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Campina Grande - PB

Pandemia da intolerância

21/11/2017 às 9:23

Fonte: Da Redação

Por Flavio Romero Guimarães (*)

Indubitavelmente, vivemos tempos difíceis. Em todos os recantos do mundo, recrudescem fatos que deixam à mostra a intolerância. O mundo contemporâneo tem evidenciado, com notoriedade, que a intolerância se coloca como uma espécie de pandemia global. Por meio dessa infecção da alma, os doentes seguem dispersando o vírus, cujos sinais e sintomas mais comuns são o discurso do ódio, os atos de violência e a tentativa de aniquilamento da criticidade.

A humanidade parece que já se acostumou com ataques aos monumentos históricos, aos massacres de segmentos populacionais, aos atentados terroristas, entre outros. Esses são alguns exemplos que trazem à luz a conjuntura de intolerância. É certo que a intolerância não é um mal da humanidade contemporânea. A história registra fatos que realçam a intolerância em todas as épocas da humanidade. Apesar da humanidade assistir com certa apatia a estes episódios políticos, religiosos e sociais, a discussão sobre a pandemia da intolerância carece de reflexão mais acurada.

A exemplo das demais infecções virais, a pandemia da intolerância vai se instalando sorrateira e silenciosamente. Ao se dispersar na tessitura da alma, o vírus da pandemia da intolerância alcança as dimensões mais profundas, tentando se instalar pela alteração da capacidade racional. Os doentes da alma, vítimas da pandemia da intolerância, usam argumentos supostamente racionais para difundirem a enfermidade de que são portadores à sociedade.

Usando a metáfora da lenda que envolve o rei da Frígia (Ásia Menor) e Alexandre, o Grande, esse é o nó górdio – o suposto problema insolúvel, impossível de ser desatado. Mas, facilmente resolvido por ardil astuto ou por alguém que “pense fora da caixa”.

O nó górdio é exatamente a tentativa de explicar ou justificar que essa espécie de pandemia nada tem a ver com intolerância. Na verdade, para estes doentes da alma, acometidos da pandemia da intolerância, há valores maiores que devem ser preservados. A intolerância se mascara sob o discurso dos “bons costumes” e da “moral cristã”.

Infelizmente, à semelhança de algumas doenças, o enfermo da pandemia da intolerância não tem consciência do mal que carrega em si e que ele mesmo dissemina com suas práticas e discursos cotidianos. Há doentes que sequer têm consciência da doença.

Para os enfermos da pandemia da intolerância, qual seria o mundo ideal? Talvez um mundo sem negros? Talvez um mundo sem pobres? Talvez um mundo sem homossexuais, sem pessoas transgêneros ou travestis? Talvez um mundo cuja família tradicional fosse o único arranjo possível? Talvez um mundo com apenas uma religião dominante? Talvez um mundo marcado por governos teocráticos? Talvez um mundo em que a mulher seguisse ocupando posições de subalternidade em relação aos homens?

Esse mundo – moldado nos valores que estes enfermos defendem, alicerçado, inclusive, no dogma ou no fundamentalismo religioso, ou na falsa moral que determina padrões que devem ser rigidamente impostos e seguidos por todos e todas – é um mundo que não existe! Aliás, é um mundo que nunca existiu, nem nas sociedades que estiveram sob o jugo dos regimes totalitários ou de exceção.

A marca da humanidade não é a homogeneidade. Em nenhuma sociedade humana a homogenia esteve presente. A existência da humanidade se alicerça na diversidade.

Os enfermos da alma, vítimas da pandemia da intolerância, desejam, a qualquer custo, implantar uma sociedade uniforme, na qual (talvez) todos fossem brancos, “normais”, ricos, heterossexuais e seguidores de uma mesma religião ou crença. Aliás, será que nesta sociedade haveria espaço para as mulheres?

Basta estudar um pouco de história para tirar lições do passado e lembrar que as consequências das tentativas de se formar uma sociedade homogênea levaram a humanidade às maiores atrocidades – tomo por exemplo apenas o Nazismo.

Qualquer tipo de intolerância, seja por razão de raça, de religião, de orientação sexual, política ou de etnia/cor, fere a Declaração Universal dos Direitos Humanos e afronta direitos fundamentais amparados pela Constituição Federal e por diversas normas infraconstitucionais, devendo ser veementemente combatida, a fim de se garantir uma sociedade mais igualitária, inclusiva, democrática, justa e livre.

É esse o único remédio para combater a pandemia da intolerância – a defesa, intransigente, da cultura da paz e do respeito às singularidades e às diferenças!

Se há intolerância no mundo contemporâneo e se essa pandemia recrudesce na sociedade brasileira, é preciso relembrar que nosso país apesar de plural, com diversas crenças, com múltiplas raças e etnias, ainda mantém tratamento degradante com diversos grupos vulneráveis, impondo-lhes a exclusão e a invisibilidade sociais.

Nesse sentido, apenas a título de duro exemplo, é preciso reiterar incansavelmente a denúncia acerca do preconceito racial que está vinculado à submissão do negro ao branco desde a época do Brasil Colônia, perdurando, inclusive de forma velada, até os dias atuais, por meio de novas formas de exploração, inclusive do trabalho escravo renitente.

Como não lembrar a intolerância que se abate sobre os praticantes do Candomblé e da Umbanda?

Os adeptos dessas religiões, tratados, pejorativamente, como “macumbeiros”, sofrem constantes e reiteradas agressões físicas e morais por parte de integrantes de outras crenças que tentam impor sua religião como a única detentora da verdade que liberta a humanidade, num claro desrespeito ao preceito constitucional que garante a liberdade de manifestação de credo.

Esse é o Brasil conservador que mascara o preconceito, sob o ideário de que “não existe pecado do lado debaixo do Equador”. É nesse corpo suscetível e com baixa “imunidade” que o vírus da pandemia da intolerância tenta se alastrar. É no corpo desse “gigante adormecido”, aparentemente fragilizado, que o vírus da intolerância tenta inocular, qual uma áspide, o seu veneno nefasto. Felizmente, não é por permanecer adormecido que o gigante não deva nem possa resistir, porque há – nesse momento mesmo em que escrevo – anticorpos sociais em plena atividade.

Reitero, para concluir, o comentário anterior: o único antídoto para combater a pandemia da intolerância é a defesa, veemente, da cultura da paz, da garantia de direitos e do respeito às singularidades e às diferenças.

(*) Professor

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