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Pau de sebo, malhação do Judas e presentes de Semana Santa

Jurani Clementino. Publicado em 18 de abril de 2019 às 11:16

O período que compreende o Domingo de Ramos e o Sábado de Aleluia sempre foi marcado por simbolismos religiosos e profundo respeito. O jejum, as penitências e a prática de devoções acompanharam nosso cotidiano e povoaram o nosso imaginário. Se os quarenta dias que antecedem a Ressurreição de Jesus Cristo evitava-se comer carne vermelha, a prática do jejum era religiosamente intensificada, bem como toda e qualquer restrição ao consumo de bebida alcoólica. Tudo isso fez parte do nosso cotidiano. Aos mais velhos nos dirigíamos com respeito absoluto. Especialmente na Sexta-feira Santa. Nesse dia em especial ajoelhávamos diante deles para pedir a benção. Era ainda nesse dia que recebíamos, de nossos padrinhos, os presentes de Páscoa. Podia ser qualquer coisa. Mas ficávamos satisfeitos. O triste era não receber nada. Quantos sabonetes Alma de Flores, Palmolive e Alfazema fizeram a nossa felicidade juvenil. Receber aqueles sabonetes era um luxo. Quando alguém perguntava o que havíamos recebido de presente de Páscoa enchíamos a boca e dizíamos uma caixa de sabonete. Era de dar inveja aos que não haviam recebido nada. Por isso todo padrinho era cuidadoso e guardava um daqueles produtos de higiene pessoal, certamente adquirido na feira do mês, para entregar ao afilhado.

Mas outro evento bastante comum nesse período é a visita dos caretas. Homens e mulheres vestidos com máscaras e roupas coloridas que saem pedindo esmolas nas casas. Andam de sitio em sítio, carregando chocalhos barulhentos, assoprando apitos, tocando sanfonas e zabumbas e puxando um animal que pode ser uma mula ou um jumento. No lombo desse animal colocam-se todos os donativos recebidos de porta em porta. No final de tudo, na noite de Sábado de Aleluia organizam o que chamam de “malhação do Judas”. Trata-se de um desafio onde num pequeno cercado são colocados os donativos recebidos nas andanças. Geralmente jovens corajosos tentam roubar. Nessa hora, guardas armados com chicotes feitos com cordas e ou couro de animal tentam evitar o furto. As pessoas assistem a tudo de perto.

Faz parte ainda desse período que mistura experiências com o sagrado e o profano no Nordeste brasileiro, o famoso “pau de sebo”. Trata-se de uma brincadeira cujo desafio é subir num grande mastro e conseguir retirar uma espécie de prêmio colocado exatamente no topo. O problema é que esse tronco está coberto por sebo, óleo, graxa ou qualquer coisa que dificulte o percurso de quem tenta subir. Nesse tipo de brincadeira se destacam os jovens e os adolescentes que se revezam durante horas para conseguir retirar o prêmio.

Tais práticas que envolvem dar e receber presentes, os atos de penitencias que incluem a abstinência de carne e o jejum, além do respeito para com os mais velhos, a folia dos caretas que levam alegria e medo às comunidades rurais e bairros urbanos, a brincadeira de “malhação de Judas” e o desafio de subir no famoso “Pau de Sebo” representam um esforço em manter viva uma tradição do folclore brasileiro. Deixam as nossas datas comemorativas mais alegres e asseguram a continuidade de nossas experiências vividas e sentidas.

Jurani Clementino

Campina Grande 16 de abril de 2019

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Jurani Clementino

Jornalista, Doutor em Ciências Sociais, Escritor e Professor Universitário. Autor de: Forró no Sítio (Crônicas, 2018) e Zé Clementino: o ´matuto que devolveu o trono ao rei. (biografia, 2013).

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