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Passando de passagem por Passagem

Vanderley de Brito. Publicado em 19 de junho de 2019 às 10:59

Foto: acervo pessoal

Dentro de um imenso anfiteatro natural, um vale compreendido entre fascinantes serras, a impressão que sentíamos era de insignificância em meio ao magnífico quênio que se forma no Vale do Farinha, corredor natural, entre desfiladeiros, que dá entrada ao Sertão das Espinharas. Ybynharaã, diriam os indígenas tapuias se estivéssemos em meados do século XVII, termo corrompido hoje para espinharas, que em língua nativa queria dizer “começo do Sertão”. De fato, o Sertão da Paraíba se inicia exatamente onde os contrafortes do Planalto da Borborema declinam para se igualar aos terrenos pediplanos dos sertões patoenses, e o acesso mais viável (menos íngreme) se dá pelo Vale do Rio Farinha.

A cidade de Passagem fica exatamente na desembocadura do Vale, à base da majestosa Serra do Firmiano, cujo umbral forma boqueirão com a serra oposta, a chamada Serra do Abra, e abre caminho aos horizontes sertanejos, por isso, desde tempos coloniais, o nome do lugar é “Passagem”.

A cidade é pequena, teve seu desenvolvimento atrofiado quando a velha rodovia (atual BR 230), que antes seguia o Vale do Farinha, nos tempos da implantação de sua cobertura asfáltica foi desviada por interesses políticos para descer a Serra de Santa Luzia. Poderíamos dizer que essa arbitrariedade de interesses coronelísticos de certo maneira foi favorável, pois as cidades do Vale do Farinha estagnaram no tempo, de modo a manter sua originalidade histórica e suas formações naturais, que, diga-se de passagem (sem trocadilho), tem uma beleza geomorfológica de tirar o fôlego.

Todas essas impressões perpassavam por minha mente enquanto, juntamente com meu filho, apreciávamos a paisagística daquele recanto de mundo esquecido. Havia alguns meses que vínhamos nos empenhando em escrever a história do lugar, vasculhando documentos velhos e visitando os recantos mais insólitos do município para recolher dados.

Na verdade eu entrei nessa história por acaso, desígnio, talvez. Tudo começou em fevereiro de 2017. Meu filho Erik Brito, que também é historiador, foi contatado pelo prefeito da cidade, Magno Martins, para orientar sobre um museu que se pretendia criar na cidade, ele aceitou o convite e me convenceu a ir também a título de acompanhante. No entanto, enquanto trabalhávamos na montagem do museu, fomos nos aprofundando na história local com o mero objetivo de buscar identificar o museu com o processo de desenvolvimento do lugar. Mas, no curso de nossa pesquisa, percebemos que a dita “História oficial” do município estava eivada de falhas e inverdades que precisavam ser revistas. Quando expomos ao prefeito essa situação fomos surpreendidos com a desafiadora proposta de reescrevermos a História de Passagem.

O prefeito Magno, embora seja um homem simples, é dessas pessoas que tem um interesse incomum por tudo que relaciona à cultura e à memória, e nos deu todo o apoio necessário para a pesquisa. Por questões metodológicas, eu fiquei encarregado de escrever a história colonial e imperial do município (tenho uma simpatia natural em retroceder no tempo e penetrar no longínquo do passado), e os tempos ditos contemporâneos ficaram a cargo de Erik. Mas logo percebemos a imensa dificuldade de amealhar documentos sobre o município, que é relativamente novo, e também o prazo que nos foi concedido era curto para montarmos uma história plausível nos moldes técnicos de se historicizar uma região cujos primórdios de colonização remontavam o século XVII. O desafio parecia mais desafiador do que imaginávamos, e era exatamente nesse dilema em que nos encontrávamos, enquanto envolvidos (literalmente) pela paisagística dos sertões das Espinharas.

Além de dezenas de entrevistas, já tínhamos fuçado os arquivos do Instituto Histórico e Geográfico de Patos, da Fundação Ernani Sátiro, da paróquia da Guia, da Fundação Casa de José Américo, o arquivo do Espaço Cultural José Lins do Rego, toda minha biblioteca, algumas de amigos, mas a história tinha travado e os dados que havíamos arregimentado não ultrapassavam trinta laudas.

– Preocupante, disse eu a meu filho. E ele, despreocupadamente, respondeu brincando: – A menos que a gente invente mais umas trinta laudas.

Naquela brincadeira despretensiosa, que visava apenas dar humor à nossa aflição, surgiu a ideia de escrever uma história-romance: – Isso. Vamos inventar, mas com honestidade! E daí saiu o livro “Passagem das Espinharas”, um misto de história e ficção, onde procuramos mesclar os fatos com uma intrigante trama carmática, evocando genealogia, misticismo, etnografia e sutilezas de diversas áreas científicas para escrever uma obra de História Cultural que viesse a despertar o interesse dos leitores em buscar elucidar tudo aquilo que a exiguidade documental e temporal não nos permitiu alcançar.

Quando trouxemos as primeiras páginas do novo projeto, o prefeito Magno se encantou, era exatamente aquilo que ele queria. Um livro instigante onde a história pudesse ser degustada, e até ele contribuiu com sugestões, poderíamos dizer que Magno é um coautor da obra, pois noites e noites afora debatemos com ele, em sua varanda, a construtiva da obra.

Confesso que esse é um dos trabalhos que mais gostei de compor, o mais interessante é que enquanto eu tramava a história colonial, simultaneamente Erik montava à contemporânea, e toda vez tínhamos que negociar o ficcional porque a minha parte devia se interligar à dele, de modo que por vezes ele metia o bedelho na minha seara e outras vezes eu era quem intervinha na sua fatia. Ríamos muito, conversávamos por horas, criávamos situações hilárias, personagens interessantes, enfim, o produto saiu numa harmonia fantástica. Vale a pena ler.

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Vanderley de Brito

Historiador, Arqueólogo, Presidente do Instituto Histórico de Campina Grande e membro fundador da Sociedade Paraibana de Arqueologia.

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