Fechar

logo

Fechar

Patrimônio: memória e desenvolvimento

Noaldo Ribeiro. Publicado em 9 de maio de 2019 às 10:11

O patrimônio de uma cidade, seja material ou imaterial, não tem nada de saudosismo ou apego a um passado sem retorno. Por representar a memória de uma determinada época, ele registra a história de uma cidade ou de um país, no mais das vezes de interesse da população e, principalmente, de turistas – pessoas que viajam de seus países ou regiões para desfrutar de lazer, conhecer culturas, enfim, travar contato com o que normalmente não encontram no seu lugar.

Se é assim, pode-se perguntar: Campina Grande detém alguma potencialidade turística? Que a resposta não venha da boca de nativos xenófobos, mas que venha da voz insuspeita de estrangeiros.

O consagrado cantor e compositor baiano, Gilberto Gil, diz: “Essa vontade, esse anseio de ser Nova Iorque que Campina Grande tem… Essa característica de entreposto, de eixo, de carrefour, de cruzamento do Nordeste. A cidade que recebia fluxos de todas as regiões. A cidade da feira, a cidade do mercado, a cidade do negócio, a cidade onde tudo se troca, tudo se vende, tudo tem valor e nada tem valor. Quer dizer, já símbolo da modernidade…”.

Um depoimento desse naipe, emitido por um ex-ministro da cultura do Brasil já responde afirmativamente ao questionamento, posto como mera provocação, porém há mais a dizer.

Inegavelmente, o Maior São João do Mundo, cujo marketing atinge até o exterior, enlevou o nome da cidade além-fronteiras. Isto é bom, porém há bem mais a fazer.

A título de exemplo, é visível a presença de visitantes de segunda a quinta-feira, ocupando, razoavelmente, o setor hoteleiro. Diz-se, intuitivamente, que se trata de representantes da indústria farmacêutica, profissionais liberais, gente de negócio.

De onde eles vêm? Além de oportunidade de compra e venda, o que a cidade tem a lhes oferecer? O cardápio cultural da cidade, e de seu entorno, é disponibilizado para esses passantes? Só uma pesquisa acurada poderá mensurar os questionamentos e orientar as ações dos órgãos competentes.

Contudo, paralelamente, urge realizar a travessia do turismo sazonal para o turismo permanente, transformando essa atividade em efetiva indústria geradora de ocupação, renda e receita.

Num primeiro momento, retomar o projeto de revitalização do centro histórico, abrangendo não apenas o tratamento cromático do casario déco, mas requalificando o antigo Cine Capitólio e, ainda, a implantação do Shopping a Céu Aberto (velho sonho), é crucial.

Embora desnecessário assinalar, a participação dos atores envolvidos, comerciantes e lojistas e suas entidades representativas, além dos entes da cadeia produtiva do setor e instituições acadêmicas e das mídias são igualmente importantes.

Para quem desdenha do potencial do déco campinense, vale a pena prestar atenção ao depoimento, postado na página do facebook de Walter Tavares, de outro estrangeiro insuspeito, Marcio Roiter, uma das maiores autoridades em art déco, no mundo, e fundador/diretor do Instituto Art Déco Brasil, do Rio de Janeiro: “Que 2019 traga bons ventos de valorização e grande avanço na autoestima dos Campinenses ao perceberem o quão rico é esta herança. De verdade, são poucas as cidades no Brasil com tamanha quantidade e qualidade de construções Art Déco.”

Roiter sabe o diz e conhece bem o que representa para o desenvolvimento turístico de Miami (EUA), a preservação do art déco – programa obrigatório para turistas do mundo inteiro.

Há mais, ainda, a se explorar. É preciso traçar uma estratégia de uso e ocupação dos velhos armazéns da Estação Velha, junto ao Museu do Algodão, oficializado por lei com a denominação de Centro Turístico Integrado Cristiano Lauritzen, projeto do saudoso prefeito Evaldo Cruz e, em caráter de urgência, o Museu Histórico, sedeado na mais antiga edificação da cidade, fundado pelo atual vice-prefeito Enivaldo Ribeiro.

Contudo, esses casos serão tratados em artigos posteriores. Por hora, basta assinalar que é importante que o turista que vem em junho para os festejos juninos e os passantes que, normalmente vem a cidade de segunda a quinta-feira, desfrutem de um leque maior de opções. Opções, estas, que podem servir de ponte para que a atividade turística saia da sazonalidade para a permanência.

Share this page to Telegram

Os artigos postados no Paraibaonline expressam essencialmente os pensamentos, valores e conceitos de seus autores, não representando, necessariamente, a linha editorial do portal, mas como estímulo e exercício da pluralidade de opiniões.

Mais colunas de Noaldo Ribeiro
Noaldo Ribeiro

* Sociólogo.

[email protected]

Arquivo da Coluna

Arquivo 2018 Arquivo 2017 Arquivo 2016 Arquivo 2015

2018 - Paraiba Online - Todos os direitos reservados.

BeeCube