Fechar

logo
logo

Fechar

Por um sono saudável

Flávio Romero. Publicado em 30 de setembro de 2021 às 18:11

Recentemente, durante uma conversa após um treino matinal, a temática central foi a minha hiperatividade (diagnóstico de uma das companheiras de atividade física) ou, ainda, a minha característica incomum de dormir muito pouco. Aliás, neste aspecto, é pertinente explicar: desde adolescente que durmo muito pouco. Sou exceção à regra de dormir em média 7 a 8 horas.

Ao longo desse tempo, desde que tomei consciência dessa condição de “notívago em potencial” que lido com naturalidade com essa situação. Afinal, durante toda a vida de intensa atividade laboral, jamais fui prejudicado (será?) por acordar cedo por dormir pouco. Comumente, despertava vivíssimo e pronto para as longas jornadas.

Durante anos, o meu alento era saber que diversas celebridades mundiais também dormiam pouco: o poeta e dramaturgo inglês William Shakespeare e escritor e poeta irlandês Oscar Wilde – apenas para citar dois gênios que dormiam pouco.

Poderia citar outros exemplos, mais recentes: o ex-presidente americano Barack Obama ou o ator George Clooney. Pelo que eles representam, valeria a pena dormir pouco. No entanto, fiquei triste quando soube que Donald Trump também fazia parte desse grupo.

É sabido que essa ideia que associa dormir pouco às pessoas geniais e criativas não tem nenhum fundamento científico. Deve ter sido uma narrativa criada por algum “notívago em potencial” (como eu) para justificar seu relógio biológico atípico.

Como biólogo, apaixonado pelas coisas do “mato”, também passei muito tempo justificando o fato de dormir pouco a certas “fenômenos” da natureza. Por exemplo, as aves aproveitam o amanhecer, bem cedinho, para gastar as energias com o canto. Se os pássaros cantam cedinho, é porque o certo é acordar cedo – estava estabelecido mais um enredo explicativo à luz das minhas experiências como biólogo.

Mas, com o passar dos anos e já “beirando” as seis décadas, a situação do meu sono tem se alterado. Antes, dormia pouco. Mas, dormia bem. Agora, durmo pouco e de forma fragmentada. Por outro lado, agora na condição de recém aposentado, deveria aproveitar todo o tempo para dormir o que não dormi nas últimas três décadas. Mas, o que fazer?

Já me prescreveram a melatonina que é um hormônio produzido pelo nosso organismo, mais precisamente pela glândula pineal. Segundo os estudiosos, a melatonina é liberada no início da noite, quando cai a iluminação natural, porém tem um pico de produção maior algumas horas após o anoitecer, promovendo o início do sono. Assim, a prescrição previa um “ritual” bem específico – tomar a drágea, ir para a cama cedo e desligar as luzes. Qual o resultado? Um efeito rebote – passei a não dormir.

Também sugeriram que eu tomasse chá de valeriana, de erva-cidreira ou de camomila antes de dormir, pois, talvez, a falta de sono no horário regular, decorresse de ansiedade. Qual foi o resultado? Dormi ainda menos, pois o chá me obrigava a levantar da cama para fazer “xixi” várias vezes.

Assim, como cheguei à conclusão que dormir pouco não é coisa nem de gênios criativos e nem de pássaros silvícolas, decidi ativar a minha curiosidade científica para pesquisar alguns estudos sobre o sono e a saúde.

Juro para vocês que inicialmente me arrependi…

Em matéria jornalística publicada pelo The New York Times, em 23 de abril do ano em curso, se informa que pesquisa científica que acompanhou pessoas com mais de 50 anos por vários anos, sugeriu que aqueles que dormem menos de 6 horas por noite têm maior probabilidade de desenvolver demência ao final dos 70 anos. Ou seja, depois de mais de três décadas de atividades laborais profícuas, apesar de dormir pouco, estou fadado, probabilisticamente, a ficar demente aos 70 anos?

Outros estudos indicam que dormir pouco compromete a saúde mental, a saúde cardiovascular, o metabolismo e a imunidade. Portanto, além de demente, estou, probabilisticamente, fadado a ficar “pirado”, com insuficiência cardíaca e com sérias possibilidades de apresentar ganho de peso, fadiga e dificuldade em realizar tarefas simples, como consequência da lentidão no metabolismo.

Segundo estudos também abalizados, outras consequências podem ser relacionadas à privação de sono, a exemplo da diminuição da resistência à dor, a diminuição da força muscular, o aumento da inflamação, o aumento das chances de ter AVC’s, além da depressão e da ansiedade.

Enfim, lendo tantos estudos, juro para vocês que perdi o sono!
Penso que o primeiro enfrentamento para dormir o tempo necessário e com suficiente qualidade é mudar a rotina e os costumes – mudar o estilo de vida. É preciso entender o sono como uma prioridade na vida. No meu caso, o sono sempre foi encaixado numa agenda laboral apertada que me obrigava (em tese) a dormir cada vez menos.

Hoje, não por estar aposentado penso diferente – o certo deveria ter sido: estabelecer o sono regular como prioridade e a agenda de trabalho e o “resto” que se encaixassem nessa prioridade.

Mas, talvez, mesmo não sendo um especialista em sono, as leituras me levaram a pensar num tripe para permitir essa mudança de estilo para alcançar o sono regular e com qualidade, a saber: mudança na rotina, atividade física e cuidados alimentares.

O primeiro é estabelecer uma rotina de sono, mantendo a regularidade de se deitar e de se levantar sempre na mesma hora, garantindo as 7 ou 8 horas. A intenção é “forçar” o corpo se adequar a uma nova rotina, facilitando que se alcance o estágio de sono mais profundo e relaxante. Neste sentido, se trata de reorientar o tal relógio biológico.

Quanto aos hábitos alimentares, na hora do jantar (ou da ceia) o ideal é ingerir alimentos leves e de fácil digestão. Ao evitar a sensação de “peso” no estômago se pode garantir a melhor qualidade do sono. Aliás, do ponto de vista metabólico, ao ingerir alimentos “pesados” antes de dormir, a pessoa “obriga” que as energias orgânicas sejam direcionadas para a digestão ao invés de serem “canalizadas” para garantir um estado de vigília (sono) saudável.

É sabido que quem pratica atividade física consegue dormir mais rápido, relaxar, descansar e ter um sono mais profundo e com maior qualidade, além de se sentir mais disposto no dia seguinte. Sem contar que as atividades físicas regulares facilitam a obtenção de um peso saudável que tem impacto direto na qualidade do sono. Ao fazer atividades físicas regulares, o corpo alcança a homeostase que é a estabilidade que o organismo necessita para realizar as funções adequadamente, inclusive do sono.

Uma outra dica é desacelerar no fim do dia. Quando se aproxima a hora de dormir, tanto o corpo quanto a mente carecem que se estabeleçam as condições para o necessário descanso – nada de muitas luzes e nem de usar computador ou celular no tempo que antecede o horário estabelecido pela rotina para dormir. Se preparar adequadamente para a hora de dormir é a principal atitude para se garantir um sono saudável. Ficar atento aos horários e evitar o uso de aparelhos eletrônicos, como dito anteriormente, é uma estratégia fundamental no processo.

Também é sugerível ouvir uma música relaxante, ler um livro, meditar ou até fazer alongamentos – qualquer uma dessas ações que funcione para você. Por fim, quero confessar para todos e todas – não está sendo fácil mudar a minha rotina. Mas, estou me esforçando… quem sabe não chego aos 70 anos livre das “mazelas” anunciadas nos diversos estudos e pesquisas que li, recentemente, após a conversa recente, após um certo treino matinal.

Share this page to Telegram

Os artigos postados no Paraibaonline expressam essencialmente os pensamentos, valores e conceitos de seus autores, não representando, necessariamente, a linha editorial do portal, mas como estímulo e exercício da pluralidade de opiniões.

Mais colunas de Flávio Romero
Flávio Romero

* Educador.

[email protected]

Arquivo da Coluna

Arquivo 2018 Arquivo 2017 Arquivo 2016 Arquivo 2015

2018 - Paraiba Online - Todos os direitos reservados.

BeeCube