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Pão para todos, numa mesa comum

Padre José Assis Pereira. Publicado em 28 de julho de 2018 às 16:31

No domingo passado, São Marcos (cf. Mc 6,30-34) descreveu a atitude de Jesus ao ver a multidão: “teve compaixão, porque eram como ovelhas sem pastor e ensinou-lhes muita coisa.” (v. 32) No evangelho de hoje (cf. Jo 6,1-15) Jesus vendo a multidão cansada e faminta pergunta a Filipe: “Onde vamos comprar pão para que eles possam comer?” (v. 5) É muito bonito ver que Jesus não só alimentava o povo com o pão da Palavra, mas se preocupava também com a fome deste povo.

Um menino com toda generosidade coloca à disposição “cinco pães de cevada e dois peixes” (v. 9). É muito pouco, é quase nada, para uma multidão de cerca de “cinco mil” pessoas (v. 10). Mas Jesus admira a partilha generosa do pouco daquele menino e serve-se dela para alcançar o que pretende, disse: “Fazei sentar as pessoas… tomou os pães, deu graças e distribuiu-os aos que estavam sentados”. O pão bastou para todos e ainda sobrou. (vv. 11-13) este fato é uma preparação para o discurso sobre o “Pão da Vida”, a Eucaristia no evangelho de São João.

Também para o profeta Eliseu, um homem de Deus, um profeta de sinais e grande taumaturgo, foi suficiente vinte pães para alimentar cem homens (cf. 2Rs 4,42-44). Ao profeta são-lhe oferecidos “vinte pães de cevada e trigo novo” que um homem traz no “alforje”, são as primícias que pertencem a Deus, mas que Eliseu vai destinar aos pobres do povo. O profeta prescinde do que tem direito e ao invés de pensar em si mesmo, pede que os pães sejam distribuídos ao povo como sinal do dom que vem de Deus.

Claro que não bastam para alimentar tanta gente, mas o Profeta sabe que o Senhor está pronto a intervir, ele apenas pensa no povo e partilha a pequena contribuição para matar a fome. O pouco basta para todos e ainda sobra, pois o pão é insuficiente quando cada um procurar saciar só a sua fome, mas multiplica-se quando todos estão dispostos a colaborar a fim de que ninguém fique privado do que lhe cabe.  

Mas não quero fazer uma analise sociológica deste texto, refletindo sobre a fome, mas explorá-lo numa dimensão espiritual, ou seja, desejo pensar, a partir deste texto, na atitude de gratuidade, generosidade, partilha, doação, comunhão e do dom que é caracteristica da fé bíblica.

A fome não é questão de falta de alimentos, é questão de falta de amor. Poderíamos dar aqui todos os dados e cifras assustadoras da morte, desnutrição e pobreza absoluta de milhões de pessoas, e ficarmos tranquilamente indiferentes, ou talvez ocultá-los para que não nos causem inquietação. Mas o primeiro sinal que Cristo nos dá em seu seguimento é descobrir o irmão.

O messianismo de Jesus não é de estômagos cheios, mas de algo mais. A felicidade não reside tanto no ter, quanto no compartilhar. Quando se dar, o coração vibra, se oxigena, rejuvenesce. Para que serve, ao final da vida um grande patrimônio que não esteve inclinado ou aberto ao serviço de alguém ou de uma boa causa cristã?

A pergunta que Jesus faz a Filipe continua a nos fazer: “Onde vamos comprar pãon para que eles possam comer?” (v. 5) Enquanto percebermos a gravidade do problema igual a Felipe: “Nem duzentas moedas da prata bastariam para dar um pedaço de pão a cada um”. (v. 7) Encolheremos os ombros, nos sentiremos impotentes e resolveremos não fazer nada.

Que significado tem a minha pequena ação? Como uma gota em um oceano ou como um grão de areia no deserto: Nada! Parece ser essa nossa justificativa, mas a imensidão do oceano é composta por milhões de pequenas gotas e a grandeza do deserto se forma de um sem fim de imperceptíveis grãos de areia. É certo, não sou mais que um grão de areia, mas sou capaz de pensar, de amar e de compartilhar. Tenho responsabilidade em minha comunidade e no mundo inteiro; de pequenos grãos de areia são feitas as grandes construções.

Disse André: “Está aqui um menino com cinco pães de cevada e dois peixes. Mas o que é isso para tanta gente? É que tanto Felipe como André olham o problema só pelo lado econômico, a gravidade do problema está mais no coração. Jesus mesmo disse “onde está o teu tesouro aí está o teu coração” (Mt 6,21).

O problema da fome piora quando se lhe aborda como um problema meramente técnico e econômico. Só se alcançará alguma solução se  conseguirmos antes de tudo, transformar as estruturas sociais de tal maneira que a maioria participe diretamente na construção de um sistema fraternal, de uma comunidade  onde todos possam viver como filhos e filhas de Deus. O milagre de Jesus está em seu poder, mas também na generosidade de quem entrega tudo o que tem ainda que pareça tão pouco, como cinco pães e dois peixes, para milhares de pessoas. É o milagre do amor.

A lógica de Jesus, portanto é outra. “Jesus tomou os pães, deu graças e distribui-os aos que estavam sentados… todos ficaram satisfeitos” (vv. 11-11) Ele recebe a pequena contribuição, o pouco oferecido com generosa solidariedade pelo menino e passando por suas mãos basta para todos, multiplicam-se prodigiosamente e é suficiente; porque a solidariedade que brota do seu anúncio unifica os esforços, potencialisa os recursos humanos e multiplica os resultados, podem assim transformar a Igreja, a sociedade e o mundo.

“Fazei sentar as pessoas” (v. 10). A indicação de Jesus nos leva a pensar em uma mesa comum onde todos se sentem comensais em um banquete comum, onde o próprio Cristo vai servi-los. Não é a esmola ou migalhas que caem da mesa; do que nos sobra, o que Jesus oferece. È importante a dignidade de sentar-se à mesa, é o orgulho de quem come do mesmo pão; é sentir-se acolhido, irmão e amigo, tomando parte na mesma refeição. Só assim se sentirão com a mesma dignidade. É insultante a maneira como às vezes damos esmolas, sobras ou restos, ajudas que com frequência os afundam mais.

A fome causa muitas vítimas entre tantos Lázaros aos que não se lhes consente sentar-se à mesa do rico.

Dar de comer o faminto e fazê-lo sentir-se como pessoa, com toda dignidade, é um imperativo para todo seguidor de Jesus; é mais, é uma obrigação de toda pessoa humana. Na era da globalização, eliminar a fome do mundo se tem convertido em uma meta que se há de conseguir para salvaguardar a paz e a estabilidade do planeta, nos ensina o Papa Francisco na Encíclica “Laudato Si”.

São Paulo em sua Carta aos Efésios (cf. Ef 4, 1-6) nos dá um código de vida, a verdadeira razão para buscar ter pão para todos numa mesa comum: “Há um só corpo e um só Espírito, como também é uma só a esperança à qual fostes chamados. Há um só Senhor, uma só fé, um só batismo, um só Deus e Pai de todos”. A razão última para compartilhar e por o muito ou o pouco que somos nesta grande luta, é esta: temos um Pai comum, somos irmãos.

Que nossa reflexão deste dia nos leve a escutar as palavras de Jesus que nos fazem descobrir a fome e a necessidade dos irmãos e nos ajuda a por nosso melhor esforço ainda que sejam muito pobres e mínimas nossas contribuições. Se queremos viver plenamente a Eucaristia, pois, o milagre da multiplicação dos pães prefigura a Eucaristia, necessitamos dividir este Pão Verdadeiro com o irmão que sofre.

O Pão eucarístico: o Corpo de Cristo evidencia na história a superabundância do amor de Cristo. Esse pão que se nos oferece a todos, dia a dia, semana após semana, na mesma mesa nos educa a também partilhar o nosso pão de cada dia com os irmãos.

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