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Peixe e pescaria

Jurani Clementino. Publicado em 8 de março de 2019 às 11:40

Pescaria sempre foi uma espécie de ritual que me chamava a atenção. Principalmente aquela feita com anzóis. Escolhíamos os anzóis de acordo com o tamanho do peixe a ser fisgado. Prendíamos aquela armadilha num fio de nylon amarrado a varas de bambu. Qualquer caroço de feijão cozido ou nacos de carne fresca serviam como isca. Sentávamos a margem do rio, riacho ou açude, jogávamos o anzol na água e, em profundo silêncio, ficávamos esperando que um inocente peixe faminto viesse se alimentar. Às vezes a espera acabava rapidamente, mas o normal mesmo era que ela demorasse. Ali, às margens daquele poço, a gente cultivava toda a nossa paciência. Com a mordida do peixe na isca sentíamos a vara de bambu tremer nas nossas mãos. Pela força da mordida na isca submersa, também costumávamos identificar o tamanho do peixe. As piabas e os corrós beliscavam de leve, as traíras e os piaus mordiam com força e faziam um movimento brusco como se quisessem fugir como a comida. Cabia ao pescador, naquele momento, fazer um pequeno movimento na vara, o anzol prendia-se nas guelras e puxávamos o peixe para fora d’água.

Capturar aquele peixe compensava toda aquela demora, dava um prazer danado. Também nos estimulava a seguir a pescaria. Tínhamos a sensação de que iríamos pegar mais e mais. Era como se fosse um jogo de baralho onde o vencedor momentâneo sempre se acha poderoso e invencível. O pescador é assim. Pra mim, o melhor peixe para se pegar no anzol era o piau. Eles pareciam bobinhos e andavam sempre em cardume. Pescava-se um e logo pegávamos mais. Mas debaixo daquelas águas nem tudo era alegria. Vez por outra fisgávamos um cágado no anzol. Pra tirar era uma luta. Eu, particularmente morria de medo. Dos cágados e dos mussuns. Estes pareciam cobras pretas. Perdi muitos anzóis e muitas linhas de nylons foram toradas com a força daquelas enguias que se agarravam nas raízes, entravam em locas e não tinha quem puxasse pra fora da água.

Pescar de anzol foi uma espécie de meditação juvenil espontânea. Às vezes passávamos à tarde concentrados naquela atividade e nem víamos a noite chegar. Quando dávamos por nós, a noite tinha vencido o dia. O que não gostávamos de fazer era tratar aqueles pescados. Retirar as vísceras e as escamas deixavam um mal cheiro danado nas mãos. Ninguém queria e quase sempre sobrava para o próprio pescador. Mas, para todo sertanejo, um prato de baião de dois com peixe de água doce frito é uma coisa impagável. Ainda hoje não me acostumei com peixe de água salgada. Meu paladar prefere aquelas traíras, piabas, piaus e curimatãs dos riachos, açudes e poços sertanejos. Eles eram tão abundantes que quando chovia e os açudes sangravam os peixes saiam enlouquecidos nadando contra a correnteza. Pegava-se com facilidade usando choques, landuás e com as próprias mãos. Parecia um milagre, como podia tanta fartura em tempos de tremenda escassez. Era como se Deus enviasse aos pobres um pouco do seu maná. Era a multiplicação dos peixes. Como se num piscar de olhos, toda aquela região se transformasse numa grande Canaã, a terra prometida.

Jurani Clementino

Baía da Traição – PB – Sábado  02 de março de 2019

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Jurani Clementino

Jornalista, Doutor em Ciências Sociais, Escritor e Professor Universitário. Autor de: Forró no Sítio (Crônicas, 2018) e Zé Clementino: o ´matuto que devolveu o trono ao rei. (biografia, 2013).

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