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Páscoa, experiência de vida e salvação

Padre José Assis Pereira. Publicado em 15 de abril de 2017 às 11:18

Por Padre José Assis Pereira

O coração do mistério e do anúncio cristão está na palavra “ressuscitou!” Nossa fé cristã, diz Santo Agostinho “é a ressurreição de Cristo”. Que Cristo tenha morrido, todos admitem, também os pagãos e seus inimigos. Que Ele tenha Ressuscitado só os cristãos acreditam e sem admitir esta verdade não se é cristão.

Mas, como provar a Ressurreição de Cristo? Primeiro temos o testemunho de Deus-Pai sobre Jesus Cristo. Pedro afirma em um discurso catequético: “Deus ungiu com a força do Espírito Santo a Jesus de Nazaré, que passou fazendo o bem e curando a todos… porque Deus estava com Ele. Nós somos testemunhas de tudo o que Ele fez, no país dos judeus e em Jerusalém; e eles mataram-no, suspendendo-o na cruz. Deus ressuscitou-o ao terceiro dia e permitiu manifestar-se.” (cf. At 10,34a.37-43) Portanto, somente a ressurreição é a prova da autenticidade da pessoa divina de Jesus e da verdade de sua missão.

Mas, também atesta a ressurreição o próprio Jesus depois da Páscoa. Ele mesmo nos dá testemunho de si mesmo: “Eu estive morto, mas estou vivo para sempre. Tenho as chaves da morte e da morada dos mortos.” (Ap 1,18) Este poder absoluto de Cristo provém do fato de que Ele experimentou interiormente a morte, e agora vive para a eternidade; Ele superou a morte para si e para todos.

Mas, onde está Cristo? Com a Ressurreição Jesus entrou numa nova condição. “Lá em cima“ no Céu, metáfora espacial que indica o mundo de Deus, Jesus está sentado “à direita do Pai”, igual a Ele na natureza divina; Tanto “lá em cima” como “cá em baixo” é o mesmo Cristo que está ainda presente de modo particular nas aparições depois da Páscoa, e em cada dia numa forma invisível, mas real, na Eucaristia: “Eis que Eu estou convosco todos os dias, até ao fim do mundo.” (Mt 28,20)

No Evangelho desta manhã do Domingo de Páscoa (cf. Jo 20,1-9) acompanhamos Maria Madalena, a primeira pregadora da Ressurreição indo ao sepulcro, símbolo da morte. Segundo João, “no primeiro dia da semana, Maria Madalena vai ao sepulcro, de madrugada, quando ainda estava escuro e, vê que a pedra fora retirada. Corre então e vai a Simão Pedro e ao outro discípulo, que Jesus amava, e lhes diz: ‘Retiraram o Senhor do sepulcro e não sabemos onde o colocaram’.” (vv. 1-2)

Dirige-se sozinha ao túmulo, inclusive ela fará isso duas vezes. Nesta vez primeira ela viu que a pedra tinha sido retirada e interpreta o acontecimento como roubo do corpo. Naturalmente, o sepulcro vazio, como tal, não pode ser uma prova da

Ressurreição. Na segunda visita, não incluída no texto de hoje, olhou para dentro do túmulo, viu então anjos e depois viu o próprio Jesus, mas não o reconheceu. (cf. Jo 20,11-18)

Maria Madalena é figura simbólica, é a única anunciadora do túmulo vazio; representa a comunidade sem a perspectiva da fé, incapaz de assimilar a morte de Jesus. Ela descobre a Ressurreição, mas não a pode interpretar. Em João isto é expresso pelo simbolismo do “discípulo amado” e de Pedro, na experiência com o Ressuscitado. Mas, não nos esqueçamos que ela receberá logo adiante a missão extraordinária de ser testemunha da ressurreição: “Vai dizer aos meus irmãos.” (cf. Jo 20,17)

Para nós existe a possibilidade de vivermos a Páscoa, a celebração e a experiência da morte e Ressurreição de Jesus, como algo extraordinário, fora do normal, fora do cotidiano de nossa vida, como algo que celebramos, vivemos e desfrutamos exclusivamente nestes dias de nossa Liturgia, sem que se faça presente em nossa vida cotidiana.

É que ás vezes esses dias do Tríduo Pascal que terminamos neste Domingo da Ressurreição, se transformam em algo assim como os fogos de artifícios, que são luz, mas não são a luz de cada dia, apenas luzes coloridas de festa e espetáculo de dias especiais, mas incapazes de iluminar realmente. A Páscoa pode converter-se, como fogos, algo fugaz, em algo que se vê, se celebra, mais que fica aí, se acaba, para voltar ao que fazíamos antes, a nossas ocupações de cada dia sem que haja nada mais profundo.

E sem negar que a Semana Santa são dias especiais, às vezes, e por desgraça, se fica nisso, em uma espécie de parênteses de nossa vida, e não, como deveria ser para o cristão, uma vivência de cada dia, que a cada dia cobra sentido. Uma experiência profunda que nutre de vida nossa vida.

E a Páscoa é, ou deveria ser tudo, menos algo fugaz. A Páscoa é a experiência da vida e da salvação, da esperança sobre toda dor e sobre toda injustiça. O encontro com o Ressuscitado da Páscoa, como aos Apóstolos e a Maria Madalena, nos abre os olhos para ver a realidade da existência de outra perspectiva, é capaz de transformar nossa maneira de olhar e ver, nossa maneira de viver. A Páscoa tem na verdade a capacidade de transformar.

Mas essa experiência não é algo que simplesmente se vê, e também não é algo que seja somente pontual, momentâneo e fugaz. Em nenhum momento do Evangelho desta manhã de Domingo de Páscoa se disse que o Ressuscitado foi visto, o que se disse é que ao ver os panos e o túmulo vazio, creram… É que a experiência do Ressuscitado é algo que nasce dos olhos da Fé, de quem confiou numa pessoa e numa comunidade, é uma experiência de outra ordem que puramente física e sensorial.

De novo frente aos fogos de artifícios, a luz da Páscoa é muito mais difícil de descobrir. Não deslumbra, não é um espetáculo de milhões de pessoas, é algo muito simples, algo sutil, marcado por indícios e detalhes, mas que não se impõe a ninguém. Requer muito mais o estar aberto, disposto, à espera. Quase que com pressa, o Evangelho de hoje está cheio de carreiras e de ansiedade. È uma lógica diferente da do mundo ordinário, a que domina na experiência da Páscoa. É uma lógica de confiança, de amor, de experiência, de urgência também. Não pode encontrar-se com o Ressuscitado quem antes não o tenha escutado em sua palavra, quem não o tenha buscado na mensagem do Evangelho.

A experiência da Páscoa pois, se vive sempre com outros, em comunidade, em cada gesto de afeto, de esperança, de ajuda, em cada momento que damos e recebemos vida. Em cada morrer para ter uma vida mais vida, para nós, mas especialmente para os outros, se faz presente o Deus da vida que ressuscitou Jesus Cristo. Em cada um desses momentos estamos fazendo presente a Páscoa, a passagem do Senhor, a Ressurreição de Jesus Cristo.

É por isso que a experiência profunda e real do Ressuscitado transforma a quem a tem, sendo muito mais que um mero momento, fugaz e pontual. E precisamente por isso, porque não é fugaz, tem seu percurso no tempo, sendo capaz de mudar e transformar vidas, sendo capaz de trazer-nos a nós nossa própria Ressurreição. Se na cruz de Cristo estamos todos crucificados, na sua Ressurreição, de algum modo, ressuscitamos todos.

O bom do Tempo Pascal que hoje começamos é que temos cinquenta dias até Pentecostes para cuidar que essa experiência de Ressurreição tome corpo, faça parte de nós, seja motor e guia de nosso dia a dia. Para que não sejam meras luzes brilhantes e coloridas como a de fogos de artifício, para que a luz intensa do Ressuscitado se interiorize e nos empurre a caminhar, à vida nova.

Os artigos postados no Paraibaonline expressam essencialmente os pensamentos, valores e conceitos de seus autores, não representando, necessariamente, a linha editorial do portal, mas como estímulo e exercício da pluralidade de opiniões.

Padre José Assis Pereira

* Padre José Assis Pereira Soares é párcoco da Paróquia Nossa Senhora de Fátima, no bairro da Palmeira.

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