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Parteiras

Jurani Clementino. Publicado em 11 de abril de 2019 às 23:12

Por Jurani Clementino

As parteiras são uma instituição sertaneja. Nas regiões mais isoladas do país, especialmente no Nordeste, elas agiam como pediatras, enfermeiras ou médico obstetra de famílias carentes. Auxiliavam nos partos e na recuperação das parturientes. Sempre solícitas, atendiam aos chamados, geralmente feito às pressas, como se exercessem uma vocação, um dom especial, uma missão aqui na terra. Não cobravam nada pelo serviço. Suas imagens estão eternizadas em filmes, composições de músicas, livros e pinturas. Atualmente perderam espaço diante da criação de postos de saúde, pelo trabalho dos agentes comunitários e com a democratização no acesso ao atendimento básico de saúde.

Conheci uma das parteiras mais famosas de Várzea Alegre e até do Ceará. O nome dela era Ana Alves Bezerra ou apenas “Mãe Ana”. Morava no sítio Juazeirinho e estima-se que auxiliou mais de mil partos. Ou seja, mais de mil crianças ali das redondezas chegaram ao mundo através de suas mãos. Viúva, devota de Padim Ciço, dona de uma voz firme, recordo-me dela, já velhinha, sentada no alpendre de sua casa. Ajudou a botar tanto menino nesse mundo e estabeleceu uma relação tão generosa com a vida que deu trabalho a morte. “Mãe Ana” faleceu com mais de cem anos. Foi a necessidade de ajudar o próximo e o amor pela vida que deram àquela mulher, descendente de escravos, o diploma de parteira do sertão.

Parece que ser parteira é garantia de vida longa. Essa semana, quem completou noventa e um anos de vida, foi Dona Antônia Leandro ou “madrinha Antônia” a parteira lá da minha comunidade. Ao mesmo tempo em que ela ajudou a trazer dezenas de meninos ao mundo por ali, dona Antônia também foi responsável por quebrar o encanto da cegonha. A gente foi percebendo que não havia cegonha nenhuma que trazia aqueles meninos pendurados pelo bico. Mas parteira também é parturiente e madrinha Antônia teve dezesseis filhos, criaram-se onze. Dividida entre a maternidade e a condição de parteira, ela ajudou a dezenas de mulheres a dar a luz. Era chamada pela madrugada ou a qualquer hora do dia e sempre estava lá. Auxiliando a chegada daquelas frágeis crianças que desejavam viver.

Dona Antônia aprendeu a amar o próximo e demonstra isso através de varias formas. A mais comum delas é distribuindo abraços e cheiros. Eles são demorados e verdadeiros. Oferece seus braços para a gente viver, deitar, dormir dentro deles. Sem pressa. Foi assim que ela estabeleceu também a sua relação com a vida: não há porque se apressar.

Viúva há quase trinta anos Madrinha Antônia coleciona números familiares. Recebe diariamente a visita de alguns de seus filhos. Fica feliz porque sabe que eles estão sempre por perto. Vez por outra chega também algum dos seus cinquenta netos, que vem para lhes pedir a benção, bater um papo e dividir os almoços familiares. Ali ela recebe ainda alguns bisnetos, ao todo já somam cinquenta. E dessa árvore genealógica que só ganha ramificações tem mais três tataranetos.  Em sua casa no sítio Queixada, erguida sobre um penhasco à beira da estrada, ela acompanha o tempo passar. Talvez recordando os tempos em que aquela calçada era tomada pelos vizinhos e conhecidos para ouvir seu esposo, Vicente Leandro, tocar os tradicionais forrós do fim de semana. Ou quem sabe imaginando o prazer que foi ver os filhos crescerem subindo e descendo aquela calçada ou correndo por aquelas estradas de barro. Ah, talvez lembrando com saudade de quando um mensageiro trazia um recado apressado para que ela fosse ajudar a botar mais uma criança no mundo.

Os artigos postados no Paraibaonline expressam essencialmente os pensamentos, valores e conceitos de seus autores, não representando, necessariamente, a linha editorial do portal, mas como estímulo e exercício da pluralidade de opiniões.

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Jurani Clementino

Jornalista, Doutor em Ciências Sociais, Escritor e Professor Universitário. Autor de: Forró no Sítio (Crônicas, 2018) e Zé Clementino: o ´matuto que devolveu o trono ao rei. (biografia, 2013).

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