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Campina Grande - PB

Pedaço de mim

Comerciante mata quatro bandidos, após reagir a assalto em Cacimba de Dentro - image data on https://paraibaonline.com.br18/06/2016 às 9:59

Fonte: Da Redação

alberto-ramos

Oh, pedaço de mim

Oh, metade amputada de mim

Leva o que há de ti

Que a saudade dói latejada

É assim como uma fisgada

No membro que já perdi…

… A saudade é arrumar o quarto

Do filho que já morreu

PEDAÇO DE MIM (Chico Buarque)

Chico retratou a dor da perda do grande amor e a comparou à perda de um filho ou de uma parte do corpo.

Que me desculpe Chico, mas não concordo com tudo que disseste.

Perda de um grande (pelo menos pensava que era) amor, quem não teve?

Penso que a dor de um grande amor pode ser olvidada. Dói pra caramba. Quando acontece é grande. Imensa. Pensamos que não dá para conseguir viver com tanta dor. No entanto, pode-se partir para outra.

Como disse Vinicius, “…que seja infinito enquanto dure…”, ou seja, se acabou, há sofrimento. Depois passa. Falou quem entendia de partir para outra.

Felizmente nunca vivenciei a dor da perda de um filho, mas imagino dolorosíssima, inolvidável, inesquecível, imponderável.

Infelizmente tenho vivenciado em demasia a dor da perda de uma parte de si.

Nós que fazemos endocrinologia, ortopedia e cirurgia vascular em Campina Grande, convivemos há décadas com uma quantidade indecentemente crescente de amputações de pés e pernas de diabéticos.

Alguns podem estranhar o adjetivo indecente.

No entanto, discordando de Jessiê Quirino que, na última apresentação que assisti, falou que a única palavra indecente que conhecia era FOME, atrevo-me dizer que AMPUTAÇÃO, em minha opinião, também é uma palavra indecente.

Principalmente se levarmos em conta que provavelmente 70 a 80% das amputações não traumáticas realizadas em nossa cidade poderiam ser evitadas se fizéssemos um mínimo de prevenção.

E são muitas amputações.

Apesar da dificuldade de acesso aos dados, estimamos em cerca de 600/ano de amputações não traumáticas. Este número provavelmente por vários motivos está subestimado.

Como poderiam ser evitadas, pergunta a arguto leitor?

A medicina preventiva é a área mais eficiente da medicina. Podemos falar em prevenção primária, secundária e terciária.

A prevenção primária é a forma de evitar adoecer. É extremamente eficiente. Ou seja, tem a melhor relação custo-benefício. Essa relação é importante para a saúde pública. Em praticamente nenhum lugar do mundo se pode gastar com a saúde sem pesar o custo e o benefício. Como o dinheiro para a saúde é sempre pouco, os recursos devem ser usados de forma inteligente.

Normalmente, o investimento em ações na rede primária, evitam gastos com a secundária e terciária.

Seria o caso de programas de incentivo a atividade física e a boa alimentação para evitar as chamadas DCNT (Doenças Crônicas Não Transmissíveis) – Hipertensão Arterial, Diabetes, Infarto, AVC, etc.

O investimento é relativamente pequeno e o retorno é grande, volto a salientar.

Pessoas e países inteligentes fazem prevenção primária.

E não estão inventando nada.

Desde Hipócrates se dizia que a deusa da prevenção, Higéia (de onde saiu a palavra higiene), era muito mais importante que a deusa que curava as doenças, Panacéia. As duas, filhas de Asclépio (Esculápio para os romanos), deus da medicina e netas de Apolo, o deus do sol.

O ideal seria termos programas capazes de evitar as DCNT. Seria o caso de educação para a nutrição correta, principalmente de crianças e adolescentes, estímulo a atividade física com ciclovias (por exemplo), melhoria do transporte público, segurança para que pudéssemos transitar pelas nossas ruas e calçadas, etc.

Sendo otimista, espero que meus netos possam usufruir disso.

Na prevenção secundária já estamos correndo atrás do prejuízo. No caso do diabetes, a pessoa já tem a doença. Cabe à equipe de saúde prevenir as complicações.

A prevenção das complicações é feita com diagnóstico precoce e tratamento adequado. O tratamento adequado precisa de um sistema que forneça medicamentos, que seja célere na realização de exames complementares e pareceres que a equipe da unidade básica eventualmente precise.

No caso do diabetes e outras doenças crônicas um item importantíssimo do tratamento é a educação.

Temos evidências desta afirmação.

Um estudo da década de 90 mostrou que uma hora de educação fornecida a pacientes diabéticos diminuía o risco de amputação de membros inferiores (MMII) em 80% durante dois anos.

Todos sabemos que as complicações do diabetes (cegueira, infarto, AVC, insuficiência renal, amputações, etc.) são devastadoras. Quando não matam, comprometem seriamente a qualidade de vida.

Podem ser evitadas com o tratamento intensivo desde o início. Vários estudos já comprovaram esta assertiva. Já é um paradigma.

Tem custo mais caro que a prevenção primária mas ainda tem uma relação custo-benefício favorável.

Quando ela falha, resta a prevenção terciária. Custa muito caro ao sistema e tem pouca efetividade.

Consiste em fazer hemodiálise e tentar um transplante renal. Ou fotocoagulação com laser para evitar a cegueira. Ou a cirurgia de revascularização do miocárdio (conhecida como ponte de safena) ou angioplastia coronariana para melhorar a capacidade funcional do coração. Ou ainda a revascularização de artérias periféricas para evitar as amputações.

Ou fornecer a prótese de pé ou perna para quem já foi amputado.

Lembro que quanto mais avançamos no nível de prevenção, será menor o benefício que levaremos ao paciente e custará mais caro aos sistema.

A pergunta que qualquer pessoa com dois neurônios faz é: porque não fazer prevenção primária? Ou secundária?

Ou. O que precisamos fazer em Campina Grande e cidades que nos referenciam?

O que podemos fazer AGORA?

Já estamos perdendo a guerra da prevenção primária. E a secundária?

Em primeiro lugar precisamos investir em diagnóstico precoce e tratamento adequado. Para isso, precisamos de treinamento adequado para o pessoal da rede básica no que se refere a critérios de diagnóstico e tratamento do diabetes e da hipertensão arterial. Muita gente ainda não conhece os novos critérios para tratamento dessas doenças.

Na questão treinamento, infelizmente desde o final da gestão de André Luiz na Secretaria de Saúde do município, os profissionais de saúde estão sem treinamento sistematizado. Atualmente tem voltado de forma tímida e esporádica. Dependente do voluntarismo de alguns poucos.

Essa capacitação sempre foi feita pelo pessoal da UFCG sem nenhum ônus para a municipalidade.

Custo zero.

Porque não reiniciar?

Quando eu fui diretor clínico do Hospital Universitário Alcides Carneiro (HUAC) em 2013, ofereci via a então gestora, treinamento para todos os médicos e enfermeiros da rede básica no que se refere aos cuidados com os pés dos pacientes com diabetes.

Além disso, naquele ano, no Congresso Paraibano de Endocrinologia, realizado aqui em Campina Grande, a Dra. Marta Nóbrega preparou um Workshop sobre cuidados com os pés, contando inclusive com profissionais da UNICAMP (embora a nossa equipe de médicos e enfermeiros do HUAC seja de primeira linha). Nem precisávamos do pessoal de São Paulo. No entanto eles vieram, o treinamento foi um sucesso mas infelizmente não houve continuidade.

Quando falo em treinamento não me refiro apenas a qualificação para o tratamento medicamentoso. Penso também no rastreamento adequado e tratamento precoce das complicações do diabetes e, talvez o mais importante, aprender a educar o paciente.

Obviamente o treinamento adequado dos médicos e dos outros profissionais de saúde, apesar de importante, não é suficiente.

A Secretaria de Saúde tem que garantir que além do treinamento, precisa disponibilizar para a equipe, exames complementares de qualidade, medicações adequadas e a possibilidade de referenciar para serviços de maior complexidade.

A referência a esses serviços tem sido um problema crônico. Atualmente, a Secretaria tem um sistema de marcação de consultas extremamente ineficiente. Quase sempre, nossos mapas com 12 a 16 vagas não têm nem metade dos pacientes. Enquanto isso os usuários esperam até um ano por uma consulta com especialista.

Além disso, os pacientes precisam ter acesso garantido a outros profissionais como oftalmologistas, cardiologistas, nefrologistas, psicólogos, etc.

Mas o objetivo deste artigo é o paciente que adquire alguma complicação, principalmente a vasculopatia e a neuropatia periférica. Essas duas complicações são responsáveis por quase 100% das amputações de MMII.

Quando falha a prevenção secundária, o sistema tem que disponibilizar meios de diagnóstico e tratamento adequados.

É o que preconizamos, junto com os colegas angiologistas e ortopedistas, há décadas.

Os endocrinologistas pedem por isso há muito tempo.

O nosso primeiro trabalho científico publicado (década de 80), tinha como tema a educação prevenindo complicações.

Com a chegada da nova geração de angiologistas em nossa cidade, a quantidade de amputações passou a também incomodá-los. Eles procuraram o gestor municipal da época com uma proposta de intervenção que visava o diagnóstico das lesões vasculares e a intervenção para a revascularização.

Poderiam ser evitadas muitas amputações.

Ou otimizadas.

Explico.

Se o cirurgião vascular sabe em que nível do membro inferior (MI) está a obstrução, ele faz a cirurgia de revascularização e salva a perna. Se não tem o exame, a amputação é inevitável. Quando ele consegue, por critérios clínicos, descobrir o nível da obstrução ele amputa naquele nível. Se ele não consegue, amputa na porção superior da coxa.

Muitos poderiam nada perder. Muitos poderiam perder apenas um dedo ou uma parte do pé. Terminam perdendo todo o MI porque o cirurgião, se não sabe o nível da obstrução, deve fazer a amputação alta.

Repito.

Imaginem quantos perdem todo o MI quando uma revascularização seria salvadora. Ou perdem todo o membro quando poderiam ser submetidos a uma amputação mínima.

Em termos de reabilitação funcional, a diferença é abissal porque o sistema é muito ruim. Depois de amputados, começa a verdadeira via crucis do paciente para conseguir a prótese.

A burrocracia é imensa. A qualidade das próteses é péssima. Os programas de reabilitação são tragicamente ineficientes.

Os amputados geram impacto econômico importante. Não conseguem as próteses ou recebem equipamentos de quinta categoria que não permitem uma vida nem perto de normal.

E a qualidade de vida? Ninguém fica impassível ao escutar o sofrimento de pessoas que de repente passam a ter limitações severas e a depender de outros para quase tudo.

Estudos mostram que os pacientes amputados têm um risco muito maior de desenvolverem ou piorarem das complicações do diabetes e de sofrerem nova amputação.

Já os que sofrem amputação nos dois membros, tem uma expectativa de vida reduzida. Cerca de 80% morrem em 5 anos. Ou seja, a mortalidade é maior que 95% dos pacientes com câncer.

Fim da explicação.

Sabem o que o então gestor disse?

Hômi (assim mesmo). Isso é muito caro! É melhor cortar!

Parece mentira que alguém que se acha competente para ser Secretário de Saúde de uma cidade como Campina Grande diga uma atrocidade desta.

Quando ouvi pela primeira vez, contada por um dos participantes da reunião, achei que era mentira. Só depois que conversei com outros é que acreditei que um médico-gestor tinha sido tão incompetentemente cruel.

Um verdadeiro Adolf Eichmann.

Ou melhor, um Josef Mengele, já que estamos falando de um médico.

Após o malfadado citado acima, teve um interino que resolveu pagar os procedimentos da hemodinâmica do HUAC.

Explico.

Na década de 90 o HUAC conseguiu um equipamento de última geração para realizar procedimentos como arteriografia e revascularização tanto de coronárias como de MMII.

Foi feito concurso e foram contratados angiologistas, cirurgiões cardíacos, hemodinamicistas e toda a equipe necessária para a realização dos procedimentos de diagnóstico e tratamento de obstruções de coronárias e de MMII.

Depois de muito vai e vem burocrático, a direção da época conseguiu que os procedimentos realizados fossem pagos pela SS.

Durante quase um ano, entramos no século XX.

Depois, repentinamente, sem nenhum aviso, a SS parou de pagar o procedimento!?

Lembro que o HUAC vivia e vive do que produz.

A direção do HUAC na época ainda aguentou alguns meses. Depois teve que parar porque o procedimento, caro, estava tirando recursos do hospital para atividades básicas.

O equipamento ficou obsoleto, as equipes foram transferidas para outros serviços públicos e a população que depende do SUS dançou.

O que queremos da Secretaria de Saúde é pouco.

Em primeiro lugar treinar bem as equipes de saúde da rede básica.

Em segundo lugar, fornecer condições de trabalho.

Por exemplo. Quase nenhuma equipe de saúde tem monofilamento de Simes-Wistergen.

Não estamos falando de nada muito oneroso.

O monofilamento custa cerca de R$ 10,00 para quem compra poucos. Quem compra muitos deve reduzir o custo pela metade.

Tem que ter programas de treinamento e horários para realizar os programas com os pacientes.

Em terceiro lugar, usar o conhecimentos que temos no HUAC.

Burrocratas de segundo e terceiro escalão tem, por décadas, envenenado a relação entre a UFCG/HUAC e a SS.

Quando fui diretor do HUAC, tentei melhorar a relação com a Secretaria. A secretaria de então, boa pessoa com quem eu tinha uma relação de amizade relativamente boa, até que aceitava. Quando chegava nos burrocratas de segunda e terceira a coisa empacava.

A realização de procedimentos de maior complexidade como angiografia e revascularização tem que ser retomada, de preferência no serviço público.

O que não se pode fazer é postergar medidas.

As pessoas que estão perdendo pedaços de si, agradecem.

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