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Paulo Freire: esperançar, sempre necessário!

Flávio Romero. Publicado em 20 de setembro de 2021 às 14:17

Em 19 de setembro o Brasil comemora o centenário de nascimento do educador e filósofo pernambucano Paulo Freire, reconhecido como um dos pensadores mais notáveis da história da Pedagogia mundial, notadamente por seus ensaios sobre a pedagogia crítica. Não é sem razão que Paulo Freire é o Patrono da Educação Brasileira, sendo festejado e reconhecido no mundo inteiro.

Meus primeiros contatos com as lições de Paulo Freire ocorreram na minha Formação Inicial, no Curso de Licenciatura em Biologia da antiga URNe, hoje UEPB. Descortinar o véu para compreender as lições Freirianas, foi um desafio. Posso dizer que representou, inclusive, a ruptura de ideias prévias e até preconceituosas que trazia da minha própria vida escolar. Freire me ensinou que não existe neutralidade na educação. Me ensinou que educar é um ato político e revolucionário, notadamente no contexto de profundas desigualdades que sempre marcaram a sociedade brasileira.

Lembro que na condição de licenciando, estagiando no Colégio Estadual da Prata – “O Gigantão”, em Campina Grande, não somente tentava apresentar os conteúdos que me eram previamente estabelecidos pelos professores Simão Rodrigues e Miguel Guedes (in memoriam), responsáveis pelas disciplinas de Prática de Ensino, como, também, já buscava incluir nos meus primeiros ensaios em sala da aula, elementos caracterizadores da educação problematizadora, capaz de levar o aluno a compreender o conteúdo de Ciências e de Biologia, numa perspectiva crítica – já era Paulo Freire mexendo com as minhas “entranhas” de educador em formação.

Com Paulo Freire aprendi que a missão libertadora da Educação passa, necessariamente, por despertar a consciência dos oprimidos, provocando uma inquietação reflexiva que possa leva-los à ação libertadora. Certamente, ao longo do tempo, compreendi melhor a inserção multifocal das palavras oprimidos e libertação. Sendo um ato revolucionário, se entende que por meio da educação, e de forma coletiva, o indivíduo deve ser “provocado” a tomar consciência de sua condição histórica, a assumir o controle de sua trajetória e a conhecer sua intrínseca capacidade de superação.

Neste sentido, afirmava Paulo Freire: “Não basta saber ler mecanicamente: ‘Eva viu a uva’. É preciso compreender qual a posição que Eva ocupa no seu contexto social, quem trabalha para produzir uvas e quem lucra com esse trabalho”. Assim, o desafio da pedagogia emancipatória e autônoma, fundantes do Método Freiriano de Alfabetização, era mostrar que ao invés de um aprendizado mecânico, de letras e palavras, descasadas da realidade dos educandos, era preciso fomentar e compreender a realidade e o universo vocabular destes educandos, para que a alfabetização ocorresse mediante a discussão da realidade peculiar de suas vidas e dos seus problemas cotidianos.

Apesar de inicialmente se propor a apresentar um método revolucionário de Alfabetização, as ideias de Paulo Freire foram alcançando dimensões cada vez mais abrangentes, se tornando argamassa imprescindível à compreensão do ato de ensinar, em todos os níveis e modalidades da educação. Freire se tornou presença insubstituível na academia, no “chão da escola” e nas rodas de conversas, em que a educação é temática central.

Quem se propõe a ser educador, certamente, revela ao mundo um pouco do saber que acumulou das lições Freirianas. Estas lições representam o “fio condutor” que “une as pedras”, na perspectiva de uma educação que se pretende emancipatória, crítica e cidadã.

Neste aspecto, pontuava Freire: “Ninguém luta contra forças que não entende. Ninguém transforma o que não conhece. Quando a educação não é libertadora, o sonho do oprimido é ser o opressor”.

Esse ideário explica a razão pela qual Paulo Freire é tão hostilizado pela direita brasileira. Não é sem razão que a pedagogia Freiriana é temida, atacada e levianamente deturpada por “líderes” dessa direita retrógada que assume temporário (e limitado) protagonismo no cenário político brasileiro.

Sob esse aspecto, e apenas como um registro exemplificativo, não se pode olvidar a fala de ofensa venal, infame e descabida do presidente à frente do Palácio da Alvorada, no seu “cercadinho”, em 16 de dezembro do ano passado, ao acusar, injustamente, o filósofo Paulo Freire de “deseducar” o povo por meio de um projeto “totalmente de esquerda”, finalizando por chamar o educador de “energúmeno”. Aliás, tem se tornado banal no cotidiano das falas do presidente esses traços grosseiros, boçais, toscos e incivilizados ao se referir às pessoas e aos fatos marcantes do nosso país.

No entanto, os ataques do presidente ao Patrono da Educação nacional não são meras bravatas, insanas e pontuais. Fazem parte de uma estratégia ideológica e política que caracteriza um governo de extrema direita. Não custa relembrar que desde que tomou posse, Bolsonaro escolheu a educação e os educadores como “inimigos”. As primeiras ações revelam essa estratégia de desmontar a educação, para impor uma ideologia que se opõe aos princípios éticos e civilizatórios que marcaram a história recente da política educacional brasileira, a exemplo da educação inclusiva, da cultura da paz, do respeito às singularidades e às diferenças, dos direitos humanos, etc.

Atacar a educação e aos educadores é atacar o saber, o conhecimento e a criticidade – atributos que se constituem em “inimigos” dos governos que se pretendem antidemocráticos e totalitários.  No governo de Bolsonaro, os quatro Ministros da Educação que já passaram pela gestão, cada um em seu modo peculiar de ação, apresentaram o mesmo modus operandi: o desprezo pela educação como política estratégica à afirmação de direitos e de construção de cidadania – argamassa do pensamento Freiriano.

Apesar de comemorado no mundo inteiro, coube ao atual governo brasileiro a tentativa, frustrada, de invisibilizar e até de desprezar a importância de Paulo Freire para a educação pátria e mundial. Por essa razão, não há comemoração do seu centenário – nem nas hostes palacianas e nem no “cercadinho” – espaço que tem se materializado como fundante na difusão das “ideias” e das “ações” do des(governo) atual. O “cercadinho” é a régua e o compasso do governo Bolsonaro. Neste espaço diminuto não cabe a grandeza de Paulo Freire.

No Brasil atual, marcado por discursos de ódio, por incivilidade, por retrocessos e pelo desmonte das políticas públicas, é mais do que necessário reverenciar e comemorar o centenário de Paulo Freire. A sociedade civil, por meio de diversas Instituições e entidades, têm feito a justa homenagem que o governo federal se negou a fazer.

No Brasil de hoje e de sempre, esperançar deve ser o verbo a ser transformado em luta – parabéns, Paulo Freire.

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