...

Campina Grande - PB

Poetas e versejadores

09/09/2016 às 11:26

Fonte: Da Redação

jose-marioPor José Mário da Silva*

Da metodologia indutiva adotada por Aristóteles em sua fundamental Poética ao paradigma ético e prescritivo postulado por Platão em sua monumental República. Do bifrontismo horaciano radicado nos signos do deleite e da pedagogia às teorias do sublime instauradas por Longino. Da genialidade inspirada perseguida pelos idealistas românticos à literariedade revolucionária teorizada pelos formalistas russos do início do século vinte. Das impertinências conceituais de Jean Cohen aos acoplamentos vincados por Samuel Levin. Dos arrazoados de Dufrenne à ensaística luminosamente poética de Octavio Paz, dentre tantas outras reflexões que se acercaram do fascinante e complexo fenômeno da poesia, uma invariante conceptual básica se impõe: poesia é estrutura linguística fundadora de polivalentes sentidos. É percepção diferenciada do real, pródiga em transfigurar o vivido e ver para bem além do imediatamente visível e detectável pela materialidade dos nossos finitos sentidos. É o consórcio bem urdido entre imagem, conceito e ritmo, de conformidade com a abordagem levada a cabo por Ezra Pound em seu clássico ABC da Literatura.

Para a imensa Cecília Meireles, “poesia é grito, mas grito transfigurado”. Em “Procura da Poesia”, emblemático poema de A Rosa do Povo, Carlos Drummond de Andrade mostra e demonstra que, mais do que uma oferenda, a poesia é resultado de uma ingente busca por parte do poeta da linguagem exata, daí a necessidade que tem o poeta de “penetrar surdamente no reino das palavras/onde estão os poemas que esperam ser escritos”. “O poema é a festa do intelecto, e não o mero transbordamento das emoções”, de acordo com Paul Valéry.

Poesia não é emocionalismo piegas e lacrimejante, nem muito menos o território empobrecido da mera confissão, carente de rigor artesanal e consciência do emprego da linguagem em estado de estesia. Poeta é poeta, versejador é versejador. O jovem poeta, que descobre dentro de si os apelos do ato/processo da criação poética, precisa antes de tudo ser um contumaz leitor de poesia e, claro, de muita teoria literária. Depois, não precisa ser consumido pela pressa para a publicação. Aqui, vale muito a pena a lição drummondiana: “convive com teus poemas, antes de escrevê-los”, que dirá publicá-los. Mais do que a entrega a uma inspiração fácil e enganosa, poesia tem de ser um exercício de transpiração no corpo movediço da palavra. É aqui que reside toda a diferença entre o poeta e o mero versejador.

(*) Docente da UFCG, membro da Academia Paraibana de Letras

Veja também

Comentários

Simple Share Buttons