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Pirraçar

Jurani Clementino. Publicado em 25 de abril de 2018.

Atribuem a Dona Canô a expressão: “Ser feliz é pra quem tem coragem”. Vou parafrasear a mãe de Caetano Veloso e Maria Bethânia dizendo: o que a vida quer da gente é bravura. Transgressão é pra quem tem destemor. Os temerosos, feito eu, serão sempre esquecidos. Os transgressores não. Eles se impõem e não cedem espaço para a demonstração do medo. Vivem arriscadamente. Perigosamente.

Esses dias, estava no bar, de uma amiga minha, quando um ônibus adesivado com os símbolos da Polícia Militar da Paraíba, estacionou bem em frente ao estabelecimento. Logo em seguida, duas viaturas também chegaram e, pouco tempo depois, chegou mais uma. Dezenas de militares armados desembarcaram e invadiram o ambiente. Um grupo musical que se apresentava, teve o so interrompido imediatamente. No interior do bar, alguns clientes foram revistados. Os carros e motos que passavam na rua também eram inspecionados pela polícia. Motoristas e passageiros tinham bolsas e pertences vistoriados.

Como se desgraça pouco fosse bobagem, funcionários da Superintendência de Administração do Meio Ambiente – SUDEMA chegaram pouco depois e numa longa conversa com a dona do bar, descobriram que ela não tinha a licença do órgão para o uso do som. Resultado: numa canetada só ela foi multada em dois mil reais e assinou um termo se comprometendo em não ligar nem fone de ouvido no bar enquanto não resolvesse esse caso junto à Secretaria. Clientes lamentaram. A atração contratada ficou na frustração. Quase duas horas depois, o comboio de militares, deixou o ambiente. Nessa hora o bar já estava praticamente vazio. A dona do estabelecimento chegou pra mim e lamentou: mas professor, me multaram! Já tinha duas atrações contratadas para amanhã e depois (sábado e domingo). Escutei e, impotente diante daquilo tudo, apenas me compadeci com ela.

No dia seguinte (um sábado à tarde) resolvi, dar uma de investigador e verificar se ela cumpria a determinação judicial. Pra minha surpresa e alegria, um grupo de pagode já montava os equipamentos. Perguntei com espanto: vai ter pagode mesmo. Ela disse: professor, eu vou botar, mesmo com medo, mas vou. Compadecido, mais uma vez, parei, estacionei o carro, sentei na mesa e pedi uma cerveja. Queira ver o final daquela história. A banda tocou por três horas. Por duas vezes a viatura da Policia Militar passou em frente e fingiu que nada acontecia. Eu também fingi que não sabia de nada. Mas estava adorando aquele ato transgressor. Coincidentemente ou não, a última musica que o grupo de pagode cantou dizia em seus versos: “pirraça pai, pirraça mãe, pirraça filha, eu também sou da família, eu também quero pirraçar.” Pra quem não sabe, ou não se lembra, pirraçar significa “contrariar de caso pensado”. Corajosa e inspiradora, a minha amiga. Um beijo.

Campina Grande – sábado 21 de abril de 2018

Os artigos postados no Paraibaonline expressam essencialmente os pensamentos, valores e conceitos de seus autores, não representando, necessariamente, a linha editorial do portal, mas como estímulo e exercício da pluralidade de opiniões.

Jurani Clementino

Jornalista, Doutor em Ciências Sociais, Escritor e Professor Universitário. Autor de: Forró no Sítio (Crônicas, 2018) e Zé Clementino: o ´matuto que devolveu o trono ao rei. (biografia, 2013).

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