimas de profunda discriminação e de marcante preconceito.

No mundo das “feras”, qual o lugar reservado ao pobre? E aos negros? E aos homossexuais? E às pessoas transgêneros? Para citar alguns grupos que ao longo da história da nossa gente sofreu (e sofre) como vítimas do preconceito velado, da falsa moral, da hipocrisia e da discriminação, socialmente subjacentes.

Há uma clara demarcação no mundo das “feras”. Uns querem construir uma sociedade alicerçada no respeito às singularidades e às diferenças, sob a égide dos Tratados e Convenções Internacionais e da Constituição Federal de 1988, que traz como fundamentos da República Federativa do Brasil e consequentemente, do Estado Democrático de Direito, a dignidade da pessoa humana.

Outras “feras”, que se sentem fortes, querem reforçar, fundamentados na intolerância, no preconceito e na discriminação, as marcas de uma sociedade que historicamente excluiu, segregou e criou guetos de invisibilidade para tantos brasileiros e brasileiras, que não se enquadravam (ou ainda não se enquadras) nos padrões socialmente estabelecidos.

Portanto, não se trata de debater ideologias. A questão é fazer que nasçam na selva da intolerância mais “feras” fortes – abater e aniquilar as supostamente “fracas” – aí reside o grande equívoco dos avatares da moralidade e dos bons costumes.

Não se trata de estrategicamente criar uma ideologia (de gênero) que sequer existe enquanto preceito normativamente positivado para combater, por múltiplas trilhas, estudos que “quebram” a visão de gênero tradicional, fundamentado no binômio sexo/gênero que, inclusive, historicamente serviu para determinar o espaço de subalternidade que cabia às mulheres na sociedade, inclusive quanto à divisão social do trabalho.

Não confundem os sentidos de sexo (biológico) de gênero (constructo social) por pura ignorância ou por desconhecimento científico. Não defendem suas ideias por não saberem diferenciar sentidos próprios das ciências biológicas de outras leituras, fundamentadas nas ciências sociais. Há muita inteligência nesta onda de intolerância. Estas “feras” sabem como revisitar posturas fascistas para tentar fortalecer a alcateia das “feras” fortes – mais um engano.

Estas “feras” sabem muito bem aonde desejam chegar. Nutrem o sentido mais perverso, matizado na frase falsamente atribuída ao italiano Nicolau Maquiavel: “os fins justificam os meios”. Mas, a selva destas “feras” não é de todo imperscrutável. Não se mantêm impenetrável ante as primeiras ameaças da razão e do bom senso. Há uma ideologia ameaçando os mais nobres valores da sociedade brasileira? De fato, há uma ideologia em curso cujos objetivos politicamente definidos se alicerçam em meios e estratégias inconfessáveis. Há uma ideologia que ameaça os alicerces do Estado Democrático de Direito: da intolerância vociferante.

Nesta reflexão, desta vez, não me inspiro nos Versos Íntimos do mais importante poeta do pré-modernismo, o paraibano Augusto dos Anjos. Hoje, não quero me inspirar no EU.

Nutro a utopia do NÓS.  Os NÓS que unem brasileiros e brasileiras. Filhos do caldeamento de múltiplas etnias. Singulares na pluralidade que compõe a formação histórica e cultural de nossa gente. Não me acostumo à lama que me espera. Mesmo entre “feras”, supostamente fortes, não sinto a necessidade de ser também uma destas “feras”.

Calma, a intolerância não romperá os Nós.

Para meu contentamento, nem tudo está perdido na nova telenovela da TV Globo.  A trama aborda temas absolutamente fundamentais: o estupro, a violência doméstica e o preconceito e a discriminação. A personagem Clara é estuprada na lua-de-mel, acoberta o crime do marido e passa a viver uma relação de violência doméstica sem limites. Por outro lado, a personagem Estelinha sofre preconceito da própria mãe por sua pequenez anormal do tamanho com relação à média dos indivíduos da mesma idade e sexo.

Clara e Estela ocupam no “Outro lado do Paraíso”, o lugar reservado a tantas outras “personagens” do drama da vida real que muitas vezes contribuímos por inviabilizá-las socialmente, face aos nossos preconceitos, fortemente arraigados.

Nem tudo está perdido, inclusive na telinha da hegemônica!

 

Os artigos postados no Paraibaonline expressam essencialmente os pensamentos, valores e conceitos de seus autores, não representando, necessariamente, a linha editorial do portal, mas como estímulo e exercício da pluralidade de opiniões.

Flávio Romero

* Educador.

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