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“Pelos frutos conhecereis a árvore”

Padre José Assis Pereira. Publicado em 7 de outubro de 2017.

Por Padre José Assis Pereira

Ao longo de sua missão Jesus teve a oportunidade de sentir a rejeição a Ele e ao seu Evangelho, amadurecida no coração das elites politicas e lideranças religiosas de Israel, e ainda o perigo que a sua própria vida corria. Então Ele para melhor exprimir o sentido dessa rejeição, propõe aos seus ouvintes a “parábola dos vinhateiros homicidas” (cf. Mt 21,33-43).

Esta parábola é um desafio também para nós: Somos como uma “vinha” plantada com carinho e esmero pela mão de Deus. Ele espera de nós bons frutos. Mas nem sempre na hora da colheita, encontra Deus uvas boas. Lamentavelmente nossos frutos nem sempre são os esperados. Até que ponto aceitamos e acolhemos a mensagem do Evangelho, para que frutifique na nossa vida? Se o nosso viver não amadurecer o fruto da conversão que Deus espera de nós, Ele transferirá as suas promessas para outras pessoas mais fiéis que nós.

O Evangelho de hoje dirige nosso olhar para essa imagem, utilizada em diversos momentos pelos textos bíblicos: a figura da “vinha”, comparada desde os profetas antigos ao Povo de Deus.

A profecia de Isaías (cf. Is 5,1-7) narra o drama desta vinha, Uma história entrecortada de amor e traição, de esperança e desencanto, de ternura e misericórdia, de violência e ambição. A imagem é cativante: Deus cavou com esmero a terra e plantou boas cepas. Ele ama sua vinha, e põe esperança nela. Diz-nos o narrador, que este é o canto de amor de Deus a sua vinha. Um amor expresso não com palavras, mas com fatos concretos. É um amor que espera de nós correspondência. Da vinha Ele esperava frutos de direito e de justiça, mas só colheu violência e aflição.

O desencanto do Senhor ante a falta de frutos da vinha por Ele plantada o expressa com estas palavras: “O que poderia eu ter feito a mais por minha vinha e não fiz? Eu contava com uvas de verdade, mas por que produziu ela uvas selvagens?” (v.4)

O profeta lembra que “a vinha do Senhor é a casa de Israel, e o povo de Judá, sua dileta plantação”, por quem Deus fizera tudo. Este cântico prepara-nos para acolher o Evangelho de hoje (cf Mt 21,33-43), que também vai utilizar a mesma imagem da vinha. A parábola fala de um homem que planta uma vinha e depois a arrenda. Por meio de seus criados, e ao final por meio do seu próprio filho, ele reclama os frutos que lhe correspondam. Os vinicultores se negam a dar os frutos: maltratam os criados e matam o filho. Àquele senhor não lhe restou outro remédio que entregar sua vinha, seu Reino a outro povo que produza frutos: “O reino de Deus vos será tirado e será entregue a um povo que produzirá frutos.”(v.43)

Fica claro desde o princípio que a parábola se refere à relação entre Deus e o povo de Israel. A história da vinha é a história deste povo, a história da humanidade, a história da salvação. Jesus descreve a preparação da vinha quase que com as mesmas palavras utilizadas por Isaías em seu célebre cântico.

Mateus dirige a sua parábola não mais aos Judeus, mas aos cristãos seus leitores. Agora a vinha do Senhor é a Igreja, chamada a ser sacramento universal de salvação. Sua missão é como assinalava a “Lumen Gentium” do Concilio Vaticano II, anunciar e estabelecer o Reino de Deus, cujo gérmen se encontra já neste mundo. Para isto será possível e necessário que todos os cristãos tomemos consciência de nossa responsabilidade no trabalho da vinha: clérigos e leigos, todos somos corresponsáveis. Somos nós e nossas comunidades cristãs a nova vinha do Senhor. Recebemos de Jesus uma missão: somos administradores e servidores da vinha do Senhor. É a nossa própria história.

Aplicando a nós esta parábola, devemos perguntar-nos agora se temos respondido sempre com o direito e a justiça, quer dizer, com fidelidade, à oferta de salvação que o Senhor nos tem feito repetidamente ao longo de nossa vida.

Se observarmos com atenção o mundo à nossa volta, reparamos que existe abuso de poder, corrupção, violência; não são estes, certamente, os frutos que Deus espera. O Evangelho obriga-nos, pois a olhar em frente, em direção ao futuro, para transformar esses frutos da nossa sociedade, que infelizmente não correspondem ao Reino para onde caminhamos. A parábola exorta-nos a não sermos conformistas: Deus, como no tempo de Isaías, continua a esperar de nós “justiça”.

Nossa vida, nossas relações interpessoais, têem às vezes mais sabor amargo do que doce “mosto” (sumo de uva destinada à fermentação). O fato é que os nossos frutos, muitas vezes não correspondem com os que Deus espera: justiça e direito, ao contrário, encontra Ele violência e abusos, algo aconteceu. Quebrou-se essa relação amistosa entre o vinicultor que cuida e espera o melhor da vinha ele plantada e cuidada com tanta ternura.

Neste sentido, o apóstolo Paulo na carta aos Filipenses (cf. Fl 4,6-9) nos dá uma pista: “Ocupai-vos com tudo o que é verdadeiro, respeitável, justo, puro, amável, honroso, tudo o que é virtude ou de qualquer modo mereça louvor.”(v.8)

Em um mundo em que com frequência se valoriza mais o sucesso e o poder do que o serviço, a agressividade mais que a bondade, Paulo põe aos nossos olhos o que de verdade importa, aquilo que temos de buscar e valorizar acima de tudo: bondade, amabilidade, virtude. Ainda que isso não esteja em moda.

O apóstolo se atreve inclusive a pôr-se a si mesmo e sua mensagem como sinal: “praticai o que aprendestes e recebestes de mim ou que de mim vistes e ouvistes.” (v. 9) A autoridade do apóstolo neste caso é a do testemunho, a de quem não só encontrou Cristo, mas também deu a vida por Ele. É a autoridade de quem vive aquilo que prega. E aqui está a chave para reconhecer os que são autênticos pastores em contraste com os assalariados que, como nos narra a parábola, não só se fazem donos da vinha, senão que desconhecem Aquele que lhes encarregou de seu cuidado, a seus enviados e até ao próprio Filho do dono da vinha.

Apropriar-se da comunidade cristã: ocupar o lugar de Deus, nos fazer de chefes, senhores da comunidade, donos dela, únicos intérpretes do que é justo, é esquecer que somos todos, parte da vinha, cepas plantadas cuidadosamente pelo Senhor, que, ao final o que espera de nós são frutos de amor.

A liturgia nos propõe hoje a leitura desta “parábola da rejeição”, não para nos dizer que os israelitas perderam o direito de povo eleito, por haver rejeitado o Messias e o seu Evangelho, mas para que não nos arroguemos o direito de sermos donos da vinha, do Reino.

Os cristãos, sofremos o perigo de nos julgarmos os donos da salvação e da verdade. A verdade e a salvação pertencem a Deus, e elas só produzem frutos quando encontram a terra boa do amor e do acolhimento. O contrário da “parábola da rejeição” que acabamos de ouvir seria a “parábola do acolhimento”: “A todos que o receberam deu o poder de se tornarem filhos de Deus”. (Jo 1,12)

Os artigos postados no Paraibaonline expressam essencialmente os pensamentos, valores e conceitos de seus autores, não representando, necessariamente, a linha editorial do portal, mas como estímulo e exercício da pluralidade de opiniões.

Padre José Assis Pereira

* Padre José Assis Pereira Soares é párcoco da Paróquia Nossa Senhora de Fátima, no bairro da Palmeira.

falecom@fhc.com.br

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