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Pobre Brasil?

Arlindo Pereira de Almeida. Publicado em 3 de junho de 2018 às 22:00

O líder mexicano Porfírio Diaz (1830-1915), disse certa vez: “Pobre México, tão longe de Deus  e  tão  perto  dos  Estados  Unidos”. Parafraseando  Diaz,  poderíamos dizer:  Pobre Brasil, tão longe de Deus e tão perto dos brasileiros?

Os tormentosos dias vividos pelos brasileiros, deixam uma série de indagações e são matéria para uma profunda reflexão sobre o que somos e o que queremos ser. Qual o destino que queremos dar ao Brasil?  Qual o legado para as futuras gerações?

Inegável  que  o  Brasil  possui  um  dos  mais  altos potenciais  de  desenvolvimento  entre todas as nações do mundo, mas esse é um estado inacabado, que necessita de esforço, união  e  objetividade  nos  propósitos  e  nas ações  para  que  se  torne  algo  concreto.  O potencial  inexplorado,  ou  indevidamente  explorado,  pode  colocar  um  país  na  rota errada e não conduzir a nada.

O  fato  é  que  o  Brasil  vem  desperdiçando  as  repetidas  oportunidades  que  se  lhe ofereceram  para  promover  o  seu  desenvolvimento  em  bases  sólidas  e  consistentes, numa espécie de voo de galinha, processo de instabilidade que acontece de novo com regularidade. E os brasileiros já se acostumaram com isso, gerando uma espécie de sono letárgico; tanto faz como tanto fez!

Deixando de aproveitar as oportunidades geradas pelo último ciclo de crescimento da economia mundial, na década passada, mergulhamos na crise moral e na roubalheira sem precedentes, que não poupou nem instituições da república nem empresas.

O produto interno bruto do país, soma do que produzimos em um ano, em queda em 2015 e 2016, e que em 2017 experimentou ligeira recuperação, volta a preocupar. Em 2018, a expectativa do mercado de crescimento acima de 2,5%, sofreu duro revés como resultado da paralisação dos caminhoneiros, e aponta, agora, para número inferior a 2%.

No recente movimento dos transportadores ficou patente a incompetência do governo, num bate cabeças em busca de solução. Foram medidas de afogadilho, que demonstram total   ausência   de   politicas   consistentes.   As   soluções   encontradas   gerarão   novos problemas; é como tocar uma flauta, fecha-se um orifício e abra-se outro.  O quadro que se desenha não anima.

Não nos aludamos com a  baixa taxa de inflação, que  ainda sustenta alguma  coisa. A inflação  é  baixa,  dentre  outros  fatores  importantes,  porque  a  demanda  não  cresceu robustamente.

Qual o dever de casa sugerido para as gerações atuais? Poderíamos resumir em algumas vertentes,  cujos  resultados  satisfatórios  se  espraiariam  por  toda  a  vida  nacional  e, obviamente, sobre a economia.

1º  –  Melhorar  a  educação,  avaliada  insatisfatoriamente  por  instituições  de  todo  o mundo. Não que os gastos como proporção do PIB sejam muito baixos em relação a outros  países,  mas  o  modelo  seguido  pelo  Brasil  tem  se  revelado  ineficaz.  Estamos formando gerações e gerações de pessoas sem condições de acompanhar as exigências dos novos tempos.

2º.  Reavaliar e promover mudanças no sistema de saúde, requalificando o atendimento, evitando os desvios tão frequentes que só oneram os orçamentos públicos.

3º.  Dentre todos aos países do mundo, o Brasil tem um altíssimo nível de insegurança do cidadão, com criminalidade crescente, fato que se agrava por políticas de governo que têm se mostrado ineficazes. Cresce o número de assassinatos, principalmente de jovens, os assaltos a pessoas e instituições. O crime organizado se espraiou de forma alarmante.

4º.  No que diz respeito à infraestrutura, um dos pilares do desenvolvimento, nosso país deixa  muito  por  ser  feito,  principalmente  na  matriz  de  transportes,  profundamente comprometida  pela  falta  de  planejamento  adequado  a  um  território  com  as  nossas dimensões,   como   demonstrado   na   recente   crise. Ignoramos   o   modal   ferrovia, principalmente com o  início  de operações das montadoras de  veículos na  década de 1950.

Nossa rede de ferrovias é inferior a 30 mil quilômetros. A Rússia construiu a partir de 1891 e  inaugurou  em  1916  a  Transiberiana,  com  quase  dez  mil  quilômetros  de extensão e tem outras duas ferrovias de igual porte.

5º.   No  campo  institucional,  deve-se  atentar  para  o  fato  que  a  Constituição  Federal, inapropriadamente   chamada   de   “cidadã”,   não   confere   os   meios   necessários   ao equacionamento  das  graves  questões  nacionais.  Permitiu  o  surgimento  de  castas  no serviço público e cristalizou a desigualdade entre indivíduos e regiões.

Sob a égide do nosso estatuto constitucional é muito difícil o surgimento de uma luz no fim do túnel: aos detentores do poder, não interessa modificar.  Os nossos políticos seguem a cartilha do italiano Tomaso de Lampedusa que escreveu que “é preciso que tudo mude para continuar como estamos”.

Caríssimo  leitor.  Tem  razão  de  dizer  que  o  que  aqui  abordado  não  traz  nenhuma novidade, que já estamos cansados de saber disso. É verdade. Mas já sabemos disso há muito tempo e nada foi feito. É a banalização do mal, no exercício pouco patriótico de deixar para lá já que achamos que não tem jeito.

O  que  queremos  deixar  para  os  nossos  pósteros?   Numa  democracia  as     coisas  só mudam através da participação do cidadão, do voto. Neste ano de eleições, meditemos sobre essas verdades tão claras.

Mãos à obra. É preciso começar já.

Os artigos postados no Paraibaonline expressam essencialmente os pensamentos, valores e conceitos de seus autores, não representando, necessariamente, a linha editorial do portal, mas como estímulo e exercício da pluralidade de opiniões.

Arlindo Pereira de Almeida

Economista.

falecom@fhc.com.br

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