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Poeta Zé Laurentino

Ailton Elisiário. Publicado em 19 de setembro de 2016 às 23:38

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Por Ailton Elisiário

Mais um dos confrades deixa em aberto a Cadeira que ocupava com tanta representatividade literária. O poeta José Laurentino, um dos maiores poetas populares do Brasil, faleceu neste dia 15 de setembro, deixando vaga a Cadeira n° 24 da Academia de Letras de Campina Grande, da qual foi fundador e que tem por patrono o sonetista Murilo Buarque. O poeta Laurentino foi investido nessa Cadeira em 31.07.1993, sendo saudado pelo confrade Evaldo Gonçalves, que tomou posse na Cadeira nº 37 nessa mesma data junto com Laurentino.

Seu velório foi muito concorrido, transformando-se numa festa de homenagens póstumas a ele prestadas por tantos e tantos poetas, cada um buscando externar o que de mais significativo estava guardado no íntimo de seus corações. Pode-se dizer que foi uma festa da poesia popular, em que os versos inundavam os discursos emocionados de seus amigos. As manifestações eram tantas que ficou demonstrado que Zé Laurentino não pertencia a esta Casa, pertencia sim, ao povo e mais intimamente ao povo nordestino.

Zé Laurentino no leito do hospital ainda fazia poesias, como a que ele ditou tal qual uma espécie de testamento, na qual incubia ao seu filho de cumprir suas últimas disposições, como a de pagar as suas contas que deixara penduradas nos botequins que frequentava. Em seu discurso de posse na Academia nosso confrade versejou: “Meus amigos quem diria/ que este moço sem escola/ que teve por professor/ o cantador de viola/ viesse sentar à mesa/ dos intelectuais/ beber o vinho da taça/ servido aos imortais”. E mais adiante ao fazer o elogio de Murilo disse: “Ah! Buarque se eu tivesse/ sido desta geração/ em que andaste cantando/ e encantando corações/ eu seria seresteiro/ sido um teu companheiro/ de bebida e violão”.

Caririzeiro de Puxinanã, nascido em 11.04.1943, fazia versos desde criança, sempre desenvolvendo sua criação poética no estilo da poesia matuta, recheada de humor caboclo. Definia-se como poeta popular que teve como base na construção dos versos os cantadores repentistas, vindo a presidir por mais de uma vez a Casa do Poeta Repentista de Campina Grande, a Casa do Cantador. Ainda em seu discurso disse: “Eu comecei fazer versos/ aos dez anos de idade/ morando no Sítio Antas/ Puxinanã, a cidade/ onde papai possuía/ pequena propriedade”. E mais: “A casinha de papai/ era feita de alegria/ abrigo dos cantadores/ vendedores de poesia/ se uma dupla chegava/ o povo se aglomerava/ estava feita a cantoria”.

Evaldo Gonçalves em seu discurso de recepção disse: “José Laurentino é um legítimo menestrel, de origens humildes, porém, com alma e coração voltados para as grandezas da vida. Seus poemas, enfeixados em cinco livros, estão de tal ordem divulgados e conhecidos que são hoje patrimônio cultural da Paraíba”. De fato, sua obra é imensa e aqui destaco: Sertão, Humor e Poesia; Meus Versos Feitos na Roça; Carta de Matuto; Na Cadeira do Dentista; Poesia do Sertão; Dois Poetas, Dois Cantares; A Grande História de Amor de Edmundo e Maria (Cordel); Poemas, Prosas e Glosas; A cama de Nobelina; Conversa com Jesus; Partida de futebol; Para tudo precisa peito.

A Academia empobreceu, Campina empobreceu, a Poesia empobreceu, com a partida de Zé Laurentino. Não teremos mais sua presença, nem dele ouviremos mais os seus versos. Somente a saudade ocupará nossos corações, guardando os bons momentos vividos em sua companhia.

Os artigos postados no Paraibaonline expressam essencialmente os pensamentos, valores e conceitos de seus autores, não representando, necessariamente, a linha editorial do portal, mas como estímulo e exercício da pluralidade de opiniões.

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Ailton Elisiário

O autor é economista, advogado, professor da Universidade Estadual da Paraíba e membro da Academia de Letras de Campina Grande.

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