...

Campina Grande - PB

Por onde andam os intelectuais?

10/09/2016 às 8:13

Fonte: Da Redação

ribamildo-556x417-556x417

*Por Ribamildo Bezerra

Tamborilando os dedos sobre a comprometida bancada de madeira o intelectual de bigodes espera que o tempo de uma hora seja finalizado para o acesso de outro cliente em sua Lan House. A fila de espera não é grande, mas a febre dos sites de relacionamento tem potencializado os hormônios da juventude daquela periferia. Como bom pensador, definiu muito bem as regras de sua Lan, material pornográfico era totalmente proibido ali. Sugeria alguns sites interessantes para a galera pesquisar, prometia não cobrar a mais, casos aqueles internautas de fraudas buscassem conhecer tais espaços, mesmo que ultrapasse o tempo pago. Mas não tinha jeito o Facebook, e o Whatsapp eram imbatíveis. Não era ele que iria mudar o mundo real, nem tampouco o virtual. Olhava para o relógio, e como para justificar a si mesmo, falava em voz alta: “Para acabar com esse calor, somente uma cerva gelada”. Era hábito. Do apurado do dia, pelo menos o dinheiro de três locações era investido no seu “Diazepan” de lúpulos. A cerveja gelada era o ‘pit stop’ esperado dentro de sua rotina. Aprendeu a ver o mundo de forma positiva, assim, com simplicidade. Sua rebeldia intelectual era anarquista. Por trás daquele atendente de blusa cavada e chinelo de dedos, existia um pesquisador, desse que desde cedo apreendeu com seu pai, o bom gosto pela música e pelas letras. Não nasceu para disseminar filosofias ou construir linhas de pensamento, gostava mesmo de admirar o belo, estivesse ele representado num texto, numa frase, numa pintura. Pouco entendido pelos mais próximos, gostava mesmo é de comungar o que sabia, de forma espontânea com a turma do sábado, formada em grande parte pelos amigos, que viviam a reclamar o de sempre, sobre a vida modorrenta, o sexo sem sal, e o prazer de estar longe de casa num dia de faxina como aqueles. A cada encontro sempre tinha um livro na gaveta para oferecer aos confrades. Mesmo sabendo da recusa, fazia questão de oferecer ao grupo meio que para reafirmar que se qualquer dias desses uma revolução acontecesse ali, ainda que de forma íntima na vida daqueles soldados brancaleonicos, sabia, tinha co-responsabilidade . Era um revolucionário incorrigível

————-x ————-

Justo na quinta garfada naquele rodízio de pizza a intelectual com nariz de palhaço, já não se sentia mais ridícula. Não por que estivesse um arremedo de clown, mas por que já não se sentia mais sozinha. O acaso naquela apática noite de terça-feira numa celebração insípida, mas absolutamente justificada, acabara de lhe trazer uma agradável surpresa. Sorriu, e diante daquele inesperado interlocutor lembra que apenas falou com ar entre os dentes: “O acaso realmente não existe”!

Apaixonava-se facilmente por um bom cérebro, principalmente quando percebia que o mesmo lhe provocava cócegas em seus neurônios. Rir para ela era sempre o melhor sinal de que uma boa história de amizade estava para começar.

Conversaram sobre muitas coisas, cinema, música, livros e arriscaram até algumas piadas. Todo assunto poderia ser compreendido pelo pipoqueiro da esquina, a harmonia entre os dois não exigia nada mais do que a verdade naquele encontro fortuito.

Ao final da noite, optou por não aceitar nenhuma carona, inclusive a dele. Preferiu se perder no meio do caleidoscópio formado pelas luzes da cidade que na velocidade frenética do último ônibus da rota, naquele horário, fazia com que ela se perdesse nas lembranças daquela noite singular.

    1. Ao chegar em casa depois de um banho demorado, preparou um chá e decidiu assistir pela décima vez o filme italiano Pão e Tulipas do Silvio Soldini . Em muitos instantes a solidão era a sua melhor companhia.

________________________________________X______________________________________

Ninguém entendia muito bem, o que existia por traz daquele ritual maluco. Em dia de feira o farmacêutico era o primeiro a chegar, antes mesmo do sol dar as suas caras por aqui .Como de hábito abria seu estabelecimento e repetia algumas vezes a musica Claire de Lune do Compositor Francês Debussy, até que o primeiros raios do dia o trouxesse de volta do leve transe em que se encontrava para a rotina de mais um dia intenso trabalho.

Há mais de trinta anos naquele estabelecimento. Muito se sabia dele, sujeito refinado , com bom humor, mas que vez o outra naquele ambiente onde o povão se encontrava vinha com umas palavras esquisitas de um português pra lá de antigo. Sentia-se bem assim. Seu refinamento não era piegas, como também não era comum para aquele ambiente. Trazia para aquela manhã , um sorriso enigmático no rosto. Algo percetível aos olhos dos demais feirantes. Não fosse um leve mal estar estomacal justificado pela quebra de um promessa, nunca mais frequentar um rodízio de pizza. A menina com nariz de palhaço passava a ser na verdade a melhor metáfora sobre a idéia de almas gemeas a qual ja tinha uma opinião formada. O farmacêutico sabia que as lembranças da última noite de tão saudosas já justificava a irresponsabilidade gastronómica. Se julgando velho demais para crises de paixonites agudas, aproveitou o ensejo para concluir o livro de crônicas do Artur da Távola ‘DO AMOR, ENSAIO DE ENIGMA’. Era assim que tudo funcionava, uma coisa impulsionava a outra. Só foi difícil controlar o riso em meio ao despache de uma aspirina a uma cliente visivelmente vítima das dores de cabeça nas manhãs de sábado, no meio daquilo tudo tinha esquecido de advertir a sua ‘alma gêmea” para lembrar de tirar o ridículo nariz de palhaço antes de subir no ônibus. Estalou a palma da mão na testa como se tivesse esquecido alguma coisa lá nos fundo da farmácia e foi rir mais a vontade. Com celular na mão ligaria para seu confidente amigo, do outro lado da linha o intelectual da Lan House iria ouvir uma historia de final sui generis.

*Jornalista

Veja também

Comentários

Simple Share Buttons