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Campina Grande - PB

Perdoar sempre

16/09/2017 às 16:50

Fonte: Da Redação

 

Por: Padre Assis

No domingo passado vimos que a comunidade cristã é o lugar da correção fraterna, da reconciliação  e da oração; assim reconciliada e orante ela também se torna o lugar privilegiado da presença de Jesus. Porém, realizar a reconciliação no interior da comunidade cristã requer o perdão constante e repetido.

O Apóstolo Pedro perguntou a Jesus acerca dos limites do perdão: “Senhor, quantas vezes devo perdoar se meu irmão pecar contra mim? Até sete vezes? Jesus respondeu: Não te digo até sete vezes, mas até setenta vezes sete.” (Mt 18,21-22) Sua resposta significa sempre e em todas as ocasiões; não há porque contar as vezes que se tem de perdoar, Deus não age assim.

A “revolução” que traz Jesus aos seus contemporâneos, é precisamente o amor e o perdão. A vingança era uma lei sagrada em todo o Oriente; o perdão era humilhante. Jesus rompe a lei da vingança para estabelecer o perdão total, vivido em comunidade, de forma ilimitada, absoluta, “de coração”, ou seja, no mais íntimo de nós. Deve-se perdoar até aos inimigos. É neste contexto que Jesus propõe aos discípulos a parábola evangélica dos dois devedores (cf. Mt 18,23-35).

Esta párabola conclui o quarto discurso no Evangelho de São Mateus. Ao final deste discurso da comunidade (cf. Mt 18,1–19,1) no qual Jesus fala do comportamento recíproco dentro da comunidade cristã, Ele volta a tratar, de modo detalhado, o tema do perdão. Para Pedro é evidente que os discípulos de Jesus estão obrigados a perdoar.

Ele quer saber se esta obrigação tem algum limite, e sua pergunta deixa entrever que assim é como ele pensa. Jesus lhe ensina que nunca chega o momento em que podemos dizer: “Já perdoei bastante; não estou mais obrigado a perdoar; a medida do perdão está completa para mim”. Com a expressão “setenta vezes sete”, o Mestre não quer indicar uma quantidade determinada de casos; pretende afirmar que a obrigação de perdoar não conhece limite.

A parábola é como que um drama em quatro atos: dívida, misericórdia, crueldade e justiça. Ela alarga o horizonte, assinala os motivos e desperta a compreensão de que estamos obrigados a perdoar. Para os Santos Padres, o rei da parábola representa Deus, mas é igualmente certo que o rei é e não é Deus, pois no terceiro ato da parábola, a crueldade não condiz com a misericórdia de Deus ante a dívida imensa que temos com Ele. O foco está sim no perdão entre as pessoas.

Na parábola um funcionário real, na hora de prestar contas ao rei, revela-se incapaz de saldar a sua dívida. É uma verdadeira fortuna, “dez mil talentos”, correspondia a 200.000 anos de trabalho de um operário. Esta enorme fortuna, segundo o modo de falar e pensar no tempo de Jesus, destina-se a mostrar a imensidão da misericórdia de Deus.  Não há pecado algum que Ele não perdoe, não há pecado algum maior do que o seu amor.

“Dá-me um prazo! e eu te pagarei tudo.” (v. 26) Perante a humildade e a submissão do servo, o senhor deixa-se dominar por sentimentos de misericórdia, conhece a situação desesperada do servo e tem compaixão dele perdoando-lhe a dívida impagável.

Em contraste com esta bondade inesgotável, há a mesquinhez do coração do servo, que não sabe perdoar as menores ofensas. Esse devedor perdoado, que experimentou a misericórdia do seu senhor, se recusou a perdoar um companheiro que lhe devia a ínfima quantia de “cem denários”. (v. 28)

A grave pergunta que sobressai da narração tambem nos coloca em comparação: “Não devias, tu também, ter compaixão do teu companheiro, como eu tive compaixão de ti?” (v. 33)

A parábola convida-nos então a analisar as nossas atitudes e comportamentos face aos irmãos cristãos que erram. Somos às vezes mais duros uns com os outros que Deus. Revelamos frequentemente em nossas relações interpessoais verdadeira dureza de coração. E é uma desgraça ser duros de coração.

Somos compreensivos consigo mesmo, e queremos e assim exigimos que seja Deus conosco. Ele perdoou todas as nossas faltas, mas nós não fazemos o mesmo com os outros. Não deviamos nós nos tornar imitadores da misericórdia que sempre vem ao nosso encontro. Porque somos lentos à misericórdia?

Não é facil perdoar, esquecer as ofensas, amar quem nos ofendeu ou prejudicou. Talvez por isso, Jesus tenha insistido tanto no tema do perdão. Com frequência e em passagens muito características, Jesus falou da necessidade de perdoar aos que nos ofenderam. A quinta bem-aventurança:

“Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançaram misericórdia” se refere, sobretudo, à misericórdia do perdão e anuncia o perdão aos que perdoam (cf. Mt 5,7 e 18,33). Na famosa expressão da oração do Senhor: “Perdoa-nos as nossas dividas como também nós perdoamos aos nossos devedores.” (Mt 6,12) Ao pedir a Deus o perdão de nossas culpas devemos unir esta condição: que Deus nos perdoe “só” na medida em que nós tivermos perdoado quem nos ofendeu.

Não só uma, mas duas vezes Jesus confirma a vinculação inseparável entre nosso perdão e o perdão de Deus: “Pois, se perdoardes aos homens os seus delitos, também o vosso Pai celeste vos perdoará; mas, se não perdoardes aos homens, o vosso Pai também não perdoará os vossos delitos.” (Mt 6,14-15)

Perdoar é a prova, a medida que nos permite discernir o que autenticamente aprendemos da experiência renovadora de termos sido perdoados. A Palavra que hoje escutamos coloca-nos em contato direto com o Pai e com o Filho, com a misericórdia infinita do Pai e com o amor sem limites brotado da Cruz, para que aprendamos o que significa perdoar e sermos do mesmo modo compassivos.

Ao ouvirmos esta Palavra, talvez até pensemos que estamos em paz com todos, que não temos inimigos, que não desejamos mal a ninguém. Mas para que o nosso perdão seja perfeito, como o de Deus e o nosso amor sem limites como o que brotou da Cruz de Jesus, devemos esquecer também as pequenas ofensas, as injustiças, os desaforos recebidos, as indelicadezas, as faltas de atenção. Se guardarmos um pouco de frieza a respeito de alguém, se evitamos tal pessoa, há ainda algo a fazer no caminho da caridade e do perdão. “Voltemos ao Senhor.

O Senhor jamais se cansa de perdoar: jamais! Somos nós que nos cansamos de lhe pedir perdão. Então, devemos pedir a graça de não nos cansarmos de pedir perdão, porque Ele jamais cansa de perdoar”. (Papa Francisco)

 

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